Teologia no Contexto Urbano

1. Introdução

Quando a Bíblia fala da cidade via de regra usa conceitos de valor e revela uma postura em relação à mesma. Desde a crítica vinda do campo e da periferia (p. ex. Gn 11.1-7; Mt 23.33-38; Mt 11.20-24) e também de dentro da cidade (p. ex. Is 1.21-26) até a utopia da cidade de Deus (p. ex. Is 65.17-2; Ap 21.1-8), passando pela tentativa de salvar a cidade (p. ex. Gn 18.16-33; Lc 19.41-48), nenhuma dúvida subsiste a respeito do que o autor do texto pensa da cidade. Estes textos mexem com nossas emoções e preparam o nosso estado de espírito para nos "confrontarmos" com o urbano. Eles criam um clima de rejeição e compaixão, juízo e esperança, realidade nua e crua e utopia esperada. Eles nos ajudam a tomar posição em relação ao tema. Animam a denunciar e anunciar. Porém, ficam devendo a resposta quando perguntamos pelo "como", pelo modo de proceder dentro do urbano. Mas, quando se trata do envolvimento prático no mundo urbano, precisamos saber como ir além do sentimento e da emoção.
Voltemos nossa atenção para o processo que se deu quando o evangelho ingressou no mundo das grandes cidades gregas e romanas. Sabemos que, a certa altura, a mensagem do reino de Deus transpôs os limites interioranos da Palestina e se espalhou pelo mundo urbano antigo. Muitas pessoas estiveram por trás dessa irradiação da mensagem evangélica. De Antioquia na Síria até Roma na Itália, passando por Éfeso na Ásia Menor, Corinto na Grécia, Filipos e Tessalônica na Macedônia e Alexandria no Egito, o anúncio sobre Jesus Cristo foi acompanhando as grandes rotas comerciais da época, que interligavam os grandes centros urbanos por mar e por terra. Menos de vinte anos após a ressurreição de Cristo havia pequenas comunidades cristãs por todo o mundo urbano mediterrâneo e até além dele. O que chama a atenção não é o tempo nem a amplitude da divulgação. Vinte anos é um tempo razoável e o tamanho das comunidades em relação à população das respectivas cidades não deve ter sido muito significativo. O aspecto intrigante exatamente é que a mensagem evangélica encontrou ressonância num meio totalmente diferente do de sua origem e logrou fazer a cabeça e o coração de pessoas da pólis e da urbs, as quais a princípio nem eram visadas. Como aconteceu isto?

A resposta deve ser a mais abrangente possível. Mas, no espaço deste artigo, somente vamos poder realizar uma abordagem parcial, construindo em cima do que outros já elaboraram. Para fazer um início mais ou menos seguro, vamos considerar o que podemos conhecer melhor: a atividade de Paulo de Tarso. Não sabemos o que ele pensava da cidade em si. Assim, ele não nos irá predispor ou indispor de antemão contra ela. Ele, provavelmente, cultivava uma utopia da cidade de Deus (Fp 3.20), mas não nos dá nenhuma descrição dela. Assim, ele não nos fará sonhar. Ele não conhecia um conflito "campo-cidade"; parece que, para ele, além da cidade e do mar, só existia ainda o "deserto" (2 Co 11.26).

Mas, por isso mesmo, ele pode nos ajudar. Como cristão urbano, nascido numa grande cidade do seu tempo, artesão livre, ele escreve aos filipenses simplesmente: "Exerçam a sua cidadania (politeúesthe! ) de maneira digna do evangelho de Cristo!" (Fp 1.27 ; compare com 1 Ts 2.12) Aqui é preciso embarcar na perspectiva correta: Paulo não escreve estas palavras para pessoas que vêm de fora da cidade, animando-as a serem, dali em diante, cidadãs. Ele escreve, antes, para pessoas cidadãs, que de qualquer modo iriam exercer a sua cidadania, animando-as a fazê-lo de modo a corresponder ao evangelho de Cristo. Ou seja: aqui não se coloca a questão da legitimidade ou mesmo da possibilidade da cidadania. Ela é pressuposta como um dado vital . A questão em pauta é a maneira de viver na cidade, ou: O que faz a diferença, agora que o critério se tornou o evangelho de Cristo?

Acho saudável não começar com um juízo de valor, mas assumir, a princípio, a cidadania como um dado vital e o evangelho como o critério da ação. Creio que esse foi o fator fundamental que permitiu construir a ponte entre o interiorano e o urbano. Este dado constitui também o pressuposto básico da transformação da mensagem evangélica e da sua maneira de divulgação para dentro do mundo urbano. Quem divulgou o evangelho não questionou a cidade em si, mas a viu como um lugar de concretização vital da mensagem evangélica. Não foi o evangelho que acolheu o meio urbano, mas o meio urbano que acolheu o evangelho . Este é o primeiro dado importante: o evangelho não problematiza o urbano por princípio.

