Palestras Congresso de Teologia

?Ele tocou a flauta e nós não dançamos? (Mt 11,16-17) (*)
Para uma Reconfiguração do Paradigma Missionário na Realidade Urbana Brasileira


?O que o homem é, Cristo quis ser, para que o homem pudesse ser, o que Cristo é.? (S. Cipriano)

?O Cristianismo foi o que Jesus condenou.? (F. Nietzsche)
?Jesus nos ensinou que amar a Deus é amar os outros, todos os outros. Este amor é dom, abandono, sacrifício, despojamento.? (R. Garaudy)

?Amor, palavra que funda e que consome os seres.(...)? (M. Mendes)


1ª apresentação: ?Procurai a paz da cidade... porque na sua paz vós tereis paz? (Jer. 29,7) (ou... Os desafios do contexto urbano para a praxis cristã)

2ª apresentação: ?Esses que estão transtornando o mundo chegaram aqui também? (At 17,6) (ou... A comunidade cristã como portadora de uma ação contra-cultural)

3ª apresentação: ?Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e possuíam tudo em comum" (At 2,44) (ou... A comunidade cristã como modelo de inclusão solidariedade ativa)

4ª apresentação: ?Quem não é contra nós está a nosso favor?
(Mc 9,40) (ou... A comunidade cristã como espaço de diálogo e comunhão com o diferente)


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(*) Paráfrase do texto bíblico citado, cunhada por R. Garaudy. Cf. Garaudy, R., Deus é necessário?, Rio de Janeiro, Zahar, 1995, pg. 117.
(**) Professor no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião, da Univ. Federal de Juiz de Fora, MG. Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e Colaborador de ?Koinonia - Presença Ecumênica e Serviço?.



Primeira apresentação:

?Procurai a paz da cidade... porque na sua paz vós tereis paz? (Jer. 29.7) (ou... Os desafios do contexto urbano para a praxis cristã)

Introdução


O texto bíblico que nos serve de epígrafe é um destes textos surpreendentes que a Bíblia, tantas vezes, nos oferece e que, quase sempre, desarticulam as falsas seguranças que, por egoísmo, comodidade e, principalmente, convencimento ideológico, vamos construindo, a partir de nossas idolatrias religiosas, com as quais tentamos justificar nossa adesão ?aos poderes deste mundo?.

Deparamo-nos aqui com uma carta de recomendações e consolo aos cativos na Babilônia, por parte do profeta Jeremias que, fiel as mais antigas tradições do povo de Israel, se rebela contra a reforma religiosa realizada pelo rei Josias, a qual levou à centralização, exclusiva, do culto a Javé, na cidade de Jerusalém. Centralização esta que, aumentou o poder da monarquia e desqualificou a prática cultual, a que o povo estava acostumado. Além disso, Jeremias se opôs, também, aos sucessores de Josias, quando estes procuraram estabelecer alianças políticas com os egípcios, para poderem enfrentar os assírios e o poder emergente dos babilônios. Estes, ao derrotarem àqueles, acabaram invadindo Jerusalém e deportaram os filhos de Judá para o cativeiro na Babilônia.

Com uma lúcida visão política da conjuntura internacional daquele momento da história da região, Jeremias reconhece superioridade dos babilônios, denuncia as políticas subservientes e desastradas ? para o povo ? da elite dominante de Judá. Esta atitude corajosa e soberana, de quem não tem compromissos com o poder estabelecido, acabou levando-o para a prisão sob a acusação de falta de patriotismo. Depois de conquistarem Jerusalém, os babilônios lhe oferecem um salvo-conduto, mas ele, fiel a sua visão da justiça de Javé, recusa qualquer tipo de relação com eles, refugiando-se no Egito onde termina seus dias.


O alerta do Profeta


No texto em questão, o profeta procura consolar o povo no cativeiro, instando-o a não perder as esperanças e a continuar a viver e preparar o futuro, porque este não está sob o controle da grande potência babilônica, mas pertence a Javé. Por outro lado, faz questão de esclarecer que as cidades babilônicas, aqui representadas pelo nome do país, não são nem melhores nem piores que Jerusalém ou qualquer outra cidade da Judéia. O poder de Javé se estende por igual sobre todas elas. E, em todas, independentemente de serem consideradas tementes a Javé, ou não, a vida é possível. Nesta longa carta Jeremias investe contra um certo maniqueísmo simplista, discriminador, que em nada ajuda para a verdadeira compreensão do desenrolar da história humana. Jerusalém e Babilônia, são, simplesmente, cidade dos humanos. Frutos da genialidade criadora da humanidade e, portanto, cheias de virtudes e de equívocos, de verdades e de mentiras, de bondades e de maldades, pois expressam, simplesmente, as limitações e as precariedades que caracterizam a existência humana.

É por isso que o profeta insiste: a vida deve continuar. Buscar a paz entre todos, apesar de todas as impossibilidades, aparentes ou não, é um dever imposto pela própria vida, ou seja, pela misteriosa pulsão que conduz os humanos a dinâmica da auto-superação e que para ele, se manifesta no símbolo Javé. Por isso, Jeremias é incisivo contra toda sorte de escapismo individualista: Ninguém pode viver em paz sozinho. A paz é uma construção coletiva, um projeto de solidariedade dependente de todos para tornar-se uma realidade para cada um.

O que ele diz em sua carta, com as recomendações especificas que enumera, é o que o povo de Judá, mesmo naquela situação tenebrosa de escravidão e aparente falta de horizontes, deve viver no meio daquela sociedade como uma comunidade de esperança, ou seja, uma comunidade que se abre ao futuro e, por isso, não se deixa imobilizar pela nostalgia do passado e nem pelas dores, dificuldades e limitações do presente. Com isso Jeremias estava dizendo, ao que restou do antigo povo de Israel que o sentido de sua vida não estava nele mesmo, mas em Javé e no sonho de um mundo reconciliado que o próprio Javé, um dia, sonhou e compartilhou com suas criaturas.

Mantendo esta velha história da Bíblia como pano de fundo, ou como uma espécie de cantus firmus, vamos olhar, ainda que brevemente, para a nossa situação, hoje, tanto no mundo quanto no Brasil e, também, para a nossa melhor tradição cristã, ou seu núcleo essencial, ou seja, aquela revelada na vida de Jesus de Nazaré: não será que encontraremos uma situação semelhante e que, quem sabe, os destinatários da carta de Jeremias somos nós?



Nosso contexto


Vivemos um momento histórico caracterizado muito mais por falências de toda ordem, do que por realizações inovadoras e transformadoras da condição humana, naquilo que ela tem de mais criativo e digno. A desaforada expansão do neocapitalismo, acentuando de forma dramática o quadro de desigualdade social e econômica em que se encontra a população do planeta, mantém e aprofunda a miséria e a fome de mais de dois terços da população mundial, tornando cada dia mais monumental a diferença entre aqueles que possuem e os que nada possuem. Como assinalam alguns indicadores sócio-econômicos: 20% da população são 60 vezes mais ricos que os 20% mais pobres. Acrescente-se ainda que apenas 400 multimilionários concentram maior riqueza que metade da população mundial! Os resultados desta injusta e desproporcional correlação podem ser visto nas dezenas de conflitos bélicos que transformam em inferno a vida de milhões de pessoas por toda a parte no planeta. O poderio militar industrial e financeiro de uma única nação, com o apoio de meia dúzia de aliados, sob o pretexto de reger as relações entre os povos, em nome da justiça, da democracia e do bem para todos (discurso oficial), espalha o terror por toda a parte, mantendo a ferro e fogo seus interesses, desorganizando as economias, deturpando culturas milenares e impondo formas de conduta e perspectivas para a vida (a título de valores universais) que só servem para comprovar a tese de Platão tão repetida por Hobbes: ?Homo homini lupus!?.

