Jesus não disse que as pessoas que o seguem devem abandonar a cultura na qual vivem. Ele não disse que elas devem se isolar em ilhas cristãs. Ele não disse que Seus discípulos devem renegar a sociedade na qual vivem e seus costumes. ?Não peço que os tire do mundo...?. Ele disse que seus seguidores devem dar um novo sabor a esta sociedade resgatando o que há de humano na humanidade.A turma lá do início entendeu bem isto. Mesmo em meio as ferozes perseguições, primeiro dos judeus depois dos romanos, o pessoal se organizou e enfrentou a situação. Houve mobilização, estratégia e percepção histórica incrivelmente lúcida. É verdade também que, com o passar do tempo, algumas alianças que esta igreja fez roubou seus melhores momentos ? como no caso da boa parte que embarcou alegremente no trem do Constantino.
Enquanto houve inserção cultural (qualquer cultura) desprovida de preconceitos aliada a uma dissidência caracterizada por repúdio ao poder e ao status quo (religioso ou político) aí encontramos uma comunidade (ou indivíduos) alegre, relevante, sadia e impactante.
Assim foi no caso de Jesus que se recusou a ceder aos apelos belicistas e ufanistas de seus discípulos e preferiu pagar o preço de percorrer um caminho de fraqueza que possibilita um outro tipo de poder. Jesus foi um fracasso do ponto de vista humano. Além disso, sua inserção cultural era tão intensa que quando ele quis se esconder daqueles que o perseguiam, bastou se misturar à multidão. Ele era tão igual que Judas precisou beijá-lo para identificá-lo para os guardas que foram prendê-lo. É isso: Jesus era um igual. Manjava da moda. Conhecia a agenda dos seus dias. Sabia sobre os eventos. Estava por dentro das notícias.
Jesus ficava à vontade na presença de qualquer pessoa. Lidava com o Centurião Romano da mesma forma que lidava com uma mulher samaritana. Mas, curiosamente, as pessoas com as quais ele mais se encontrava era com gente do povo e marginalizada. Chegou mesmo a ser chamado de amigo de pecadores. Encontrava-se com gente que eu não me encontro: prostitutas, traidores da pátria (publicanos), leprosos... Jesus foi um exemplo de espiritualidade que celebrou a vida e a cultura. Jesus não se encarnou para negar a humanidade. Ao contrário, Ele tomou a forma humana para nos ensinar a viver de forma humana.
O tempo passou. A comunidade de Cristo virou uma Instituição. Esta Instituição criou, ao longo da Idade Média, um projeto de Cristandade. De maneira simples, isto significava moldar a cultura de acordo com os padrões cristãos. Foi uma tragédia. Pessoas foram queimadas vivas. Genocídios foram cometidos em nome de Deus como na época das Cruzadas. A Europa afundou na ignorância intelectual e nas trevas. A corrupção e a imoralidade tomaram conta da igreja. Os detalhes são chocantes.
A Reforma protestante do século XVI enfrentou questões importantíssimas. Mas não tratou com a devida atenção a questão cultural. Protestantes deram continuidade ao costume de matar em nome de uma cultura cristã.
As coisas melhoraram após a Revolução Francesa com a separação entre Igreja e Estado na maioria das Nações Ocidentais. Mas nossa memória é curta e nosso fundamentalismo é persistente. O que vemos hoje?
Ouvimos pessoas afirmando que precisamos moldar a cultura brasileira aos padrões bíblicos. O que isto significa? Tornarmo-nos judeus? Pois as histórias bíblicas se passam dentro de um contexto judaico.
Ora, não existe cultura divina ou diabólica. A cultura quem faz é o homem. O problema é que fomos evangelizados por missionários americanos que não trouxeram apenas o evangelho, mas também sua cultura. Assim, tocar agogô, zabumba, sanfona, repique dentro de nossas igrejas é pecado, coisa do diabo. Órgão e piano são instrumentos que dignificam a música sacra. Será que a diferença está na qualidade do instrumento ou é porque um é de negros e o outro de brancos anglo-saxões?
O que temos aqui é racismo puro e simples. Parafraseando o pastor Wellington Santos da Igreja Batista de Pinheiro, Maceió/AL, se berimbau e capoeira tivessem sido inventados em Londres seriam louvados pelos crentes protestantes como divinos. Mas como é coisa de negro e pobre, é do diabo. E afirmar que estes instrumentos e manifestações culturais são usados em cultos a demônios não vale. Qualquer instrumento e qualquer coisa podem ser usados num culto demoníaco. Mas aí o problema está no culto e não nessas coisas. Os instrumentos criados na Europa também foram utilizados em cultos pagãos.
Há uma tentativa de grande parte do protestantismo brasileiro em criar uma ?cristandade gospel?. Repetir os erros da Idade Média. A idéia é mais ou menos a seguinte: ?não ouçam música do mundo porque é do diabo. Comprem o meu CD, pois esse é de Deus. Não votem em fulano de tal porque ele não é crente, votem em mim, pois sou irmão. Não freqüentem tal lugar porque é mundano, freqüentem a minha pizzaria porque é lugar de evangélico?. E por aí vai. Essa tentativa de se criar uma cultura paralela, essa ?cristandade gospel?, é um prato cheio para os oportunistas de plantão. Tem muita gente ganhando rios de dinheiro vendendo Cd?s, muitas vezes sofríveis, realizando eventos que não sabemos se é show, adoração, evangelização ou o que é, ganhando cargos públicos para conseguir aprovar um projeto que institui o dia da Bíblia para delírio dos crentes e nos bastidores participam da pouca vergonha que é a política nacional... É óbvio que tem muita gente séria em todos esses meios. Mas nossa preocupação é chamar a atenção para aqueles que usam a igreja como meio para se darem bem na vida. Para estes, é interessante demonizar a cultura e, infelizmente, boa parte da igreja acha que isto é muito espiritual. Em nome de uma suposta espiritualidade, somos esquisitos demais nas nossas roupas, nas nossas músicas, nos lugares que freqüentamos, no nosso jeito de ser. Pois bem, a história nos ensina, isto não vai acabar bem. É a crônica de uma morte anunciada...
Mas quem sabe. Quem sabe não seja preciso perder com as ilusões também as esperanças. Quem sabe veremos o dia em que a igreja vai perder o medo de se misturar com receio de perder o seu sabor. Não é para sermos sal? Quem sabe um dia esta igreja vai perceber marcas de Deus também naqueles que não estão caminhando com o ?nosso? grupo. Quem sabe um dia levaremos a sério a famosa frase dos reformadores ?igreja reformada, sempre buscando reforma?. Quem sabe um dia vamos aprender a celebrar a vida em tudo aquilo que ela tem de belo e não apenas nas coisas que acontecem dentro das quatro paredes dos nossos templos. Quem sabe um dia vamos parar de fingir, de brincar de seres espirituais, quase desencarnados, de brincar de anjos, quase alados, e vamos nos tornar uma igreja verdadeiramente humana. Uma igreja que paga o preço de ser humana e se assume assim, com todos os seus defeitos e contradições. Aliás, me parece que este é um dos propósitos da encarnação de Jesus, não nos tornar seres espirituais, mas tornar-nos mais humanos...
Wanderley Pereira da Rosa é formado em Teologia e Filosofia e é diretor da Faculdade Teológica Unida.