O segundo dado é que essa acolhida não foi unânime, indicando para a complexidade e a diversidade do meio urbano. Paulo caracteriza, na passagem acima mencionada (Fp 1.27-30), o exercício evangélico da cidadania como um ato militante (v. 27, 30) que desafia adversários e gera conflitos (v. 28), podendo provocar sofrimentos (v. 29). Paulo concebe o exercício da cidadania pautado pelo evangelho como luta organizada contra inúmeros adversários, para os quais a boa nova de Jesus Cristo justamente não é sinal de salvação, mas de destruição (v. 28). Assim o caminho do evangelho no meio citadino é caracterizado pela conflitividade. Destacamos, portanto, que o urbano, com suas características peculiares, reage ao evangelho e lhe cria problemas.

Devemos levantar ainda um terceiro dado a partir do texto: o exercício evangélico da cidadania não se concretiza no isolamento em relação ao urbano, mas no esforço organizado, comunitário (v. 27: "firmes num só espírito, numa só alma lutar juntos pela fé do evangelho"). A comunidade cristã se qualifica como segmento participativo da pólis . Isto é: o evangelho encarnado no segmento "comunidade" participa da luta pelo poder e pelo espaço vital no meio urbano, visando qualificá-lo com os valores vislumbrados no evangelho de Jesus Cristo.

Temos, assim, três dados a considerar: a) o novo contexto do evangelho, b) a estrutura da ação dentro do novo contexto e c) o efeito do evangelho de Jesus Cristo dentro do novo contexto. Definido o direcionamento geral das reflexões, precisamos nos contentar com algumas pinceladas, convidando outros/as a retocá-las e complementá-las.

2. A pólis como novo contexto vital do evangelho

De início recordemos que Jesus atuava em povoados e vilas do interior da Palestina e costumava freqüentar lugares pouco ou na-da habitados (Mt 14.13; 15.33; Mc 1.35,45; 6.31ss; 8.4; Lc 4.42; 5.16) . Quase não procurava as cidades e quando o fazia entrava em choque com elas (Mt 11.21=Lc 10.13; Mt 23.37=Lc 13.34; Lc 23.28) . Seu contexto vital era agrícola, marcado pela exploração tributária por parte do império romano . A perspectiva de sua atuação era provinciana e nacionalista (p. ex. Mt 10.6; 15.24).

O primeiro passo da mudança de contexto aconteceu quando a mensagem de Jesus Cristo - e então também sobre Jesus Cristo - fixou residência em Jerusalém com a primeira comunidade cristã. Jerusalém era a maior cidade da Palestina, com uma população residente estimada entre 30 e 55 mil habitantes; apesar de mal localizada, pobre em água e recursos naturais, mas por ser um centro religioso importante, prosperava comercialmente e atraía a cada ano um grande número de estrangeiros e nas grandes festas acomodava uma população diversas vezes maior do que a residente . Via Jerusalém o evangelho "agrícola" de Jesus, já transformado em evangelho sobre Jesus, alcançou e espalhou-se por todo o mundo urbano mediterrâneo.

No caminho do evangelho estão também e especialmente as grandes cidades daquele tempo. Para dar uma idéia desse novo contexto do evangelho, apresentamos abaixo uma descrição breve de três cidades significativas e sua relação com o cristianismo urbano em formação .

Segundo o relato de At 11.19-30, o evangelho chegou a Antioquia da Síria por meio dos "helenistas" expulsos de Jerusalém por volta de 35 d. C. A comunidade de Antioquia foi pioneira na missão urbana daquele tempo, preparando e enviando missionários para o oriente e para o ocidente e exercendo grande influência na formação daquele modelo de cristianismo urbano. At 13.1 apresenta uma lista de nomes vinculados a essa cidade, entre eles Saulo, ou seja, Paulo de Tarso (Gl 1.21). Antioquia era a terceira maior cidade do império romano em número de habitantes, somente superada por Roma e Alexandria; segundo estimativas, a sua população na época do surgimento das comunidades cristãs era de 250.000 a 450.000 habitantes . Fundada em 300 a. C. por Seleuco I, às margens do rio Orontes, a cidade se desenvolveu e chegou ao apogeu no primeiro século da era cristã . Habitada por macedônios, gregos, sírios e judeus, a cidade era um centro cosmopolita. Sua localização portuária favorável trouxe muita prosperidade e diversidade cultural. Como sede do procurador romano era um centro político importante. Sua arquitetura e arte eram famosas no mundo antigo .

Tessalônica entrou em contato com o evangelho por meio da iniciativa de Paulo, Silvano e Timóteo antes da metade do primeiro século (1 Ts 1.1,9; 3.1s; At 17.1-9). Ponto de contato foi a sinagoga do lugar. Tessalônica era a maior e mais importante cidade da Macedônia, centro de comércio, sede do procônsul romano, cosmopolita. Estava situada no entroncamento de duas das principais estradas do império romano e tinha um porto privilegiado. Além do comércio florescia a indústria da tinturaria de púrpura. Entre a população estrangeira residente destaca-se também uma forte comunidade judaica . Tinha administração grega própria exercida por meio das instâncias do "demos" (assembléia dos cidadãos), da "boulé" (conselho legislativo) e dos "politarcas" (grupo de magistrados) .

