Venha a Nós o Vosso Voto!

Igrejas se moldam à imagem e semelhança de partidos políticos para transformar orações em votos no Rio Grande do Sul. Criação de conselhos políticos para definir estratégias eleitorais, disputa pelo controle partidário e prévias, intensificam a campanha em nome do Senhor pelo Estado. A reportagem é do jornal Zero Hora, 6-8-2006.

Embora candidatos ligados a confissões costumem concorrer, três gigantes evangélicas se destacam na mobilização política do rebanho de fiéis. Se as hierarquias católica e luterana no máximo toleram candidaturas de sacerdotes, por exemplo, a Igreja Universal do Reino de Deus, Assembléia de Deus e do Evangelho Quadrangular vão lançar mão de estratégias sofisticadas para transferir pastores dos templos para as casas legislativas em 1° de outubro.

Esse fenômeno, iniciado no país em 1986 com a eleição de um deputado federal vinculado à Universal, se disseminou na década seguinte. O professor de antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Ari Pedro Oro afirma que o impacto da Universal serviu de modelo para as outras igrejas pentecostais, que se deram conta do potencial eleitoral dos fiéis.

"A busca de representação política serve para demonstrar força e capacidade de articulação e para ter um interlocutor na defesa dos seus interesses, que podem ir de verbas para programas sociais até maior facilidade para obter concessões de rádio e TV", avalia.

Uma das atuais tendências é a procura por maior influência nos partidos. Depois de mais de uma década em que se manteve aliada ao PTB, por exemplo, a Assembléia de Deus optou por transferir candidaturas para o Partido Social Cristão (PSC).

No PTB, fazíamos votos mas jamais assumimos cargos de comando dos diretórios. Seguimos uma orientação nacional de mudar para o PSC - afirma o membro da igreja e secretário-geral do partido no Estado Osvaldo Oliveira.

Os diretórios estaduais e de Porto Alegre do PSC já são comandados por integrantes da Assembléia de Deus, que conta com uma secretaria política para guiar seus passos eleitorais. Em razão da mudança para um partido menor, a coligação com outras pequenas siglas foi a saída encontrada para atingir a votação mínima necessária para eleger candidatos. O sucesso do projeto serviria como balão de ensaio para que outros pastores que ainda não migraram para a nova sigla sigam o mesmo caminho nos próximos pleitos.

"Em uma eleição com regras rígidas, levamos vantagem pelo contato direto com nosso eleitor. Não precisamos atraí-lo. Ele já está nos templos" afirma Oliveira.

Depois de se afastar do antigo aliado PL na esteira do escândalo do mensalão, a Universal segue a tendência de aumentar o controle religioso sobre os partidos e trabalha na consolidação de uma nova sigla, o Partido Republicano Brasileiro (PRB). A legenda já abriga o vice-presidente José Alencar. No Estado, porém, enquanto o PRB se estrutura, as candidaturas defendidas pela igreja se mantêm filiadas a outras siglas, como PTB e PPS.

A igreja que age de forma mais semelhante a um partido tradicional é a Quadrangular. Postulantes à vida política submetem candidaturas a uma comissão eleitoral para homologação. Conforme a integrante da igreja Sônia Cunha, um ano antes das eleições é realizada uma prévia na qual 1,1 mil pastores definem os nomes dos pastores que vão trocar o púlpito pelo palanque.


Um dia de campanha no templo

Meio-dia. Uma porta com vidros escuros se abre automaticamente para as pessoas que chegam ao grande templo da Igreja Universal, na Avenida Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. No local, centenas de cadeiras na cor bege estão disponíveis para os fiéis. Um pastor conduz o culto. A reportagem é do jornal Zero Hora, 6-8-2006.

"Essa eleição de outubro vai ser para deputado federal e estadual. Independentemente se a pessoa vota aqui em Porto Alegre ou outra cidade, se ela é de Deus, ela vai votar no homem de Deus", diz o pastor, em cerimônia acompanhada e gravada pelo jornal Zero Hora no dia 26 de julho.

