Pequenas Igrejas, grandes negócios!

DSC04212Há algum tempo escrevi um pequeno texto para a minha comunidade eclesial, cujo titulo era Pastor pede aumento. O titulo causou certo constrangimento aos leitores. Não solicitava aumento de salário, e sim de vigor; essencial à vida, sobretudo, à vida cristã; sem desassociá-la da integralidade da própria existência. Solicitava aumento de largueza de visão do Reino de Deus, fosse do ponto de vista pessoal, fosse do ponto de vista eclesial e do próprio ponto de vista da Igreja Evangélica, enquanto instituição social extremamente relevante em todos os aspectos.

Agora, no exercício permanente de tentar ler a vida com olhos cada vez mais atentos, surpreendo-me diante de uma sociedade perdida em seus valores fundantes, tais como família, religião, trabalho, Estado, educação, ética, estética, para falar apenas de alguns. Imersa no relativismo, no pragmatismo, no secularismo que devasta a vida, no materialismo, na força dominante do poder econômico, que manipula a força da mídia; numa religiosidade gelatinosa, marcada pelo sensitivo, pelo sensorial, pelo experiencialismo dogmatizante em detrimento de qualquer tipo de racionalidade. Isso sem falar de uma religiosidade marcadamente pós-moderna, fortemente influenciada por um neognosticismo travestido apenas em sua apresentação. Diante de tal realidade, áspera e chocante, preciso apresentar os meus mais sinceros protestos de indignação, total ou parcial, diante da falênica de certos segmentos da sociedade, e da própria religiosidade evangélica brasileira, vencida pelas sutilezas do mercado.

Digo isso porque há momentos na vida em que cansamos de tantas coisas; que são próprias de amadurecimento, de crescimento mesmo. É possuir a coragem de querer mudar; pois nem sempre é fácil sair de onde se está. Não são poucas as vezes que, irritados, cansamos, com determinadas realidades da vida. Olhamos e constatamos, nitidamente, certa irreversibilidade humana, social, cultural, ideológica, política, religiosa, e assim, então, sobra esgotamento e falta vigor...

Do ponto de vista econômico, cansei de um sistema financeiro, que “legalmente” explora o cidadão com juros acharcantes, com lucros estratosféricos, e que ainda, agravando a situação, pouca coisa produz para o país; cansei de um capitalismo cuja capacidade de influenciar e manipular completamente o modus vivendi da sociedade, da cultura, das mídias, das próprias pessoas (na maioria das vezes negativamente) é livremente praticado; cansei de uma sociedade submissa aos padrões estéticos, normatizados por uma mídia cativa ao poder econômico, onde o que vale é o estético, o aparente, apenas o exterior. Como no dizer de um grande teólogo católico, o frei Beto, malha-se demais o corpo em detrimento da alma.

Do ponto de vista religioso, sobretudo evangélico, cansei de certos segmentos dualistas, cujo valor é a alma e a liberdade está em desenvolver uma espiritualidade que a liberte do corpo, que é matéria, portanto, mal e em desarmonia com a vida espiritual. Na verdade, trata-se de uma prática neognóstica dentro de muitos templos. E para piorar, tem gente aplaudindo tal espiritualidade. No fundo, são massa de manobra de certos líderes religiosos, sem assim o perceber. Como resultado, dentre muitos, vive-se uma tremenda ruptura entre espiritualidade e ética.

Cansei da banalização com o religioso, em que a fé tornou-se um grande produto, sendo comercializado, tendo atrás de si uma vasta linha de produtos, que vão de sabonete ungido e personalizado, para conquistar a pessoa amada e lavar todo e qualquer tipo de maldição, até rosas ungidas; sal da terra santa, cornetas de Gideão, sessão de descarrego, enfim, amuletos  diversos e com a marca da criatividade e peculiar do brasileiro. Há uma umbandização crescente em muitos segmentos da Igreja Evangélica Brasileira. Gente que vive apenas em busca do pão, com uma disposição gigantesca ao tentar manipular o sagrado, em nome de Deus. Há uma fome tremenda por acessórios religiosos, verdadeiras bugigangas religiosas, sem qualquer necessidade real e verdadeira de Deus.

Cansei dos líderes-empresários, que abrem igrejas como se estivem abrindo uma empresa, visando lucros e sua multiplicação, de preferência, através do sistema de franquias; cansei dos nomes mais esdrúxulos de igrejas, como por exemplo, igreja evangélica pentecostal do espaço sideral.

Ando profundamente cansado dessas autodesignações religiosas para pastores, bispos, apóstolos etc. Ando enojado com as políticas eclesiásticas, fruto de homens e mulheres que vivem atrás das luzes da ribalta, que só querem os primeiros lugares, que realizam conchavos para ocuparem cargos de primeiro escalão na vida denominacional eclesiástica. A ética passa longe de tais atitudes.

Cansei, também, de líderes que utilizam de seus cargos – vocações de Deus dadas à Igreja, para o seu serviço – para se beneficiarem, ganharem ascensão, poder, expressão, serem os primeiros; na verdade, para se servirem, pois o que prevalece é a sede de poder no campo da igreja-instituição, pois na dimensão da Igreja Corpo de Cristo, desconhecem o significado do amor-serviço.

Estou farto de crente que aderiu, por completo, a cultura do consumismo. Consome tudo, inclusive a fé. Gente que anda atrás de novas sensações espirituais, de novas experiências místicas, do próximo milagre, do próximo amuleto capaz de espantar a crise da depressão, da grana curta, do olho gordo, do carro velho na garagem etc. Cansei desse ‘fast-food’ religioso, onde os crentes ficam completamente empanturrados de religião, mas vazios de Deus. Gente que, na verdade, só pensa na dimensão da temporalidade da fé. São crentes que consomem a fé, sem, contudo, absorve-la, mas, mesmo assim, possuem uma digestão espiritual extremamente lenta e incapaz de promover qualquer tipo de filtro.

Tudo isso vai entupindo nossas artérias espirituais, emocionais, físicas e eclesiais. A sensação que tenho é que o coração bombeia a vida cristã com muita dificuldade. Não por acaso encontramos pelas ruas mendigos cuja maioria, comprovada estatisticamente, são oriundos de determinadas igrejas pentecostais e neopentecostais. Gente que desistiu da vida, da fé, tendo recebido uma forte influência negativa de suas igrejas de origem. Tive contato com muitos deles e posso afirmar que é deplorável tal situação. A Igreja parece que perdeu sua vocação terapêutica, se é que algum dia a exerceu de forma bíblica e teológica na verdade.

Creio que também há outros tantos cansados como eu, de tudo e muito mais que isso. No entanto, tal cansaço não deve permitir que nossas forças sejam minadas por completo. É necessário reagir. Trazer à memória o que pode alimentar o coração de esperança, segundo Jeremias, o profeta da esperança.

É preciso olhar para além de tudo isso e praticar uma fé integral, consciente, inteligente, equilibrada,  madura,  sensível ao belo,  poética,  capaz de perceber o outro,  radical no seguir a Jesus Cristo; mas, também, que seja uma fé tolerante, aberta à ação do Espírito Santo, de forma comedida e lúcida, amorosa, solidária, engajada nas questões sociais e políticas, e, paradoxalmente, mais humana. Que pratiquemos um cristianismo onde os pequenos rebanhos de Jesus Cristo sejam grandes sinais do Reino de Deus. Soli Deo Gloria!

 

 

 

 
 
 
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