A chegada do evangelho a Corinto é narrada em At 18. Segundo este relato, Paulo chegou sozinho e se pôs a conquistar espaço para o evangelho, associando-se profissionalmente a patrícios cristãos vindos de Roma e usando como ponto de contato a sinagoga. Mas não foi somente Paulo que atuou em Corinto. Devido ao cosmopolitismo da cidade, também outros missionários cristãos foram atraídos (p. ex. Apolo e Pedro: 1 Co 1.12; 3.4). Corinto era, depois de Atenas, a segunda maior cidade da Grécia e um dos maiores centros comerciais da época antiga, provido com dois portos: Cencréia e Lecaion, um de cada lado do estreito coríntio. Para evitar a perigosa circunavegação do Peloponeso, a maioria dos comerciantes transportava suas mercadorias pelos portos coríntios. Por ter sido reconstruída em 46 a. C. pelos romanos, tinha características marcantes de cidade romana, como a administração pelos duoviri e edis eleitos anualmente e a famosa ágora. Mas ali se podia encontrar todo tipo de gente, todo tipo de culto, todo tipo de manifestação cultural daquela época. Era sede do procurador romano da província da Acaia. Sua atividade industrial era marcante: cerâmica, metalúrgica e tecelagem, o que levou à existência de um proletariado industrial muito forte. A cidade, incluindo a região periférica, tinha cerca de 900 km2 de área e uma população de 100.000 habitantes para mais; a parte murada englobava uma área de mais de 600 ha .

O contexto vital de Paulo e demais missionários era o mundo urbano, marcado pelo comércio intenso, pela indústria, pelo trabalho livre e escravo, pelo cosmopolitismo, pelas viagens, pela diversidade cultural e religiosa. Tarso, cidade natal de Paulo (At 22.3; 23.34), era um centro comercial e cultural de grande importância, capital da província romana da Cilícia e sede do procurador . Neste contexto surge uma perspectiva ampla, não nacionalista, levando em conta a diversidade universal sob o pressuposto da vida urbana. Paulo não precisava mais "entrar na lógica da vida da cidade" . Ele cresceu e viveu o tempo todo nela. Dessa visão ampla e diversificada surge também a estratégia missionária global característica de Paulo. Enquanto Jesus dizia: "A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos" (Mt 9.37), Paulo constatava: "Agora já não tenho mais campo (de atividade) nestas regiões" (Rm 15.23). A conseqüência foi olhar para além de Roma, para a Espanha (Rm 15.24). Pois também Roma, a maior cidade do império, já tinha sido "conquistada" para o evangelho, não por Paulo, mas por outros, anônimos .

Com isso está bem caracterizada a amplitude da transição de contexto ocorrida com a mensagem evangélica logo após o surgimento das primeiras comunidades.


3. A estrutura da ação: ser tudo para com todos sem entrar no esquema

A estrutura da ação de Jesus e Paulo era determinada pelas possibilidades que a situação contextual oferecia. Para destacar a diferença da estrutura da ação de Paulo e seus companheiros e companheiras lembremos novamente as características mais marcantes da ação de Jesus. Jesus empregava preferencialmente uma aproximação individual e "direta": escolhia pessoas, ia até elas e chamava-as pelo nome para o seguirem (p. ex. Mt 4.18-22). Com estas pessoas criou um grupo pequeno, itinerante, que o acompanhava e sustentava. Característico para este grupo era a renúncia à pátria, à família e à propriedade (cf. Mt 19.27-29); o sustento provinha de pessoas simpatizantes proprietárias de bens . Jesus parece não ter visado a formação de um grande grupo de adeptos ou mesmo uma comunidade. Relacionava-se com as "multidões" através de discursos públicos no intuito de ensinar, proclamar e oferecer ajuda concreta. Porém ele não buscava publicidade (cf. Mt 13.36; 14.22s; 15.39 ele despede as multidões). Sua linguagem era determinada pelo seu contexto vivencial agrícola e interiorano e pautada pela capacidade de compreensão dos ouvintes (p. ex. as parábolas). Bastem aqui estas breves indicações.

Pode-se dizer que a estrutura da ação do apóstolo Paulo e seus companheiros urbanos se equilibrava na corda bamba entre "ser tudo para com todos" (1 Co 9.22) e "não entrar no 'esquema' desta época" (Rm 12.2). Tratava-se, por um lado, de não se tornar o próprio proclamador um impedimento para o evangelho (1 Co 10.32), por outro lado, de não entrar simplesmente na onda geral, o que desvirtuaria a "novidade" evangélica. A estrutura da ação de Paulo não era, quanto a isso, em princípio diferente da estrutura da ação de Jesus, mas na sua forma assumia outras peculiaridades, justamente as do mundo urbano. Destaquemos algumas delas:

-> Sua ação na cidade era estratégica, usando os pontos de contato mais característicos da sociedade urbana de seu tempo. Conhecedor do mundo urbano, sabia movimentar-se em seu meio; afeito a viagens, sabia movimentar-se também de cidade em cidade . Justamente a forma de sua movimentação e a escolha das cidades revela uma ação estrategicamente bem pensada. Ao escolher precipuamente os centros mais importantes daquela época como local de sua atuação, contava claramente com a dinâmica da própria cidade. Períodos curtos de estadia (com poucas exceções não mais de dois meses) não teriam tido efeitos duradouros, se não fossem baseados nas características de relação e comunicação próprias das cidades.