Os "homens de Deus" este ano são o bispo Paulo Roberto, candidato a deputado federal pelo (PTB), e o pastor Carlos Gomes, candidato à Assembléia pelo PPS. Os dois "nunca foram políticos", garante o pastor, mas "vão entrar por determinação dos bispos". Quem não votar nos nomes indicados pelo pastor é rotulado como traidor de Deus.

"Um voto dado a um incrédulo é para trair a obra de Deus. Se a pessoa votou num incrédulo ela traiu a obra de Deus", afirmou o pastor.

Na hora de indicar o voto para governador, o pregador se abstém. Paulo Roberto integra a coligação de Germano Rigotto (PMDB). Carlos Gomes, a de Yeda Crusius (PSDB).

"Se você perguntar quem o pastor está apoiando, quem o bispo está apoiando para governador, não tem. Então, para governador, vota em quem quiser. Ou então não vota em ninguém porque não tem", grita o pastor ao microfone.


Pregação pelo voto termina com bênção especial

Quando o assunto é o voto para deputado, o discurso é outro.

"E para deputado estadual, tem? Sim, tem. Vota no pastor Carlos. Se eu votar em outro vou estar fazendo o quê? Traindo. E para deputado federal, quem é? É o bispo Paulo Roberto. Então é nele que eu vou votar", afirma o pastor.

Quem não votar nos candidatos indicados do púlpito é ameaçado.

"Você vai estar traindo a quem? A Deus", reforça.

O pastor diz que outros candidatos querem prejudicar a Universal:

"Vocês ainda vão ter de ter coragem de no dia votar numa pessoa endemoniada? Tem político que para prejudicar a Igreja Universal é com ele mesmo".

O pastor lê um trecho da Bíblia e adverte:

"Na hora que vocês vão votar, se derem o voto aos incrédulos, na hora de tirar o povo de Deus da cruz, na hora de defender a igreja, se aquele deputado está endemoniado, ele vai prejudicar você".

Ao final, anuncia a entrega de santinhos.

"A gente não pode dar os folhetos com as fotos do bispo e do pastor aqui dentro porque é contra a lei. Olha a lei que vocês fizeram", diz.

Ao final, o pastor se dirige até a porta, com as mãos cheias de santinhos. Cada fiel recebe um de cada candidato. O pedido de voto é encerrado com uma bênção especial:

"Digam comigo: eu quero, eu quero ter compromisso com o Senhor. Mãos à obra nesta Terra".


Sanguessugas. Evangélicos no olho do furacão

Na lista de 90 parlamentares notificados na semana passada pela CPI dos Sanguessugas, acusados de envolvimento com esquema de compra de ambulâncias superfaturadas, tem de tudo: de promotor de justiça a pecuarista, de militar reformado a médico. Chama a atenção, no entanto, a presença dos parlamentares da chamada frente parlamentar evangélica. E há três razões para isso. A reportagem é de Roldão Arruda e publicada no jornal Estado de S. Paulo, 6-8-2006.

A primeira é o volume: foram arrolados 30 nomes de bispos, pastores e obreiros de igrejas evangélicas, o que representa quase metade da frente de 62 parlamentares. A segunda razão é o fato de tais parlamentares terem sido eleitos brandindo a bandeira da moralização.

"A maioria vêm de igrejas pentecostais que apontam a política como espaço demoníaco e defendem a eleição de homens de Deus, indicados por elas, para exorcizá-la", observa o pesquisador Leonildo Silveira Campos, da área de ciências da religião da Universidade Metodista de São Paulo.

Um deles dos acusados, o bispo João Mendes de Jesus (PSB-RJ), que teria recebido em espécie do esquema dos sanguessugas, até escreveu um livro nessa área, com o título Servindo a Deus na Vida Pública. O livro foi lançado pela editora da igreja à qual ele pertence, a Universal do Reino de Deus.