Já se tornou moeda corrente a convicção de que a modernidade já era... o irônico e sarcástico approach de Charles Chaplin no filme ?Tempos Modernos?, já pode ser considerado, pelo menos para a gerações pós 68, como peça de museu. Vivemos na pós-modernidade, uma expressão ambígua, sujeita as mais diferentes e contraditórias definições. ( Cf. dentre outros, Rouanet, Sérgio P. & Maffesoli, Michel, Moderno e Pós-Moderno, Rio de Janeiro, UERJ, Dpto. Cultural, 1994.) Não é o caso, para os fins desta reflexão entrar pelos meandros dessa interminável discussão. Basta-nos aqui, constatar que a mera expressão?pós-moderno? já indica que os pressupostos epistemológicos e científico-metodológicos que caracterizaram, até aqui, a ?modernidade?, parecem ter chegado ao ponto máximo de saturação e esgotamento e que, por isso, o começo de um novo período histórico já se avizinha no horizonte da experiência humana. A história nos ensina que toda a mudança de paradigma só acontece depois de um período mais ou menos longo de transição caótica. Assim aconteceu quando da passagem do mundo antigo para a Idade Média, que foi mediada por um período de caos social, econômico, político e cultural que ficou conhecido como Idade das Trevas. A desintegração da Idade Média, por sua vez, não deu início, de imediato, a modernidade. Mais de dois séculos, incluindo a Guerra dos Trinta Anos, foram necessários para a gestação da Revolução Industrial e do movimento do Iluminismo que consolidaram os parâmetros básicos do que veio a denominar-se Era Moderna. Assim, para acalmar nossas ansiedades e temores com relação as contradições e inseguranças com que temos de viver, atualmente, basta-nos, em princípio, compreender os tempos atuais como um período transicional, um tempo de passagem para um novo momento histórico que ainda não sabemos bem que caráter terá.

Trata-se, no entanto, de um período de crises, de angustias e sofrimentos em função da incerteza do futuro. Ao mesmo tempo, porém, somos capazes de identificar tendências e linhas de força que, ainda que em intenção permanente, nos ajudam a perceber os rumos por onde caminhamos, na elaboração de novos paradigmas para o futuro. Já com certa desenvoltura falamos em economia global e vemos o mundo como uma ?aldeia global?. Com mais facilidades com seus amigos (as) virtuais do que com seus parentes ou vizinhos fisicamente próximos. Caminhamos para a constituição de uma cultura transnacionalizada, graças aos milagres da cibernética, da mídia, do marketing e sobre as bases de uma sociedade de consumo altamente sofisticada. Com isso as culturas locais e nacionais estão em crise, pois tem de evitar o Leviatã mercadológico do mundo ocidental em condições adversas de inferioridade material, embora continuem resistindo bravamente.


Nosso contexto urbano


Nas últimas 4 ou 5 décadas uma contínua onda migratória confluindo para a região sudeste transformou, radicalmente, a configuração populacional do país,invertendo mesmo a relação campo-cidade, no que se refere a proporção de habitantes. Em cerca de cinqüenta anos nos transformamos de um país com população essencialmente rural num país caracteristicamente urbano com quase 80 % da população vivendo em grandes conglomerados metropolitanos. A costumaz ausência de políticas públicas voltadas para a realidade agrária e, acima de tudo, a indefinida postergação da necessária e imperiosa reforma agrária, capaz de impedir a contínua concentração da propriedade rural nas mãos de poucos cidadão gerou a impossibilidade de sobrevivência do pequeno agricultor e do lavrador, mantido em condições sub-humanas de vida, que não tiveram outra alternativa a não ser procurar as áreas de concentração industrial e de serviços a fim de garantir sua sobrevivência. Este fato resultou no quadro espantoso de cidades populacionalmente ?inchadas? com mais habitantes que tanto sua infra-estrutura física como socioeconômica é capaz de suportar. Esta expansão caótica e desgovernada dos centros urbanos gerou um complexo de problemas de ordem econômica, social, política e cultural que os tem transformado em sub-unidades populacionais quase que ingovernáveis. A violência e a insegurança tanto física dos cidadãos comuns como socioeconômica da grande maioria, tornaram-se a marca característica destas monumentais ilhas populacionais em que nosso país, hoje, e não apenas ele, se distribui. Analisando esta triste realidade urbana a pesquisadora Elaine B. Gurevich afirma que a cidade contemporânea está morta, espelhando a condição de desorientação e perdição da humanidade neste início de século conturbado pelo conjunto de rápida e profundas mudanças que a pouco observávamos, e, demandando com vigor desesperante e inconformado, a construção de uma nova identidade humana. Diz esta autora ?Tudo está em processo profundo de transformação: os relacionamentos pessoais, as reivindicações de classe, as correntes culturais e a configuração espacial da sociedade. O homem se perde num momento em que, manipulado em todas as direções, se padroniza tanto pelo consumismo, regido pela ânsia de status quanto pelo desvirtuamento social e a mercantilização de suas emoções mais básicas ... ? (...) ?A cidadania degrada, em parte com a desertificação dos espaços públicos. O confinamento das atividades que antes se faziam a céu aberto (praças, ruas ou terrenos baldios) hoje, em estádios, restaurantes, cafés, mercados e shoppings caracterizam, além da elitização dos espaços, a segregação completa entre classes A e B e as classes menos abastadas?. ( Gurevich, Elaine B., A construção da cidade contemporânea, in Dynamis, v.6, nº23, abr/jun 1998, Universidade Regional de Blumenau, Pr. pg.. 9/10.) A autora chama a tenção, também, para o processo de exclusão que conduz a grande maioria da população à passividade e ao conformismo ao mesmo tempo que a induz, no seu esforço de sobrevivência a constituição do que ela chama de ?cidade marginalizada?, aquela excluída socialmente e desvalorizada comercialmente, e que se caracteriza por existir, enquanto imensos ghettos de pobreza e miséria, fora dos balizamentos legais e, por isso mesmo, como centros geradores de violência.

O que significa falar de missão cristã num contexto complexo e diverso como este? Será que a sedutora provocação sofrida pelas igrejas e movimentos religiosos por parte das novas tecnologias de comunicação instrumentalizadas segundo as leis do mercado capitalista, a que muitas tem se submetido, muitas vezes, acriticamente, não se torna em mais um fator de distração de seus compromissos evangélicos? Na medida em que os símbolos religiosos são pervertidos, transformando-se em produto de consumo a disposição de todos, que sentido tem e que tarefas são exigidas dos seguidores da contra-cultura inaugurada por Jesus?


Missão: dando notícias do Reino ...



Ao olharmos para a história da igreja percebemos que, desde de seus primeiros tempo se fala e se escreve sobre sua natureza e missão. A comunidade cristã, começando com os discípulos tem vivido num processo permanente de reconstrução de sua autocompreensão e do sentido e significado de sua presença no meio da história humana, em função da tarefa que lhe foi designada quando do gesto do ínvio dos discípulos por parte do Jesus ressuscitado, ou seja, o testemunho vivo do Deus vivo. Este o Leitmotiv, a razão precípua de sua existência.

Nesta observação da história dos povos, particularmente no Ocidente, percebemos que nos diferentes momentos de crise, de transformações profundas e revoluções de todo o tipo que se forem sucedendo no transcorrer da aventura humana, as comunidades cristãs nas concreções históricas em que se foram, sucessivamente, se transformando, se viram obrigadas a repensar e a reformular seus modelos de presença e atuação nas diferentes sociedades e culturas onde aconteciam. Isto porque, desde os seus inícios, estas comunidades se viram envolvidos numa polêmica decisiva a cerca de Jesus. De um lado, aqueles que o inscreviam na linhagem tradicional dos deuses imperiais, poderosos, exteriores as realidades humanas e mais afeitos as glórias do poder, dirigindo os destinos dos humanos e legitimando as dominações na terra e , de outro os que, rompendo com um certa interpretação da teologia messiânica do Antigo Testamento, o viam como alguém que anunciava a manifestação de um reino outro, caracterizado pela presença permanente de Deus entre suas criaturas como a expressão mais íntima da vida de cada um. Para esses cristãos Jesus se Constituiu no sinal maior de ruptura com tudo aquilo que denota os limites da experiência humana especialmente sua auto-afirmação. Sua vida e mensagem se caracterizaram por ser um convite ao abandono das pretensões pessoais e à entrega total as exigências desse Reino. Como assinalou R. Garaudy ?O Reino já está onde o homem realiza este despojamento total. Se ele ?ainda não?está, é porque essa relação com o mundo não foi percebida por todos. Essa tensão entre o ?já aí? do despertar pessoal para a vida do todo e o ?ainda não? do alerta a todos da vida do todo, é a tragédia otimista do alerta (a cerca do Reino que é chegado) pois cada um de nós é responsável pelo despertar de todos?. ( Garaudy, R., op.cit. pg. 97.)