-> Ao perguntarmos pelos pontos de contato, temos de dar uma boa dose de crédito ao relato dos Atos dos Apóstolos, no qual um dos acessos mais importantes à cidade foi o fator da afinidade étnica. A comunidade judaica e a sinagoga proporcionaram um ponto de contato quase natural para o missionário judeu itinerante (cf. At 13.14s; 14.1; 16.13; 17.1,10,17; 18.4,8,19; 19.8). Devemos lembrar que, naquele tempo, a comunidade cristã ainda não havia se separado do judaísmo; portanto, ainda era considerada parte dele. A discussão em torno da questão se, para ser cristão, era necessário primeiro ser judeu, foi uma das mais importantes daquela época. Ela acontecia entre judeus e judeus cristãos, como também entre as próprias comunidades cristãs (p. ex. At 15 e Gl 2) . As cartas de Paulo aos gálatas, filipenses e romanos deixam transparecer a discussão com a comunidade judaica e com os cristãos que divergiam quanto a essa questão. Isto demonstra o ponto de contato característico e natural, ainda mais se levarmos em conta que praticamente toda cidade mediterrânea tinha uma comunidade judaica, às vezes até estabelecida em local próprio.

-> Outro ponto de contato característico da cidade era oferecido pelo mundo do trabalho profissional. Trata-se aqui do trabalho do artesão especializado, comum no mundo urbano daquele tempo . Comuns nas cidades daquele tempo eram as associações profissionais que, em vista da grande mobilidade da população, tinham o objetivo de, entre outras coisas, oferecer estadia e alimentação a companheiros de profissão em viagem e, se fosse o caso, ajuda para se estabelecer e achar trabalho . Segundo At 18.3, Paulo era fazedor de tendas. Não temos conhecimento de que havia uma associação de fazedores de tendas. Mas, ao chegar a Corinto, Paulo logo se associou a um casal cristão, Priscila e Aquila, exatamente porque eram da mesma profissão (At 18.1-3). Sabemos que o trabalho artesanal livre era a fonte de renda com que Paulo se sustentava na missão (1 Co 4.12; 9.6; 1 Ts 2.9). Via de regra (exceção: Fp 4.15-18) ele se recusava a receber ajuda das comunidades, embora considerasse ter direito a ela (1 Ts 2.7; 1 Co 9.8-14). Trabalhava para preservar a sua liberdade e evitar pôr obstáculos à mensagem evangélica (1 Ts 2.9; 1 Co 9.15) . Sendo um trabalhador, Paulo também estava familiarizado com o ritmo de vida dos moradores da cidade, condição sine qua non para uma atuação efetiva nesse meio. Assim, podemos afirmar que o mundo do trabalho oferecia pontos de contato importantes para uma atuação no mundo urbano daquele tempo.

-> Outra característica fundamental da atividade urbana paulina é o trabalho em equipe. Devemos nos despedir da idéia romântica muito difundida sobre Paulo como uma figura excepcional que teria, mais ou menos sozinha, feito a missão aos não judeus em toda a área do Mediterrâneo. Sem dúvida, Paulo foi um grande apóstolo, um grande líder e um grande teólogo. Seu esforço pela causa do evangelho não conhecia limites. No entanto, precisamos aprender a considerar que um dos aspectos de sua grandeza reside justamente em que ele não trabalhou sozinho. "Desde o princípio a missão de Paulo foi empreendimento coletivo,... Sua natureza corporativa era um dos elementos mais eficientes na adaptação bem sucedida da missão aos... 'fatores socioecológicos' de seu território urbano." Sua atividade missionária esteve embasada no trabalho autônomo das comunidades, as quais delegavam a missão àquelas pessoas que costumamos chamar de "colaboradoras" de Paulo . A permanência relativamente curta de Paulo nas cidades por onde passava não teria dado os resultados que deu, se não houvesse, em cada lugar, um grupo de homens e mulheres assumindo consciente e autonomamente a edificação de comunidades e a divulgação do evangelho. Paulo aprendeu essa maneira de trabalhar na comunidade de Antioquia, na qual ela próprio foi colaborador por muitos anos (At 13.1-3) . Nas cartas de Paulo são mencionadas nominalmente quarenta e uma pessoas, todas elas colaboradoras do apóstolo no seu trabalho: Barnabé, Timóteo, Tito, Priscila, Áquila, Apolo, Aristarco, Clemente, Evódia, Síntique, Epafrodito, Demas, Jesus Justo, Marcos, Lucas, Filemon, Urbano, Acaico, Amplíato, Andrônico, Júnia, Ninfe, Onésimo, Febe, Silvano [Silas], Sóstenes, Estáquis, Estéfano, Tíquico, Arquipo, Epêneto, Epafras, Jason, Ápia, Cloé, Gaio de Corinto, Lúcio, Maria, Rufo, Pérside e Sosípatro. Os Atos dos Apóstolos acrescentam mais doze nomes: Erasto, Gaio de Derbe, Gaio da Macedônia, Lúcio de Antioquia, Menaém, Secundo, Simão Níger, Trófimo, Jasão de Tessalônica, Lídia, Tício Justo e Sopatros. A Cartas Pastorais (1 + 2 Tm e Tt) mencionam mais dez: Hermógenes, Onesíforo, Ártemas, Cláudia, Crescente, Lino, Êubulo, Figelo, Pudente e Zenas. Além disso, devemos considerar aquelas pessoas que não são mencionadas pelo nome (2 Co 8.18,22,23; 9.3,5; 12.18; 1 Ts 5.26; Fp 1.14, 15-18; Rm 16.13; etc.) . Havia, assim, o apóstolo e mais algumas pessoas em atividade itinerante e, em cada cidade, uma equipe local que era responsável pelo trabalho. A partir da atividade itinerante surgiam pequenas comunidades domésticas que, autonomamente, tomavam em suas mãos a continuidade do trabalho. Portanto, Paulo não chamava seguidores nem tinha discípulos. Ele tinha colaboradores, sendo ele mesmo - embora líder - um colaborador no trabalho ao lado de outras pessoas. Esse método, mais do que uma estratégia bem bolada, era exigência do meio urbano, com sua diversidade étnica, cultural e de condição social. Faz sentido que equipes formadas por pessoas das respectivas cidades, conhecedoras do seu contexto, levassem adiante o trabalho estimuladas pelo apóstolo e pelas comunidades já formadas.