Fundada e dirigida por Edir Macedo, essa igreja de inspiração neopentecostal é a que mais investe na política. Curiosamente, também é a mais envolvida nas denúncias: 17 dos 18 deputados da Universal estão na lista.

Em segundo lugar aparece a Assembléia de Deus, com 9 deputados sob suspeita. As outras são as Igrejas do Evangelho Quadrangular, com dois nomes, e a Internacional da Graça e a Batista, cada uma delas com um parlamentar citado.

O envolvimento dos evangélicos também chama a atenção por causa da freqüência com que isso vem acontecendo. Em 1993, quando emergiu o escândalo dos deputados que enriqueciam manipulando emendas orçamentárias, na CPI do Orçamento, descobriu-se que um dos artífices do esquema, Manoel Moreira (PMDB-SP), representava a Assembléia de Deus na Câmara.

No ano passado, ao explodir o escândalo do mensalão, o bispo Carlos Rodrigues (PL-RJ) foi apontado como um dos articuladores do esquema. Acuado, ele renunciou antes de enfrentar a cassação.

O nome de Rodrigues, que perdeu o título de bispo e o cargo de coordenador político da Universal, também apareceu nas CPIs dos Bingos e dos Correios. E agora em maio, no arrastão que a Polícia Federal promoveu para prender os envolvidos no esquema dos sanguessugas, ele foi um dos primeiros.

Freqüentemente, ao serem acusados, os evangélicos reagem com a afirmação de que são vítimas de perseguição religiosa. Foi o que disse Rodrigues quando o então deputado Roberto Jefferson denunciou a participação dele no mensalão. Agora também se repetem comentários deste tipo.

Afirma-se que o alto número de arrolados seria vingança do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), da CPI dos Sanguessugas. Defensor de propostas liberalizantes na área dos costumes, como a regulamentação da profissão de prostituta e a parceria entre homossexuais, Gabeira sempre foi atacado pelos evangélicos.

O deputado Pastor Reinaldo (PTB-RS), vice-presidentes da frente evangélica, não descarta a hipótese de perseguição de Gabeira; e insiste que o fato de o parlamentar ter sido incluído na lista não significa que seja culpado. Por outro lado, acredita, o escândalo pode estimular igrejas a reforçar suas comissões de ética:

"Esses episódios nos entristecem. A maioria dos evangélicos que vieram para cá tinha o propósito de trabalhar com ética e moralidade. Infelizmente a carne fraquejou. É lamentável, mas aconteceu."

Apesar do escândalo, os evangélicos mantêm a meta de dobrar o número de deputados este ano. De acordo com estudioso Ari Pedro Oro, do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, algumas igrejas, especialmente a Universal, costumam dizer aos fiéis que a presença do demônio é tão forte no Congresso que até homens enviados por Deus sucumbem: "Em seguida dizem que é preciso reagir ao demônio, enviando homens mais fortes e em maior quantidade."


João Batista, o das malas, é um dos citados

A Igreja Universal do Reino de Deus foi atingida de várias maneiras pela CPI dos Sanguessugas. Além de reunir quase todos os representantes daquela denominação religiosa na Câmara, a lista de notificados pela CPI inclui alguns notáveis.

Lá encontra-se o presidente da igreja, deputado João Batista - o mesmo que foi preso pela Polícia Federal em julho do ano passado, num hangar da TAM, quando tentava embarcar num avião com sete malas cheias dinheiro. Afastado na época do PFL, hoje ele está filiado ao PP de São Paulo.

A lista também inclui a irmã do fundador da igreja, a deputada Edna Macedo (PTB-SP). Ela aparece no grupo dos parlamentares que teriam recebido em dinheiro do esquema de superfaturamento de ambulâncias. O filho dela, Otávio Bezerra, foi preso no início da Operação Sanguessuga, acusado de corrupção passiva e formação de quadrilha. Ao defendê-lo na Câmara, Edna chorou.

Zwinglio de Andrade Costa
pastor da Ig. Presbiteriana de Cidade Satélite em Natal-RN
 
 
 
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