Este processo de revisão permanente de seu devir histórico, em função da razão de sua existência, antevisto e formulado pelos reformadores do século XVI (ecclesia reformata et semper reformanda), tem sido fonte, desde as páginas do Novo Testamento de não poucos conflitos no interior das estruturas eclesiásticas. Pois, como expressou com precisão Rudolf Weth ?A comunidade cristã se constitui numa minoria exemplar e crítica que tem a função de fermento para a utopia universal do Reino de Deus e não está interessada em aumentar o seu poder mas em preparar os filhos para o Reino?. ( Weth R., apud Segundo J.L., Masas y Minorias en la dialéctica divina de la liberación, Buenos Aires, La Aurora, 1973. P. 55 (trad. do autor) )

Se a missão é parte constitutiva essencial da comunidade cristã, ou o coração da Igreja como a descreve Eberhard Jüngel, ou seja, sua razão de ser e existir, ela não é, entretanto, algo que lhe pertença e que dela dependa de forma exclusiva. O Novo Testamento quando se refere à missão dos seguidores de Jesus se refere, basicamente à ação do Pai em meio a criação para dar forma e preservar a vida que se originou de sua criação amorosa. É Deus ?a quem pertencemos, existimos e nos movemos? (At 17,28) quem está desde sempre em missão a, através de seu espírito. O Novo Testamento nos alerta, então, para missio Dei na qual a comunidade dos discípulos de Jesus esta sempre sendo chamada a se integrar. Recordando uma expressão de S. Irineu, José Comblin escreve que ?o Pai age pelas suas duas mãos: o Verbo e o Espírito Santo. As duas mãos são iguais em força e valor. As duas mãos agem em conjunto ao são idênticas. Cada uma produz uma operação diferente, mas ambas se complementam, e delas procede um resultado final?. ( Comblin, J., O Espírito Santo e a Libertação, Petrópolis, Vozes, 1987. pg. 178 ).

Importa assinalar, no entanto, que a missio Dei não transcorre no vazio e nem está limitada às fronteiras da comunidade cristã. Da perspectiva dos evangélicos a missio Dei acontece no interior da missio humanitatis, a missão da humanidade, como pontua o missiólogo indiano M. Tomas Thangaraj. Porque somos todos autoconscientes, historicamente marcados e ecologicamente interdependentes, afirma este autor temos uma tarefa comum de sustentação e promoção da vida. A missio humanitatis a que todos os humanos são chamados a partilhar consiste ?num ato de assumir responsavelmente (a vida) de maneira solidária e com um espírito de mutualidade?. (Thangaraj, M. T., The Common Task: a Theology of Christian Mission, Nashville, Abingdon Press, 1999. pg. 53 ).

Ora, se a sustentação e promoção da vida é uma tarefa que repousa sobre a responsabilidade de todos os humanos (ainda que nem sempre entendida e realizada por todos) isto quer dizer que não cabe aos seguidores de Jesus nenhuma pretensão de hegemonia e, muito menos, de imposição da sua perspectiva no esforço comum de percepção e construção da vida, mas, é óbvio, que para a visão cristã, a missio humanitatis se torna qualificada e plenificada pela missio Dei conforme esta se manifestou na vida e na obra de Jesus. Esta afirmação da especificidade da comunidade cristã resguarda os seguidores de Jesus do relativismo empobrecedor e do ecletismo desmobilizador, abrindo-a à experiência da diversidade e à riqueza inesgotável das múltiplas manifestações de Deus vivenciadas pelos humanos em suas diferentes manifestações culturais. Ao mesmo tempo preserva a comunidade cristã da petulância triunfalista, da auto suficiência, muitas vezes etnocêntrica e universalista, que termina por negar a transcendência. Como escreveu Karl Barth ?tudo que digo de Deus, é um homem que diz?. É neste sentido que, no Novo Testamento, Mateus e Marcos se referem a continuidade do discipulado ao registrarem o envio dos discípulos por parte do ressuscitado, como testemunhas da Boa Notícia (Mt 28,18-20, Mc 16,15-18).

Ou seja, a comunidade dos seguidores de Jesus é chamada à existência, pela inflexão do Espírito Santo, para co-missionar com Deus no mundo. A evangelização, isto é, a proclamação que dá testemunho da Boa Notícia, não é mais que dar continuação ao trabalho missionário de Deus, a revelação de sua intimidade com suas criaturas, fato que teve sua culminação na vida de Jesus, proclamando um reino ao qual se tem acesso não pela conquista mas pela privação da posse. É desse homem perfeito, porque foi homem até o fim, que seus seguidores receberam o poder inspirador de seu espírito e a tarefa que justificam sua existência comunitária no mundo. Como muito o expressou o Bispo Leslie Newbingin ?... o privilégio da vida cristã não pode ser visto separado de suas responsabilidades. O mesmo Cristo que disse ?Venham a mim todos vocês que estão cansados de carregar suas pesadas cargas e eu lhes darei descanso? (Mt 11,28) também disse à aqueles mesmos discípulos ? assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês? (Jo 20,21) e lhes mostrou as marcas de suas batalhas contra os governantes deste mundo?. ( Newbigin, L., Foolishness to the Greeks, Gran Rapids, WCC-Mission Series, Eerdmans Pub. Co., 1986, pg. 123. (Trad. do autor)). Donde se pode concluir que realizar a missão de Deus no mundo, pelo influxo do espírito de Jesus, significa para a comunidade cristã, a ecclesia, aperfeiçoar continuamente sua relação com Deus, a fonte inesgotável da vida. O compromisso missionário, portanto, implica a busca de Deus no outro diferente de nós e a quem garantimos o direito de ser e permanecer o diferente que ele/ela é. Pois Deus, por ser a expressão daquilo que transcende a nossa experiência limitada e parcial não é apenas o Deus de nossa tradição cultural. Ele é o Deus da história, a alma de todos os esforços dos humanos em todo o tempo, para descobrir e realizar o sentido de suas vidas. Reduzi-lo às dimensões de nossa cultura, de nossa maneira de concebê-lo, é o inicio da idolatria que Jesus combateu.


A missão na ótica do proscrito...


Mesmo antes de separar-se do grupo de seguidores de João Batista e constituir sua própria comunidade Jesus já se entendia como um dissidente vivendo na condição de um excluído de um proscrito no meio de seu próprio povo. E esta condição não só lhe foi imposta por seus adversários ? os que administravam o poder político-religioso simbolizado pela autoridade do Templo e da Torah ? como foi, acima de tudo, assumida conscientemente por ele mesmo.

Recuperando e reinterpretando a tradição profética afirmou sua condição de dissidente ao não aceitar o reducionismo formalista e religioso monitorado pelos grupos que detinham o poder na esfera do sagrado no meio do povo. Trabalhando com os mesmos símbolos que davam sentido e orientação para seus contemporâneos Jesus ofereceu, entretanto, uma interpretação diferente, que recuperava a autenticidade da tradição israelita, conspurcada e pervertida pela manipulação interesseira dos que detinham poder. Procurou mostrar nas mais diferentes situações que o lócus do poder e da presença de Deus não é constituído pelas estruturas que conformam o culto, nem pelo corpo de doutrinas, nem pelos lugares ditos sagrados, mas se encontra nas próprias pessoas. Com isso provou uma inversão total no estilo da vida religiosa da época. Não que ele, como bom judeu, não desse importância ao Templo e à Lei, mas procurava mostrar que tudo isso só tinha sentido e razão de ser se contribuísse para a humanização da vida de todos.