-> Para concluir esta parte, cabe apontar brevemente para o aspecto da comunicação. No contato com as pessoas colaboradoras e as comunidades, Paulo valeu-se muito da comunicação epistolar, com cujos padrões estava familiarizado . A maior parte das cartas preservadas e canonizadas no NT são de autoria do apóstolo (algumas da tradição posterior das comunidades paulinas). Justamente nesse ponto, Paulo baseava sua ação em características próprias do mundo urbano daquele tempo: a formação e a mobilidade das pessoas. Em decorrência da formação escolar pública, a maior parte da população do meio urbano sabia ler e escrever . A comunicação por carta era comum nesse meio. Como não existia correio público, o sucesso dessa forma de comunicação dependia da mobilidade de pessoas, isto é, dependia de pessoas de confiança que viajavam e podiam levar as cartas. As cartas tiveram um papel relevante no trabalho do apóstolo Paulo. Como ele não permanecia muito tempo na mesma cidade, ele usava a carta para responder a dúvidas, repreender, corrigir, exortar, agradecer e informar as suas comunidades ou os/as colaboradores/as.

Haveria outros pontos a abordar neste item (p. ex. a organização da comunidade em casas, seu caráter doméstico e familiar, a solução para conflitos típicos do meio urbano). Os que foram apontados, porém, proporcionam uma idéia de como foi estruturado o trabalho de evangelização, aproveitando as características do mundo urbano daquela época.


4. O evangelho de Jesus Cristo

No último passo deste artigo, consideremos qual foi a "novidade" que o evangelho de Jesus Cristo trouxe para o mundo urbano, isto é, quais as respostas que proporcionou para a vida das pessoas da cidade. No espaço deste artigo naturalmente não poderemos fazer isto de modo abrangente. Optamos, então, por destacar dois exemplos a partir de uma premissa geral.

Em Rm 12.2 Paulo coloca a premissa: no processo de aceitação do evangelho por parte das pessoas da cidade não se trata de amoldar a boa nova ao "esquema do tempo presente", mas de propiciar uma "transformação através da renovação da mente". Portanto, o evangelho leva a uma renovação no modo de pensar, a partir do discernimento daquilo que Deus quer. Mais ainda: o evangelho pede um modo novo de agir como "culto racional" a Deus (Rm 12.1).

Podemos exemplificar o significado desta premissa para a prática das comunidades por meio de dois exemplos referentes a conflitos de conotação tipicamente urbana: a questão da carne sacrificada aos ídolos (1 Co 8-10) e a questão da celebração da ceia do Senhor (1 Co 11.17-34).

O conflito em torno da questão se é permitido ou não comer carne sacrificada aos ídolos é abordada extensamente por Paulo em 1 Co 8-10. Vamos destacar alguns momentos desta abordagem . O conflito está vinculado à realidade urbana enquanto reflexo da diversidade religiosa. Esta se expressa nos mais diferentes cultos organizados em torno de diferentes templos, o que é típico da paisagem urbana daquele tempo. Alguns desses cultos incluíam refeições em comum na presença do deus. Além disso, via de regra, a carne vendida em açougues estava vinculada a um sacrifício ou à dedicação a algum deus.

