Trindade

ImageAo elaborar a doutrina da Trindade, a Igreja formulou uma doutrina da revelação de Deus. O objetivo central da doutrina é testemunhar como Deus se manifestou à humanidade.
Como é que nós podemos entender a idéia de três pessoas em um só Deus?
Quando a doutrina da Trindade foi elaborada, o termo pessoa foi usado de uma maneira diferente do que nós empregamos hoje. Para os teólogos da época, o termo pessoa referia-se à máscara usada no teatro. A formulação da doutrina quer nos transmitir que Deus se dá a conhecer através de três rostos: Pai, Filho e Espírito Santo. O mesmo e único Deus se manifesta à humanidade através de três maneiras - três rostos. Uma só essência se apresenta com três papéis para realizar a redenção da humanidade.
Deus atua em unidade e também em diversidade. O Pai proporciona existência ao Universo através do Filho, e sua atividade se realiza no Espírito Santo.
O Pai iniciou o plano de salvação. Ele cria, escolhe e chama. Ele é quem toma a iniciativa da reconciliação.
Mas é o Filho quem entra pessoalmente na história, assumindo a obra salvífica. Jesus Cristo é o rosto solidário de Deus para com a humanidade. No Filho nós descobrimos que Deus está conosco.
O Espírito é a presença pessoal de Deus em nós. A presença do Espírito mostra que a revelação de Deus é contínua, presente e viva. Deus continua se revelando na vida de cada um de nós. O Espírito é o Deus em nós.
A doutrina da Trindade tem como objetivo central o testemunho da ação salvífica de Deus em favor de nós.
Deus se manifesta de três maneiras e cada uma destas manifestações está em relação com as outras.
O Deus único e transcendental também está aberto para o mundo. Tornou-se um ser humano no Filho e comunica o seu Espírito a todos que o recebem.
No domingo em que celebramos a Trindade, nós somos conclamados a fazer uma avaliação de tudo o que Deus tem realizado pela humanidade. O Pai nos criou, escolheu e chamou. O Filho se solidarizou conosco, resgatando e redimindo a humanidade, O Espírito nos vivifica, nos ilumina e nos capacita com dons para a obra divina!
Somos escolhidos pelo Pai, redimidos pelo Filho, e revitalizados no Espirito Santo. E, no entanto, todo agir divino é ação do único Deus vivo e verdadeiro!