Recolhendo os estudos de outros autores, André Dumas nos indica que, em grego a palavra christos, usada para a tradução do messiah hebraico, designa, ao mesmo tempo aquilo que esta por cima da matéria e o que é subsistente por si mesmo,no sentido de estar separado, escolhido para, posto de lado para uma ação ou função específica. ( Dumas, A., Una teologia de la Realidad ? D. Bonhoeffer, Bilbao,Desclée de Brouwer, 1971. pg. 7). Salta a vista nos evangelhos e, particularmente, nas cartas de Paulo, que Jesus de Nazaré recebeu o título de Cristo advindo da tradição israelita do messiah, o escolhido ou ungido de Deus para a sua revelação na história. Assim, a partir dos relatos dos evangelistas podemos inferir que Jesus foi feito Cristo na medida em que recusou a visão de mundo e a maneira de viver, com seus valores, perspectivas, projetos e normas comportamentais características de seus contemporâneos, fazendo-as passar pelo crivo dos valores fundamentais do Reino de Deus, mensagem central e eixo estruturante de sua compreensão da vida. Esta a razão porque foi proscrito da comunidade dos ?religiosamente corretos? e dos ?politicamente afinados? com as estruturas de dominação do império, pois, a natureza da sua mensagem implicava nesse tipo de reação. Assim o Jesus dos evangelhos, e não aquele consagrado pelo institucionalismo eclesiástico que o sucedeu não se considerou Deus, não se considerou melhor do que ninguém, nunca se colocou em evidência e jamais se deixou servir por qualquer pessoa, assim como não dispunha de forças milagrosas, capazes de funcionarem em qualquer momento, lugar e hora. Narram os evangelhos que em Nazaré, onde ninguém acreditava nele, não conseguiu fazer milagres (Mc 6,5). Crer em Deus e aceitar as tarefas derivadas dessa fé foi tão difícil para ele como o é para nós hoje (Mc 14,33-38; 15,33-34).

O surpreendente do relato evangélico é que, em Jesus, Deus se fez presente em e na condição humana, de uma forma insólita e estranha para as tradições religiosas de todos os tempos, especialmente aquelas do entorno mediterrâneo: apresentou-se como um fraco e impotente! Segundo o apóstolo Paulo ?Sendo em forma de Deus não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens e achado na forma de homem humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz? (Fl 2,6-8). Daí a exclamação de R. Garaudy ? pela primeira vez, homens, ao verem morrer um homem, um dos mais despojados dentre eles, puderam pensar: Ele é Deus! E o primeiro e verdadeiro Deus, pois não tem poder. Diferente de todos os antigos deuses, lançadores de raios ou ?deus dos exércitos? que sua imaginação projetava no céu para compensar sua fragilidade e sua limitação?. ( Garaudy, R., Rumo a uma guerra Santa?, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed. 1995. pg. 74.).

Entendemos que a condição humana, retratada na experiência do filho do carpinteiro de Nazaré, com suas limitações, suas angústias, seus dramas, temores e perguntas sem respostas (cf. por exemplo Mc 14, 33-34) mas, também, seus sonhos, utopias e esperanças (ver, por exemplo Mt 11,25-30; Mc 4, 30-32), configura um ponto de convergência, um locus tanto existencial quanto sociológico, que reflete a realidade dos humanos, o qual deve se constituir no ponto de partida para a construção de um novo paradigma missionário. Infelizmente, grande parte das cristologias das igrejas quase sempre produzidas a partir de uma posição de poder ou de aliança com o poder reinante, ou ainda, do interior das lutas pelo poder, por menor e limitado que seja este e, ainda, influenciadas pelas tramas dos interesses em jogo nas sociedades, não podem jamais aceitar que o Transcendente se revele e se expresse na vida desse homem de Nazaré. Por isso mesmo o transformaram em herói, salvador, rei, vencedor, deus todo-poderoso, descendente da coroa de Davi, mensageiro do todo-poderoso ?deus dos exércitos?, que um dia retornará com seus anjos em poder e glória! Ou seja, o contrário de tudo aquilo que ele professou em vida. Como destaca Dorothee Solle ?Não necessitamos de outro vencedor, juiz ou herói. E também não necessito de um salvador, se esta palavra significa que um ser superior me transfere de uma situação miserável para um mundo diferente, bom, intacto, sem a minha participação? (...) na Bíblia, salvar significa libertar ou curar. Cristo não é o super-herói que extingue por um passe de mágica ou anula subitamente, o câncer ou a energia atômica. Mas ele nos liberta do terror da obsessão do mal e cura, tirando de nós o medo que bloqueia nossa força curadora. ( Solle, D., Deve haver algo mais: reflexões sobre Deus. Petrópolis, Vozes, 1999, pg.79-80.)

Por trás dos títulos e das fórmulas com que a tradição procurou representar a vida de Jesus, como o Cristo de Deus, nos lembra ainda D. Solle estava a intenção de repetir a cristolatria por um lado e o docetismo, por outro, e formular o segredo da vida desse homem que faz com que ele nunca seja eliminado. Este segredo diz ela ?é o mesmo segredo que habita os corações dos sofredores, dos humilhados e empobrecidos, dos sem terra e sem trabalho?. ( Id. ibid., pg. 80). Por sua vez R. Garaudy pontua que, ?com Jesus, pela primeira vez, a transcendência divina se revela no despojamento de todo o poder em um homem que compartilha a vida dos homens, primeiramente, a dos mais carentes e revelando, por sua vida e morte, a divindade da vida e da morte? . ( Garaudy, R., Deus é necessário? Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1995. pg. 20).

Ao assumir sua condição como a de um proscrito Jesus promove e dignifica a condição de vida experimentada pela maioria dos humanos em seu tempo e em todos os tempos. O proscrito é o que foi posto fora, colocado a margem, rejeitado, desconsiderado e tratado como um objeto. Segundo o direito romano trata-se da categoria do ?homo sacer?, ( Cf. Zizek, S., A biopolítica humanitária, in Caderno mais!, nº 536, Folha de São Paulo, 19/05/2002 pg. 18) aquele que podia ser morto com impunidade, já que sua morte não possuía valor sacrificial, conforme nos relata o filósofo italiano Giorgio Agamben que, em livro recente recupera esta categorização da jurisprudência da Antiguidade para aplicá-la aos excluídos do capitalismo contemporâneo. ( Agamben, G., ?Homo Sacer?, Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2002.).

É nesta condição que Jesus se torna destinatário do amor redentor de Deus e revelador de sua presença na história. Assumir conscientemente esta condição significa negar-lhe legitimidade e denunciar sua desumanidade. Assim, ao se apresentar com ?uma pessoa-para-as-outras-pessoas? (Bonhoeffer) Jesus oferece uma nova chave hermenêutica que denuncia a idolatria das formas sócio-culturais e econômicas vigentes, para tornar possível a apreensão do sentido pleno da vida humana. Neste sentido as igrejas estão sendo chamadas a repensar suas relações com as formas de convivências características da cultura ocidental. A compreensão individualista da vida e da salvação, a ideologia de mercado (que receita agressividade, competência e concorrência como ?valores? a serem cultivados), o culto à tecnocracia a banalização da violência, o desrespeito à natureza, o desprezo a dignidade da vida humana e a discriminação do diferente não podem, evidentemente, fazer parte de uma proposta eclesiológica que se afirma como cristã.

O anúncio do Reino de Deus é a negação do reino egolátrico dos humanos assim desumanizados. Como bem expressou Paulo ?Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias, e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes. E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são, para que nenhuma carne se glorie perante ele? (I Cor 1, 27-29).