Ingressando nessa realidade, o evangelho de Jesus Cristo traz o conhecimento de que há um só Deus e um só Senhor (8.6) e que os demais assim chamados "deuses e senhores" (8.5) na verdade não o são. É a confissão monoteísta marcando presença no mundo urbano politeísta e desafiando para a renovação no modo de pensar essa questão. Paulo qualifica esse conhecimento de libertador (8.9; 9.1; 10.29). Ele liberta as consciências em relação aos deuses e permite usufruir as dádivas de Deus sem falsos escrúpulos (10.26: "do Senhor é a terra e a sua plenitude").

Mas a questão não é tão simples: por trás da diversidade de deuses se esconde uma outra realidade, a dos "demônios" (10.20). Do conhecimento acima se poderia tirar a conclusão lógica: podemos participar livremente e sem problemas dos cultos aos deuses em seus templos. Mas isto justamente significaria dar-lhes o status de deuses, ignorar a manobra dos demônios e provocar ciúmes no Deus verdadeiro (10.21-22; cf. 10.7). O conhecimento do evangelho de Jesus Cristo justamente abre a nossa mente para vermos além da realidade aparente e discernirmos a estrutura que a sustenta.

No entanto, a questão é mais complicada ainda. Existem aquelas pessoas que, embora tendo aceito o evangelho de Jesus Cristo, ainda não deram o passo libertador que este conhecimento proporciona. Elas ainda não renovaram a sua mente e suas consciências ainda estão presas ao costume antigo da adoração aos deuses (8.7). Essas pessoas cristãs se escandalizam com a demasiada liberdade das outras e correm o risco de abandonarem a fé (8.9-13). Assim, se em relação ao mundo circundante o conhecimento do evangelho proporciona liberdade, na relação intracomunitária pode levar à falta de amor e à divisão (8.1,3). Portanto, renovação da mente neste aspecto significa abandonar o individualismo e levar em consideração justamente a pessoa mais fraca na sua necessidade (8.9-13) e buscar agir de modo construtivo em relação a ela (10.23-24), tendo a liberdade inclusive de desistir da demonstração de sua própria liberdade (8.13; 10.28-29, 33).

Vemos, aqui, que o apóstolo, com o seu modo argumentativo e não autoritativo, tenta fazer jus à complexidade das relações sociais urbanas. Ele não dá receitas prontas de como proceder, mas analisa e discute o problema apontando critérios teológicos para a sua solução. Esses critérios de cunho mais geral devem pautar a prática específica, para a qual cada comunidade deve ser capacitada. Nesta parte tem papel fundamental o uso da "razão", isto é da capacidade de refletir e pensar como meio de definir os parâmetros da ação evangélica comunitária e individual. Trata-se, portanto, da aplicação da premissa "renovação da mente" para oferecer a Deus um "culto racional", ou seja, um culto constante guiado pela reflexão a partir do evangelho de Jesus Cristo. Não há como negar que é um procedimento bastante flexível e versátil, adequado à diversidade e à complexidade da realidade urbana.

Podemos observar o mesmo ainda no segundo exemplo: a distorção do sentido da ceia do Senhor na comunidade de Corinto (1 Co 11.17-34) . Este problema está vinculado com a diferença de condição social entre as pessoas que formavam a comunidade de Corinto. A comunidade urbana era, nesta parte, espelho da sociedade: dela faziam parte poucas pessoas mais aquinhoadas e uma maioria de pobres trabalhadores ou escravos (1 Co 1.26). As reuniões se realizavam nas casas dos membros mais abastados, pois ofereciam mais espaço e condições para a realização das refeições e dos cultos .

O que Paulo criticou na celebração da ceia em Corinto foi que ela não estava espelhando a novidade do evangelho, mas a realidade circundante, caracterizada pela divisão e pelo individualismo (1 Co 11.18-21). Uns comiam e bebiam antes da chegada dos outros, de modo que aqueles se embebedavam e empanturravam, enquanto que estes passavam fome. Essa situação fazia com que houvessem na comunidade pessoas que enfraqueciam, adoeciam e morriam (11.30). É o resultado da desigualdade social que se reflete na situação comunitária. Mas onde está a novidade evangélica? O evangelho justamente chama para um exame de consciência sobre a responsabilidade de cada pessoa nesta situação (10.28) . A vivência comunitária deve ser "digna" do evangelho, isto é, deve corresponder ao espírito da boa nova acerca de Cristo. A celebração da ceia do Senhor como comunhão com Cristo deve levar necessariamente a um outro modo de pensar e agir. Ou seja: a conseqüência lógica é que, por ocasião da refeição, uns pensem nos outros. Concretamente: que uns esperem pelos outros (11.33) e, se não puderem se agüentar, que comam alguma coisa em casa (11.34). O critério é teológico: a unidade e a comunhão no corpo de Cristo, expressas na participação no pão e no cálice da ceia (11.23-25; cf. 10.17). A partir dele é possível superar a fragmentação da existência e o individualismo e formular novos parâmetros para o pensar e o agir individual e comunitário no contexto urbano.


