Ao falarmos de Teologia e Cultura é necessário antes estabelecermos uma definição do que se entende aqui por estes termos. Entendemos Teologia como uma lente através da qual toda a realidade pode ser lida e traduzida. Por exemplo, C.S. Lewis, o autor de As Crônicas de Nárnia, obra transformada em filme pelos Estúdios Disney que acaba de chegar aos cinemas e R.R. Tolkien, amigo de Lewis e autor de O Senhor dos Anéis, entendiam a Teologia como uma espécie de “mapa” de orientação do peregrino rumo à sua Terra Natal.
A professora Gabriele Greggersen, maior especialista em C.S. Lewis do Brasil diz em recente artigo: “se considerarmos que todo autor, particularmente de ficção é um peregrino que tem esse alento, esse desejo ou saudade pelo lar perdido, então ele é um teólogo em potencial.” Lewis e Tolkien definiam sua Teologia como “Teologia do Romance”. Continua a professora Greggersen “Então a ‘teologia do romance’ nada mais é do que uma “cartografia” do que certas obras literárias têm a dizer sobre assuntos teológicos como o mal, a queda, a redenção, entre outros. Uma obra literária, principalmente a clássica, não importa a confissão religiosa do autor, sempre tem algo a dizer sobre teologia”.
Assim, entendemos neste artigo Teologia não meramente como o estudo de Deus e, no caso cristão, da Bíblia. Mas como a mais poderosa chave que nos ajuda a abrir as portas para a compreensão da vida e não apenas da literatura. Isto nos remete à conceituação de Cultura.
Cultura é o mundo inventado pelos homens (ou os vários mundos). Ela difere do mundo natural. Este já estava aí quando aqui chegamos. A Cultura é criada por nós. Bem nos lembra Rubem Alves em seu livro O Que é Religião: “somos inventores de mundos”. Ao longo dos séculos e em todos os cantos do nosso Planeta inventamos os mais diversos universos. A Cultura (mundos inventados) passa pela arquitetura, comidas, danças, instrumentos, ritmos, roupas, maquiagem, casamentos, famílias, festas, celebrações, funerais, mitos, histórias, religiões... A Cultura não é eterna. Ela termina no momento em que o homem terminar. O que está aí assim é porque queremos. Tudo poderia ser radicalmente diferente. O homem é o Senhor da Cultura. Em seu anseio de ser eterno e, diante da inevitabilidade da morte, ele tenta eternizar a Cultura.
Relacionarmos Teologia e Cultura deveria nos ajudar a entender que todos nós, indistintamente, somos peregrinos. Cada um a seu modo tenta encontrar o caminho para o Paraíso Perdido. E isto se expressa nas nossas construções culturais. Isto se expressa nas letras das músicas, “...a minha alma ta armada e apontada para a cara do sossego. Pois Paz sem voz, não é Paz é medo. Às vezes eu falo com a vida, às vezes é ela quem diz ‘qual a Paz que eu não conservar pra tentar ser feliz” (O Rappa). Se expressa nos poemas, “...tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho...” (Drummond). Se expressa nos quadros de Cândido Portinari sobre a vida e a morte. Nas catedrais góticas cujas torres apontam para o céu. Se expressa no livro dos Salmos “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma” (Salmo 42)...
Isto deveria nos ajudar a valorizarmos as obras dos outros, o ponto de vista alheio. Deveria aguçar a nossa escuta. Ajudar-nos-ia a aprendermos mesmo com quem se diz agnóstico (como era o caso de Carlos Drummond de Andrade). Seríamos libertos de nossos preconceitos. Passaríamos a enxergar a centelha divina que há em cada ser humano, mesmo quando este ser humano não reconhece isto. Não diz Gênesis que fomos todos criados à Sua imagem e semelhança?
Nossas expressões culturais são uma revelação do nosso mundo interior. Nossos desejos, anseios, nossos sonhos e esperanças. A Teologia, mãe de todas as Disciplinas, continua presente em cada canto da vida. Afinal começamos todos como filhos perdidos em busca da Casa do Pai.
Wanderley Pereira Rosa
Formado em Teologia e Filosofia, é Diretor da Faculdade Teológica Unida.