Esta compreensão de Jesus como proscrito, no qual se revela o Cristo de Deus, e Cristo entendido aqui não na expressão individualista e heróica definida pela instituição eclesiástica e profundamente enraizada no imaginário coletivo da cultura ocidental, mas enquanto pessoa coletiva que representa a presença de Deus entre os humanos e estes junto a Deus, nos oferece uma significativa porta de entrada para a apreensão dos dilemas e enigmas que homens e mulheres em nosso tempo e lugar, tem experimentado em suas variadas buscas pelo sentido fundamental de suas vidas. Nas atuais circunstancias da vida no planeta isso significa, para as igrejas, que se pretendem continuadoras da proposta anti-sistêmica iniciada pelo profeta de Nazaré, um esforço incessante para se articularem, enquanto membros do ?corpo de Cristo? (I Cor 12), numa perspectiva de complementaridade e íntima cooperação para o desenvolvimento de uma cultura de solidariedade e de afirmação dos direitos sociais e humanos em meio aos escombros da crise civilizacional que experimentamos. É nesta direção que tem caminhado, não sem dificuldades, o movimento ecumênico. Este esforço de renovação de prioridades e critérios para a revitalização de sua vocação missionária é que tornará possível à comunidade dos seguidores de Jesus testemunhar, em meio às contradições, sofrimentos, sonhos e esperanças dos humanos o novo estilo de vida que ele exemplificou. Ou como o expressou com profundidade e poesia Roger Garaudy: ?viver sua vida, seu despojamento, cria um novo olhar, profético, um olhar que não se apega ao parcial, mas que nele descobre o todo e o futuro que aponta? (...) Ver a borboleta na larva, a santa na prostituta, a águia no ovo, o irmão em meu próximo e em meu distante, e, no sorriso efêmero do jasmim, a ressurreição eterna da primavera. Tal é o olhar de Jesus sobre o mundo. Mas ?ele tocou a flauta e nós não dançamos!? (Mt 11, 16-17)?. ( Garaudy, R., op.cit. pg. 117.).

Depois de todas essas considerações, que recolhem as dissonantes e multivariadas melodias que emergiram da experiência histórica do mundo ocidental e, também, o ?som do evangelho? humanamente sincronizado pela apresentação de Jesus, não nos parece perceber, em todas as conseqüências da história até aqui vivida e daqui para frente sonhada o ?cantus firmus? de Jeremias, fazendo ressoar em nossos ouvidos o imperativo da vida: ?Procurai a paz da cidade...? ?



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Segunda apresentação:

?Esses que estão transtornando o mundo, chegaram aqui também?. (At 17,6)

(ou... A comunidade cristã como portadora de uma ação contra-cultural)


Introdução

Há algumas décadas que o vento da religiosidade tomou conta do mundo. As religiões antigas, incluindo aqui o Cristianismo, revestiram-se de novas vitalidades, ao mesmo tempo que novas formulações religiosas vão surgindo por toda a parte. À semelhança de outros momentos históricos experimentados pela humanidade, assistimos uma busca frenética por estruturas de sentido que dêem significação à experiência de vida das pessoas. Mas, não nos deixemos enganar: os tempos são propícios as multivariadas vivências culturais em seus modos religiosos de expressão, porém, muito pouco afeitos às demandas da perspectiva evangélica testemunhada por Jesus.

Mas de que Jesus estamos falando? Sim, porque, existem muitas versões dinamarquês que viveu no século XIX e foi solenemente ignorado pelos seus contemporâneos. Profundamente impressionado pelo testemunho de vida e pela humanidade de Jesus, marcada pela liberdade, por uma sã agressividade e por um inconformismo radical, Sören Kierkegaard, investiu contra a religião constituída e oficial de seu país, pois considerava que o Evangelho pregado nos púlpitos das igrejas de seu país não era seguido nem vivido, na prática, pelos membros do clero luterano e nem pela grande maioria da população, já que estes pretensos cristãos estavam por demais identificados e comprometidos com os valores da sociedade burguesa de seu tempo e não com os exigentes valores do Evangelho. acerca desta figura histórica e, evidentemente, quase todas, para não dizer a maioria delas, estão longe de serem fiéis ao que ela realmente representou. Vamos tentar, em nossa reflexão de hoje, agitar um pouco as águas que recobrem nossa compreensão, tradicional e comum, da figura de Jesus procurando discernir os encontros e desencontros entre o que se pensa comumente sobre ele, e o retrato real que dele nos apresentam os Evangelhos. Pois, como nos advertiu o grande teólogo e missionário Albert Schweizer, ?Cada época projetou em Jesus seus próprios ideais terminando por acreditar que eles eram os do Nazareno?.


I ? Um dissidente de peso, por isso proscrito


Depois da I Guerra Mundial, cristãos e pensadores europeus descobriram e trouxeram à discussão as idéias, os escritos e o testemunho de um notável cristão
Kierkegaard foi um dissidente, em seu tempo, por conta da sedução que sentia pela mensagem do Evangelho. Como Jesus, foi perseguido e morreu jovem como ele.

Os Evangelhos nos apresentam um homem totalmente diferente daquela imagem domesticada das instituições eclesiásticas de todos os tempos. Jesus, segundo os textos, foi um homem profundamente polêmico e polemizador. Discrepou de seus discípulos (?Vade retro Satanás?, foi uma frase dura que dirigiu a Pedro); discordou de seus familiares, acusou e rompeu com as autoridades e os grupos político-religiosos de seu tempo; censurou os ricos; admoestou os pobres e reclamou até de Deus ("Deus meu, Deus meu por que me desamparaste?") Ou seja, toda a sua vida foi um ato de dissidência. Viu-se obrigado a romper muitas e antigas expectativas. Por exemplo: sua família tinha outros planos para ele, e as tensões dessas relações estão refletidas nos textos dos Evangelhos. Seu estilo de vida, errante e escandaloso, sua presença nos estratos mais desprezados da população (andando no meio dos mais pobres, das prostitutas, dos cobradores de impostos) levaram sua família a pensar o pior: ficou louco!(Mc 3,21). Mas a tentativa que fizeram para recuperá-lo e para convencê-lo a voltar para casa não deu em nada. A vocação de Jesus superou as resistências familiares.

Com os discípulos aconteceu algo similar. Aqueles homens, arrancados das atividades da pesca e de outros ofícios simples, acreditaram que seriam muito felizes com Jesus. Pensaram que havia chegado a hora de verem suas reivindicações realizadas. Jesus teve que realizar um trabalho lento para convencê-los de que sua revolução era de alcance infinitamente maior. O que mais lhe custou foi convencê-los de que sua revolução podia incluir a cruz e a morte. Jesus teve, pois, de discordar de seus discípulos e de esmagar suas expectativas de triunfo rápido e vitória segura.

Assim aconteceu com todos os grupos e pessoas com as quais conviveu. A todos exigia que ?nascessem de novo?, que mudassem seus modelos de vida, que ?se convertessem?. De todos, pois, o profeta de Nazaré dissentia. É verdade que manifestou uma dedicação essencial ao mundo dos pobres e dos marginalizados. Mas esta foi, também, uma dedicação tensa. Na verdade ele nunca se identificou plenamente com eles, embora sua vida tenha sido um permanente ato de serviço a eles. Podemos mesmo dizer que ele jogou a fundo a carta dos fracos. Considerou-os uma espécie de critério fundamental, de medida, para a sua própria vida. Mas Jesus sabia, claramente, que os pobres e marginalizados também são pecadores, podem romper as amarras da solidariedade. Deixou isto claro na parábola do servo sem entranhas ou do credor incompassivo: enquanto a ele lhe é perdoada uma importante dívida, este pobre homem paradigmático acossa, sem piedade, o companheiro que lhe deve uma insignificância! (Mt 18,23 ss). Assim Jesus foi, pedagogicamente, exigente com os pobres. Parece também, que não lhe agradava a idéia de que seus milagres pudessem dar lugar a uma relação interesseira com ele. Daí a sua reprimenda: ?Na verdade... me buscais porque comestes do pão e vos saciastes?.(Jo 6,26).