5. Conclusão

Paulo nos ajuda na formulação da nossa estratégia de ação no mundo urbano, primeiro, porque não nos indispõe teologicamente de antemão com o mundo urbano. Como cidadão urbano, ele vivia a cidade e via nela um lugar para a vivência digna do evangelho de Jesus Cristo.

Em segundo lugar, Paulo nos ajuda, porque usou a razão para refletir o modo como o evangelho poderia tomar forma no mundo urbano. Seu procedimento argumentativo, avesso a receitas prontas, proporcionava critérios para facilitar a decisão autônoma das comunidades. Paulo era um parceiro de diálogo na busca por fazer das comunidades um espaço dentro do mundo urbano que correspondesse à vontade de Deus.

Nesse sentido - e este é o terceiro destaque - a comunidade se configura como um segmento importante da sociedade urbana. Testemunha desta importância é, não por último, a conflitividade que o evangelho provoca. No entanto, não se trata de fugir do meio urbano para viver o evangelho, mas de viver o evangelho no meio urbano de modo digno do mesmo. Ou seja: exercer a cidadania de modo correspondente ao evangelho de Jesus Cristo (Fp 1.27). Os critérios podem ser formulados de modo abrangente: a confissão de fé, o amor, a edificação da comunidade, a comunhão e assim por diante. Eles são norteadores da reflexão. Pois a situação urbana precisa ser pensada a partir de critérios novos. Os passos concretos da ação evangélica precisam ser formulados em cada caso, em cada cidade, por quem vive o evangelho nela. Assim, o ingresso do evangelho no mundo urbano é, assim como este artigo, uma história com final ainda por ser escrito.

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Bibliografia escolhida

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Adendo I: A cidade grega

O texto abaixo contém informações sintetizadas por Helmut Köster (Einführung in das Neue Testament. Berlin/New York, Walter de Gruyter, 1980. p.71-75), a partir dos trabalhos de A. H. M. Jones (The Greek City from Alexander to Justinian, 1940), R. E. Wicherley (How the Greeks Built Cities, 2. ed. de 1967), R. Martin (L'urbanisme dans le Grèce antique, 1956)(tradução N. Schneider):