TEXTO COMPLETO

A DOUTRINA DA TRINDADE

Ao elaborar a doutrina da Trindade, a igreja primitiva queria formular uma síntese do conteúdo da revelação cristã.
Não se trata de uma doutrina de Deus, mas de uma doutrina da revelação.
Como é que nós podemos entender a idéia de três pessoas em um só Deus?
Precisamos inicialmente analisar o termo ?pessoa?.
Para a igreja primitiva, o termo pessoa não era equivalente ao conceito de personalidade que conhecemos hoje, quando nos referimos a um indivíduo.
O termo grego hypóstasis corresponde ao termo latino persona e designa a ?máscara? usada no teatro. A palavra foi adotada da linguagem do teatro. O termo hypóstasis designava o papel a ser interpretado. A intenção dos teólogos era dizer que o mesmo Deus empregou três maneiras diferentes para se manifestar no palco deste mundo. Deus se deu a conhecer através de três rostos, ou - na linguagem do teatro - através de três máscaras ou três papéis.
Em resumo: A doutrina da Trindade quer dizer que o mesmo e único Deus se manifestou à humanidade através de três maneiras - três rostos, três pessoas. Uma só essência se apresenta com três papéis para realizar a redenção da humanidade.
Em Êx 3:14 temos uma formulação muito apropriada a respeito de Deus: Javé é aquele que é e que há de vir. No significado do nome Javé está expresso o mistério de Deus: ele é o Deus vivo, que se relaciona com o ser humano.
Deus não pode ser descrito e nem demonstrado através de comprovações; ele simplesmente é. Isto significa que ele não pode ser enquadrado em nossas categorias de tempo. O Deus que é, também é o mesmo que foi e que será. Deus é um mistério, mas não é um enigma. Um mistério permanece, mas um enigma pode ser desvendado, mais cedo ou mais tarde. E ao desvendarmos um enigma, nós nos tornamos senhores sobre ele.
O Deus que é e que há de ser (Êx 3:14) é aquele que está aí para se manifestar a nós. Ele quer se dar a conhecer.
O Sl 139 também dá um testemunho de como Deus nos envolve.
Deus é o mesmo no Antigo como no Novo Testemento. O Pai de Jesus Cristo é o Deus transcendental e é também o Javé de Israel. Entre Javé de Israel e o Pai de Jesus Cristo não há uma diferença quanto ao Ser, mas uma diferença quanto ao revelar-se. Ao enviar Jesus Cristo, Deus se deu a conhecer de uma maneira nova e plena. Observemos Hb 1:1-3. Olhando em retrospecto, Cristo é o mediador da criação, e olhando para o futuro, Cristo é o herdeiro de tudo. Esta é a revelação universal de Deus.
Deus quer nos envolver e também quer penetrar em nosso íntimo. Deus nos conduz como Pai, mostra-se solidário a nós na pessoa do Filho, e atua dentro de nós com o seu Espírito.
A singularidade da fé cristã está expressa no prólogo do Evangelho de João: ?O Logos se fez carne.? (Jo 1:14).
Para os judeus, esta declaração mostra que Deus não é uma entidade fechada e imutável, mas ele pode se revelar num ser humano histórico.
Aos pagãos é afirmado que a transcendência de Deus pode estar presente num ser humano e na história da humanidade.
A fé cristã foi divulgada na mesma época em que foi ensinada a filosofia grega. Muitos teólogos foram influenciados pelo platonismo. E, com recursos filosóficos, queriam tornar compreensível sua fé no Logos.
Foram feitas então tentativas para descrever a relação entre o Logos e Deus Pai.
Os teólgos Justino, Hipólito, Tertuliano e Orígenes afirmaram que só Deus Pai possui a divindade em sentido pleno. Por isso, o Filho está subordinado ao Pai. Esta doutrina foi chamada de ?subordinacionismo?.
Os teólgos Noeto e Práxeas desenvolveram a doutrina do ?adocianismo?. Declararam que Cristo é um ?homem adotado?.
O teólogo Sabélio declarou que Pai, Filho e Espírito Santo são meras aparências do único ser divino. Esta doutrina foi chamada de ?modalismo?, pois afirma que as três pessoas são meros modos de aparecer.
No Concílio de Nicéia, realizado no ano 325, foi empregado o conceito homousios, que significa ?da mesma natureza?, para afirmar a verdadeira divindade do Filho, que se origina do Pai. E assim foi dada uma resposta a Ário, que colocara o Filho no âmbito da criação e não de Deus.
O Concílio de Nicéia conseguiu fazer uma distinção entre filosofia grega e teologia cristã.
O primeiro Concílio de Constantinopla, realizado em 381, levou a reflexão adiante e se ocupou com a divindade do Espírito Santo.
Foi afirmado que Pai, Filho e Espírito Santo são o mesmo Deus único e verdadeiro.
Deus atua em unidade e também em diversidade. O Pai proporciona existência ao universo por intermédio do Filho, e sua atividade se realiza no Espírito Santo.
Deus é uno em sua natureza - physis.
Mas Deus é trino nas pessoas - hypóstasis.
Quando falamos da revelação de Deus e de sua ação salvadora, então o Pai, o Filho e o Espírito não desempenham o mesmo papel.
O PAI iniciou o plano de salvação. Ele cria, escolhe e chama. Ele é quem toma a iniciativa da reconciliação. Mas o Pai não entra pessoalmente na história da salvação.
O FILHO é quem assumiu a obra salvífica. No Filho, a revelação divina tem uma vinculação histórica. Jesus pode ser localizado na história da humanidade. A revelação de Deus não é uma idéia vaga e sujeita a especulações, mas é um acontecimento histórico ocorrido com o Filho. Cristo é o Deus conosco.
O ESPÍRITO, a princípio, é o substituto de Jesus na terra. A seguir, a ação de Deus não ocorre mais através do Espírito, mas o próprio Espírito passa a atuar. O dom do Espírito não deve ser entendido como uma coisa, mas é a presença pessoal de Deus em nós. A presença do Espírito mostra que a revelação de Deus é contínua, presente e viva. O Espírito é o Deus em nós.
Vemos pois que a doutrina da Trindade está totalmente centrada na ação salvífica de Deus em favor de nós.
A essência de Deus compartilha-se a si mesma. Deus se comunica de três maneiras. Mas cada uma destas maneiras está em relação com a outras.
Os teólogos da igreja primitiva queriam penetrar no mistério da nossa salvação. Hoje o conceito de trindade se tornou abstrato, fazendo-nos pensar num abismo misterioso. Para nós, as três pessoas da trindade se referem a uma complexidade intradivina. A trindade nos parece distante, como se nada tivesse a ver com esta nossa existência. Mas o objetivo da doutrina é salientar a divindade do Filho e do Espírito, pois somente assim nós temos participação em Deus e na imortalidade.
?Deus é absolutamente um e, no entanto, é trino em si. É absolutamente transcendental e, no entanto, aberto para o mundo. Está presente no mundo, pois no Filho se tornou homem e comunicou o seu Espírito aos demais seres humanos.? (O Novo Livro da Fé)
A partir da formulação da doutrina da Trindade, o agir salvífico de Deus é visto como um todo: Natal, Páscoa, Pentecostes, Trindade. Toda a revelação de Deus é atualizada e projetada para o futuro.
Somos escolhidos por Deus, redimidos por Cristo e selados no Espírito Santo.
?Não se pode atribuir ato divino algum a uma certa ?pessoa? da Divindade, excluindo-se as demais. Todo ato divino é ato da Divindade inteira? (Gustaf Aulén).
Como dia festivo, a Trindade consta no calendário litúrgico da Igreja apenas desde 1334, quando João XXII era Papa.
No domingo em que celebramos a Trindade, nós somos conclamados a fazer uma avaliação de tudo o que Deus tem realizado pela humanidade. O PAI nos escolheu e nos elegeu. O FILHO nos resgatou e redimiu. O ESPÍRITO nos vivifica e nos ilumina!





LITERATURA
- AULÉN, Gustaf - A Fé Cristã, Associação de Seminários Teológicos Evangélicos, São Paulo, 1965.
- O NOVO LIVRO DA FÉ, Editora Vozes Ltda., Petrópolis, 1976.
- ZINK, Jörg - Erfahrung mit Gott, Kreuz Verlag, Stuttgart, 1974
- TRILLHAAS, Wolfgang - Dogmatik, Walter de Gruyter, Berlin, 1972
 
 
 
 
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