Nem que falar também de sua discordância com relação aos fariseus, aos saduceus, aos zelotes e aos essênios. Confrontou também a João Batista, o estranho profeta do deserto, deixando claro que ele não veio anunciar o juízo, mas a salvação. (Cf. Fraijó, M., Fragmentos de esperança, S. Paulo, Paulinas, 1999, pg. 289 e ss.)

Mas ser dissidente, nadar contra a corrente, agir contra os costumes aceitos e consagrados pelas maneiras culturais de cada povo ou cada grupo social, acarreta um sofrimento nada fácil de suportar. Pois o dissidente, o que age contra-culturalmente, se marginaliza. É proscrito pelas estruturas de poder e também se auto-proscreve. As instituições religiosas, de qualquer tipo, e a sociedade, procuram sempre colaboracionistas, pessoas passivas e conformadas, e não, dissidentes. A dissidência sempre tem um preço muito alto. No caso de Jesus o preço foi a morte na cruz, não sem antes passar pela humilhação e a tortura. Não estão tão distantes de nós as épocas, nas quais as dissidências eram eliminadas, sucessivamente, ou com a perseguição, o silenciamento, ou com a expulsão da comunidade, com a tortura, com o "desaparecimento" e com a... fogueira!

Na base da ativa dissidência de Jesus estava a nova imagem de Deus que ele ofereceu. Seu Deus era generoso, bom e repleto de compaixão. O deus rígido e severo dos fariseus e saduceus, na sua concepção estava totalmente desautorizado. Mas essa nova imagem de Deus, oferecida por Jesus, dá-se frente a um mundo consumido na injustiça e na dor. É aqui que surge a dissidência de Jesus rogando ao Pai que distancie de todos nós o cálice da dor.


II ? A Igreja: uma comunidade de dissidentes


Segundo L. Boff, Jesus ?fez da misericórdia a chave de sua ética. É pela misericórdia que os seres humanos chegam ao reino da vida; sem misericórdia não há salvação para ninguém (Mt 25.36-41). As parábolas do bom-samaritano, que mostra compaixão pelo caído na estrada (Lc 10. 30-37) e a do filho pródigo, acolhido e perdoado pelo pai (Lc 15.11-32), são expressões exemplares de cuidado e de plena humanidade? ( Boff, L., Saber cuidar, Petrópolis, Vozes, 1999, pg.168) vivida e proclamada por Jesus.

Esse dissidente, cheio de misericórdia e compaixão pelos humanos, só pôde ser o que foi porque partia de um princípio fundamental totalmente novo: o anúncio do Reino de Deus. Toda sua vida girou ao redor desta proclamação. Ou seja, o anúncio e o testemunho da presença deste Reino é que estruturava e dava sentido a sua vida. E nisso consiste o Evangelho, a Boa Notícia de que o Reino de Deus se encontra entre nós. Quando os fariseus lhe perguntaram: ?quando havia de vir o Reino de Deus, respondeu-lhes e disse: O Reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: ei-lo aqui, ou, ei-lo ali; porque eis que o Reino de Deus está entre nós? (Lc 17.20-21). Importa destacar, no entanto, que Jesus anunciava um Reino que não tinha precedentes na tradição israelita e discrepa totalmente do Reino de Davi: o Reino de Deus está entre nós, e, em outra passagem, em nós. O Reino de Deus é a presença de Deus nos humanos e entre os humanos!!! Esta é a mensagem radical e central de Jesus: a presença permanente de Deus. Assim, como assinala, certeiramente, R. Garaudy: "Conhecer-se não é se encerrar em uma interioridade subjetiva, em uma pretensa ?psicologia das profundezas?, é descobrir que o ?eu? verdadeiro não é o pequeno ?eu? encerrado em seu invólucro de pele, mas é a tomada de consciência de pertencer ao todo. A tomada de consciência de que essa presença de Deus é o que há de mais íntimo em mim. ?O Reino de Deus acaba de chegar a vós? (Lc 11.20 e Mt 12.28). Deus já está aí, e seu Reino também. Com o poder de expulsar os demônios, ou seja, o meu pequeno ?eu? limitado: minhas propriedades, minhas funções, meus desejos, meus poderes? (Garaudy, R., Deus é necessário?, Rio de Janeiro, Zahar, l995, pg.96).

Os seguidores de Jesus ao se inscreverem na missão de Deus no mundo devem seguir os critérios e as pautas que marcaram sua vida. Isto quer dizer que a fidelidade a Jesus significa tensão permanente com a cultura na qual os seus seguidores existem. Isto é, as marcas do Reino presentes entre os humanos têm que prevalecer sobre os apelos e as demandas da cultura que lhes é própria. É na imitatio Christi que o testemunho do Reino se processa. Jesus, portanto, foi um promotor contra-cultural, na medida em que não aceitou aqueles valores da cultura em que vivia que contrariavam as perspectivas e as propostas de humanização e divinização da vida.

Como disse São Cipriano: ?O que o homem é Cristo quis ser, para que o homem pudesse ser o que Cristo é?. Ou, nas palavras de São Irineu, ?Deus se fez homem para que o homem possa se tornar Deus?. Ou seja, nas palavras contundentes de Garaudy: "Jesus nos ensina, com palavras diferentes ?O Pai e eu somos um só? (Jo 10,30) o que as sabedorias do Oriente ensinavam: renunciar às ligações parciais, ao pequeno ?eu?, para deixar emergir em nós o Uno, isto é, não a ?essência? ou a ?substância? do Pai, mas a sua ?energia? ou seu Espírito, constantemente participável e numa permanente expansão criadora. Assim, Jesus não fala de Deus como alguém separado e distante do humano, mas fala do Pai, "meu Pai!". O Pai, que só podemos conhecer através da ação que se revela em seu filho. Isto é, o Filho torna visível o invisível: o Deus oculto!" "Jesus,-- continua ele -- esse Deus sem ira e sem coroa (a não ser a derrisão, a paródia dos espinhos), não é um ser legislador. Jesus não deu ordens: ele invocou as ?Bem-aventuranças?. Jesus não impôs uma lei: ele invocou o amor. Não é a lei, mas o amor que permite o acesso ao Reino. Jesus diz ao escriba que compreendeu isso: 'Tu não estás distante do Reino de Deus' (Mc 17.34). O que confirma que a proximidade do Reino não é uma questão de tempo, mas de mudança de norma de vida. Quando um homem lhe pergunta: ?Que devo fazer para ter a vida eterna?? Jesus lhe recorda cinco dos dez mandamentos. Afastando o que é ritual e formal, acrescenta um que resume os cinco primeiros: ?Amarás ao próximo como a ti mesmo?. ?Obedeci a tudo isso?, respondeu o homem . Então Jesus lhe pediu a demonstração prática desse amor: o despojamento de todos os seus bens (Mt 19,16). Porque é somente por esse caminho que se tem acesso ao Reino: não mais agir como um indivíduo que se considera o centro e a medida de todas as coisas, mas agir em função do Todo, , do Uno? (Garaudy, R., op.cit. pg. 97).


Conclusão


Na sua vocação de dissidente, e assumindo-se na condição de um proscrito, é como Jesus se descobre como o revelador da presença de Deus na história. Ao se apresentar como ?uma-pessoa-para-outras-pessoas? (Banhoeffer) Jesus oferece uma nova chave hermenêutica que denuncia as idolatrias das formas sócio-culturais e econômicas vigentes, em seu tempo, e em todos os tempos, para tornar possível a apreensão do sentido pleno da vida humana. Neste sentido, depois de séculos de contumaz infidelidade, as igrejas estão sendo chamadas a repensar suas relações com as formas de convivência características da cultura ocidental. A compreensão individualista da vida e da salvação, a ideologia do mercado (que receita agressividade, competição e eficácia como valores supremos a serem cultivados), o culto à tecnocracia, a banalização da violência, a mercantilização do sexo e dos sentimentos mais profundos, a agressão a natureza, o desprezo pela dignidade da vida humana e a discriminação do diferente, não podem, evidentemente, fazer parte de uma proposta eclesiológica que se diz cristã. A agenda ética da Igreja tem que ser a agenda ética de Jesus. Não pode fazer concessões às formas culturais naquilo que estas tem de desumano e de negação da vida.