"A cidade helênica segue a linha da cidade da Grécia clássica e desenvolve a tradição de planejamento urbano e construções desta. No espaço cercado por forte muralha há, ao lado das casas dos cidadãos, uma ágora, junto à qual se localizam os templos e os prédios do governo (buleuterion, prytaneion, arquivo), o teatro e o odeon, o ginásio e as termas. Já no 5º século a. C. foi desenvolvido na Jônia o modelo urbano que recebeu o nome do arquiteto Hippodamos, cuja base é uma rede quadrangular de ruas que divide toda a cidade em quadras de igual tamanho. Hippodamos havia construído as cidades de Pireus (porto de Atenas) e Thyrioi (no sul da Itália) segundo esse modelo. Esse plano de cidade tornou-se padrão para as novas fundações urbanas durante a colonização helênica. Exemplos típicos disso são Alexandria, Europos, Damasco e Aleppo. Também na Ásia Menor grega este plano de cidade prevaleceu, por exemplo em Mileto, a pátria de Hippodamos, e em Priene, cuja rede viária serve como exemplo clássico, justamente porque o plano hippodâmico foi imposto rigidamente à colina sobre a qual a cidade se situa.
Nas cidades helênicas aparecem, em comparação com as cidades da Grécia clássica, mudanças que, em parte, se devem ao plano hippodâmico de cidade, mas refletem também as novas condições sociais e econômicas. As antigas cidades via de regra tinham uma acrópole, outrora a fortaleza real, que mais tarde foi ocupada com a construção de templos. A acrópole falta freqüentemente nas cidades helênicas. Um castelo especialmente guarnecido no interior da cidade, no qual se poderia buscar refúgio após a queda dos muros da cidade, mas no qual também se poderia entrincheirar um tirano e prevalecer contra os cidadãos, era contrário à idéia que o cidadão tinha de sua cidade. Assim sumiu a acrópole ou ela apenas foi superficialmente guarnecida (...), ao passo que a defesa foi confiada totalmente aos muros. Estes cercavam a área da cidade num círculo irregular e envolviam também áreas não povoadas quando isso era favorável à defesa (...). Os muros da cidade, muitas vezes de dimensões descomunais, eram providos com portões e bastiões de pedra bruta (somente para a parte central se usava pedra trabalhada e terra) - pois deveriam resistir às máquinas de sitiar, altamente desenvolvidas naquele tempo - e exigiam dos cidadãos, na construção das cidades, grande esforço e disposição.
A ágora foi, no tempo clássico, um lugar com disposição irregular, que funcionava como centro da vida pública e econômica. Templos, pavilhões do mercado e de compra, prédios do governo e da administração estavam dispostos em volta deste local; deixavam, porém, espaço suficiente para que a ágora se abrisse para a cidade em todas as direções. Na cidade helênica a ágora assumiu uma forma quadrangular, emoldurada por stoas [arcos] em todos os seus lados e, assim, fechada para a cidade, para a qual somente se abriam poucos acessos, aos quais se acrescentaram na época romana esplêndidos portões. Além disso a ágora oficial foi separada do mercado por prédios administrativos e templos, de modo que as cidades maiores tinham mais de uma ágora. A ágora destinada ao comércio e às compras assumiu o caráter de um pavilhão de mercado. O número de e o tamanho das stoas nos locais públicos aumentou, às vezes providas internamente com uma carreira dupla de colunas. Elas eram o centro da vida da cidade helênica e estavam à disposição de todos os moradores para comércio e descanso, conversa e relaxamento. Nelas ocorriam as discussões privadas e públicas, havia galerias de arte e exposições, os filósofos e missionários proferiam seus discursos.
Também os templos e prédios públicos tinham de ser adequados à rede quadrangular de ruas. Se eles não estavam localizados junto à ágora, como os templos mais importantes, o Buleuterion (pavilhão onde ocorria a assembléia dos cidadãos) e o Prytaneion (casa da cidade com o fogo sagrado), então eles tinham uma, duas ou três quadras à disposição. Santuários maiores também podiam estar localizados fora dos muros da cidade, num lugar determinado pela tradição, como era o caso do grande templo de Ártemis em Éfeso (At 19.23ss).
Havendo a possibilidade, também os teatros eram acomodados ao rígido esquema de ruas. Se havia um morro ou uma colina no âmbito dos muros, as fileiras de assentos eram construídas na encosta. (...)
Entre as construções que até hoje chamam mais a atenção na cidade helênica estão os ginásios. Antes eles eram locais de esporte com prédios em disposição irregular; agora se tornaram unidades arquitetônicas acabadas: um grande pátio em estilo circular que rodeava o local dos esportes; em todos ou mais lados abrem-se no átrio de colunas salas grandes e pequenas destinadas aos mais diversos fins: quartos de banho e vestiários, salas de clube e encontro, salões para preleções, salas para culto e, mais tarde, também bibliotecas. Muitas vezes os ginásios tinham dimensões enormes. O grande ginásio do porto em Éfeso, construído na época imperial romana, envolvia um local de esporte e treino de 200 x 240 metros! Cada cidade tinha também seu ginásio, o qual freqüentemente se localizava fora dos muros da mesma. (...)
Quanto às casas das cidades helênicas havia uma série de tipos, que não podemos tratar aqui com detalhes. Também as casas deveriam se adequar ao modelo hippodâmico de cidade. Encontra-se duas, quatro ou até mais casas numa quadra. Originalmente, porém, na mesma cidade o número de casas por quadra era igual: cada cidadão dispunha do mesmo espaço para construir sua casa. Com o tempo este princípio foi abandonado. As casas dos cidadãos ricos podiam ocupar uma quadra inteira e, às vezes, se estendiam por sobre uma rua secundária até a quadra vizinha. Onde não havia o plano urbano quadrangular havia uma grande mistura de casas ricas e pobres, grandes e pequenas em ruas cheias de ângulos (Delos é o exemplo mais conhecido). Entre os tipos de casa prevaleceu o de traçado circular: havia um pátio interno aberto cercado por colunas, no qual às vezes se encontravam cisternas artisticamente construídas; ao redor dele estavam ordenados os diferentes espaços; ao passo que só raramente havia janelas para a rua, todos os cômodos tinham abertura para o pátio interno, do qual obtinham luz e ar. Casas de dois andares não eram raras. O pátio interno podia ser coberto por um mosaico, assim como muitos cômodos destas casas eram adornados por mosaicos e afrescos.
Esse modelo de cidade prevaleceu em grande parte também durante o período imperial romano. As alterações e inovações trazidas pelos romanos desenvolviam os elementos já existentes no modelo de cidade. No mínimo duas ruas, de preferência se cruzando, foram transformadas em ruas principais e providas com prédios esplêndidos; a ágora foi aproximada do fórum e recebeu portões monumentais; aquedutos ajudaram a suprir a crescente demanda de água das cidades; os ginásios se transformaram em termas e os poços artisticamente construídos substituíram os poços antigos de finalidade mais prática. O início deste período de renovação e novas construções caiu na época em que o cristianismo começou a se expandir nas grandes cidades da parte oriental do império e trouxe novas oportunidades de trabalho e prosperidade para as cidades helênicas".

Para completar este quadro reproduzimos abaixo um breve texto de Wayne A. Meeks (Os primeiros cristãos urbanos 51), re-portando-se ao trabalho de MacMullen (Roman Social Relations 63):

"MacMullen acha que a densidade média da população nas cidades do Império Romano deve ter atingido duzentos habitantes por acre - equivalente encontrado nas cidades modernas ocidentais apenas em favelas nas áreas industriais. Além disso, considerando que boa parte do espaço - um quarto, segundo os cálculos de MacMullen - era destinado a áreas públicas, 'a massa da população tipicamente (sic!) tinha de conviver com a mais desconfortável aglomeração em casa, o que só se tornava tolerável por causa da atraente amplidão do espaço propiciada pelos serviços públicos'".

 

 
 
 
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