Assim a Igreja, a comunidade dos seguidores de Jesus, aqueles que transtornam o mundo, que não se acomodam a ele, é a que anuncia e vive o novo estilo de vida significado pelo Reino de Deus, que é a negação radical do reino egolátrico dos humanos, assim desumanizados.

Como bem expressou Paulo:?...Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir os sábios; e Deus escolheu asa coisas fracas deste mundo para confundir as fortes. E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são , para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele?. (I Cor. 1. 27-29).


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Terceira apresentação:

?Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e possuíam
tudo em comum?. (At 2,44)

(ou... a comunidade cristã como modelo de inclusão ou solidariedade ativa).

?A Igreja é Cristo em forma de comunidade?.
(D. Bonhoeffer)

Solidariedade

? Estender a mão para o outro,
como se fosse apanhar uma estrela
ou um lírio ou o perfume inteiro
de um bosque.

Estender a mão para o outro
no gesto mais puro e antigo,
assim como mergulhar um cântaro
num poço de águas profundas,
conhecidas e desconhecidas.
Tocar com as mãos o mistério do outro
para entender o próprio mistério.

Alcançar o outro no que ele tem
de diverso e espelho,
e no seu rosto enxergar
o próprio rosto e a palavra
humanidade ?.
( Roseana Murray )
Introdução


As concreções históricas das institucionalidades eclesiásticas, isto é, as formas sócio-culturais que dão visibilidade histórica às igrejas, nas suas múltiplas formações, especialmente em nosso contexto sul-americano e brasileiro, perderam grande parte de sua consistência teológico-doutrinal e de sua significação identitária. Por outro lado, cumpre observar que o campo religioso brasileiro, como salta a vista, é cada vez mais pluralista e conflitivo nas mais diversas direções, mas é possível afirmar que, em que pesem as divergências históricas de origem, as institucionalidades eclesiásticas que hoje atuam entre nós, divergem ou convergem entre si em termos de suas relações, diretas ou indiretas, conscientes ou inconscientes, com a estrutura simbólica gerada pela estruturação material da sociedade brasileira. É evidente que existem contradições de variados tipos opondo igrejas, umas contra as outras. Mas o decisivo para o presente e o futuro de nossa sociedade é a postura fundamental, dessas institucionalidades, frente aos modos de exercício do poder, em todas as suas formas de expressão, no interior da sociedade.

Numa cáustica descrição panorâmica do protestantismo brasileiro o bispo anglicano Robson Cavalcanti expressa com crueza o status quaestionae da realidade que nossas igrejas atravessam. Diz ele: ?Constata-se, hoje, lamentavelmente, uma tendência claramente sectária, arrogante, iconoclasta e agressiva dos grupos novos e independentes, na rejeição do passado e na rejeição dos outros. Nas últimas décadas, consolidou-se, entre nós, a hegemonia do modelo fundamentalista (aquele que "identifica sua própria posição com o absoluto, e assim se absolutiza contra outras posições teológicas e sociais? ? H. Schäffer) versus o resto (liberais, neo ortodoxos, liberacionistas, evangelicais progressistas, etc) fortalecendo-se o espírito de intolerância e a ideologia pequeno-burguesa de inspiração norte-americana (sulista). Muitos ainda confundem a Igreja com o Reino e a participação dos negócios políticos deste mundo vai encontrar de absolutos isolacionistas (neo essênios) a adesistas clientelistas (neo-herodianos), passando pelos neo-teocratas. Perdemos a histórica bandeira do laicismo (separação Estado-Igreja) e os progressistas (embora recentes e mais articulados) continuam minoritários e periféricos.(...) Falta um projeto histórico que ultrapasse as meras mudanças nos indivíduos? . (Cavalcante, R., Protestantismo brasileiro: uma confusa arca de Noé, Ultimato nº 263, Viçosa, 2000, pg.55).

Frente a uma situação como esta, não temos como não falar de uma nova diáspora, como profetizava Richard Shaull nos anos sessenta, para sublinhar o fato, por mais contraditório e escandaloso que pareça, de que subsistem verdadeiras comunidades cristãs no interior de diferentes institucionalidades eclesiásticas que, sensíveis ao sopro do Espírito, sofrem as conseqüências de sua fidelidade ao elemento fundante da fé que experimentam e procuram expressar.

Isto quer dizer que devemos voltar às experiências relatadas no Novo Testamento, não apenas para renovar nosso entendimento dos fatos ali registrados, como para energizar a esperança que nos anima e descobrir novas pistas, que ajudem a relançar nossas possibilidades e potencialidades pastorais e testemunhais para outras e mais pertinentes dimensões.

Na medida em que nos deixamos criticar pelos elementos constitutivos das experiências fundantes de nossa fé é certo que seremos capazes de superar o cativeiro político-ideológico e cultural no qual nossas igrejas, quase sempre, permanecem encerradas.

I ? A Igreja cristã como espaço de vida compartilhada

Os primeiros cristãos, aqueles e aquelas nascidos a partir da experiência de transbordamento de sentido que foi o Pentecostes, entenderam e, mais que isto, sentiram profundamente em suas vidas, o significado da proposta existencial de Jesus, ao ponto de iniciar uma nova experiência de convivência baseada na explicitação da misericórdia e na realização da justiça. Numa página admirável sobre a compaixão, este gênio sagrado do pensar teológico, gerado das entranhas cristãs da religiosidade brasileira, que é Leonardo Boff, dentre outras coisas, nos chama a atenção para o sentido da misericórdia judaico-cristã. A palavra hebraica para misericórdia é ?rahamim?, nos recorda ele, e significa ?ter entranhas e com elas sentir a realidade do outro, especialmente de quem sofre. Significa, pois, sentir, mais do que entender, e mostrar capacidade de identificação e com-paixão com o outro. A misericórdia é considerada a característica básica da experiência espiritual de Jesus. Ele experimentou e anunciou um Deus Pai cuja misericórdia não tem limites:? Dá o sol e a chuva a justos e injustos ?e não deixa de amar os ingratos e maus? ele é o Deus misericordioso com o filho pródigo, com a ovelha desgarrada, com a pecadora pública. É um pai com características de mãe. A versão das religiões orientais da misericórdia judaica-cristã pode ser encontrada na compaixão. No Budismo, por exemplo, a compaixão articula dois movimentos diferentes, porém complementares: o desapego total do mundo, mediante a ascese e o cuidado com o mundo por meio da compaixão. Pelo desapego o ser humano se libera da escravidão do desejo de posse e de acumulação. Pelo cuidado se religa ao mundo, afetivamente, responsabilizando-se por ele. ( Cf. Boff, L., op. cit., pg. 126 ss.).

A compaixão, diz Boff, não é simplesmente um sentimento de piedade para com quem sofre. Ela não é passiva, mas ativa. Como a filologia latina sugere, com-paixão se refere à capacidade de compartilhar a paixão do outro e com o outro. Trata-se de sair de seu próprio círculo e entrar na galáxia do outro, enquanto outro, para sofrer com ele, alegrar-se com ele, caminhar junto com ele e construir a vida em sinergia com ele. Segundo ainda L. Boff ?Essa atitude leva, em primeiro lugar à renuncia de dominar e, no limite, de matar qualquer ser vivo recusando toda violência contra a natureza. Em segundo lugar, procura construir a comunhão a partir dos que mais sofrem e mais são penalizados. Somente começando pelos últimos é que se abre a porta para uma sociedade realmente integradora e includente?. (Boff, L., op.cit., pg. 126). "Uma sociedade onde caibam todos", sem exclusão de qualquer tipo.

A comunidade cristã primitiva se caracteriza por tentar explicitar, de forma concreta, estes valores presentes no testemunho de vida de Jesus. Foi uma comunidade inclusiva, onde todos compartilhavam de tudo. Por isso foi uma comunidade contra-cultural, pois vivia aqueles valores essenciais do Reino e não aqueles da sociedade circundante. Mas não foi, por isso, uma comunidade de costas para a realidade de seu tempo. Ao contrário, vivia na partilha da vida como expressão de testemunho da ressurreição do crucificado. Na medida em que todos tinham tudo em comum a ressurreição de Jesus ganhava realidade no meio da sociedade judaico-palestina, e da oikoumene helênica. Inclusão e solidariedade ativa foram, pois, as suas marcas. Estava aberta a todos, e não apenas aos judeus. Como sabemos não foi fácil, para nossos primeiros irmãos cristãos superarem os preconceitos etnocêntricos. A batalha ideológica entre gentios e judaizantes foi dilaceradora da unidade então em construção. A divergência entre Paulo e Pedro não foi algo menor, exemplo disso é que Paulo ficou quatorze anos sem visitar aqueles irmãos e irmãs!

Nossas igrejas hoje sofrem de problemas similares. Herdamos um modelo de igreja que é exclusivista, que não admite a diversidade e se fecha em si mesma, perdendo a abertura que lhe possibilitaria perceber o que Deus está fazendo no mundo por outros caminhos e outras experiências humanas de transcendência. Continuamos atados à preconceitos, dogmatismos e visões de mundo próprias dos primeiros missionários, sem darmos conta de que eles foram apenas uma parte (não o todo) da experiência dos seguidores de Jesus em seu próprio tempo. Pareceria que tomamos o partido de Pedro e nos recusamos sequer a ouvir os argumentos de Paulo, ou vice-versa! É a mesma realidade trágica da absolutização ideológica do fundamentalismo. Horrorizamo-nos com a atitude sectária e fechada dos Talibans! Mas não será que carregamos os seus vícios metodológicos?

II ? Fome de comunhão num mundo de desencanto

Como afirmamos anteriormente o campo religioso em geral e o campo religioso brasileiro, em particular, torna-se cada vez mais pluralista e conflitivo. Por religioso aqui não entendemos apenas aquilo que está referido às práticas institucionais religiosas e ou eclesiásticas, mas também às atitudes e cosmovisões, que carregam em si um núcleo estruturador de sentido e práticas de caráter religioso, ainda que sejam negados como tais.

Os sociólogos e antropólogos que se têm debruçado sobre a realidade social estão falando, hoje, das identidades individuais como espaços onde se juntam diferentes níveis de identificação e de pertença. A sentida frustração, nas últimas décadas, com as promessas de progresso ou desenvolvimento de novas estruturas sócio-econômicas capazes de tornar possível a realização dos desejos humanos, mais os desajustamentos da coesão social provocados pelas idas e vindas do mercado, tem provocado no homo urbanus moderno uma profunda busca de sentido e de comunidade. Se até a metade do século XX desenvolveu-se um desencantamento do mundo, com a religião, de modo geral, perdendo espaço e capacidade de sedução para os humanos, cada vez mais urbanizados, agora, parece que vivemos esta situação de forma oposta. Segundo o sociólogo argentino Néstor G. Canclini, este desejo de sentido e de pertença comunitária não encontra mais a sua referência nas entidades macro-sociais como a nação, a classe ou a grande instituição religiosa, mas se dirige a pequenos grupos religiosos, conglomerados esportivos, grupos de solidariedade generacional, e grupos de aderências a programas televisivos. O que caracteriza esses grupos identitários atomizados é que se congregam ao redor de consumos simbólicos e não em relação a processos produtivos. Em nosso continente observa Canclini, nossas sociedades estão cada vez menos referidas a idéias de territorialidade, língua ou unidade política. Em vez disso, fragmentam-se se aglutinando como comunidades interpretativas de consumidores. Essas se caracterizam por serem um conjunto de pessoas que compartilham preferências e interpretações comuns a respeito de certos bens, que podem ser, gastronômicos, esportivos, musicais,religiosos, etc (exemplos: a congregação batista x, a comunidade do santo Daime, a comunidade de base de tal lugar, a turma da feijoada, o clube do papo, o clube do Jeep, o baile funk, a turma do chorinho, o clube dos jogadores de bocha, o clube do whisky, o pessoal da telenovela! etc, etc). Isto quer dizer que o consumo não está relacionado apenas ao fenômeno irracional do desejo mas também manifesta uma racionalidade sócio-política interativa: também é um meio para enviar e receber mensagens simbólicas que nos diferenciam e nos relacionam uns com os outros.( Cf. Canclini, N.G., Consumidores e Cidadãos, Rio de Janeiro, UFRJ, 2001, pg. 282 e ss.)

As comunidades eclesiásticas contemporâneas correm o sério risco de passarem a fazer parte dessa dinâmica que bem responde a uma necessidade sentida pelas pessoas, presas pela compulsão do consumismo, mascaram os reais problemas e escamoteiam os devidos encaminhamentos de soluções verdadeiras.

Observamos que muitas igrejas,infelizmente, sem capacidade crítica acerca do que ocorre na sociedade, acabam adocicando a mensagem do Reino para torná-la compatível com as necessidades de significação sentidas pelas pessoas. Em lugar de lançarem as críticas do Evangelho às verdadeiras causas que provocam essa situação, contentam-se em apresentar Jesus como um ídolo capaz de remediar as dores individuais, independentemente da mudança do quadro social em que se encontram inseridas. Remediam, ilusoriamente, a situação pontual de sofrimento, não procuram transformar a realidade para eliminar as causas reais que produzem.

Conclusão: O reencantamento de uma proposta

A situação que enfrentamos, hoje, pede da comunidade dos seguidores de Jesus uma atitude mais corajosa e criativa. Atitude esta que só pode torna-se realidade se nos desprendermos das ataduras ideológicas com que a sociedade burguesa nos prende e cativa, e nos entregarmos ao exercício da liberdade ?com que Cristo nos libertou?. Temos que abandonar toda contemporização e acomodação ao tempo presente e buscarmos, na longa e histórica tradição acumulada pelo cristianismo, os exemplos e as pistas que o Espírito de Deus tem deixado para nossa reorientação para o futuro.


É no meio dessa trama complexa de comunidade de consumidores de bens materiais e espirituais, identidades diversas, monoteísmo do deus-mercado, globalização imposta e de mão única, que a comunidade dos seguidores de Jesus tem que definir os traços de seu rosto. E isso ela precisa fazer, não apenas para seu próprio benefício, mas para poder servir ao mundo, isto é, servir à cidade dos humanos.

Se a globalização, ou a mundialização, como dizem os franceses, não é uma mera homogeneização, mas um processo de fracionamento e recomposição continuada das partes, como deve a comunidade dos seguidores de Jesus entender o seu lugar e papel nessa contínua mutação sócio-cultural? Como pode a Igreja preservar a sua autenticidade como comunidade, não de consumidores de bens religiosos, mas de continuadores da obra humanizadora de Jesus? O que lhe é especificamente próprio que ela não pode e não deve tratar como mais um objeto de consumo? Do que ela pode lançar mão para se renovar, e que não passa pelo controle e nem pela manipulação das pessoas, mas, antes, restaura a rica cultura de nosso sofrido povo e a dignidade humana tão em baixa nestes tempos e templos globalizados?

Entendo que temos de recuperar o aspecto simbólico-sacramental da existência da Igreja como prática comunitária, oferecendo um testemunho válido e profundo de uma comunidade que vive da esperança do Reino de Deus, isto é, de que um novo mundo é possível porque Jesus morreu e ressuscitou cravando no horizonte da humanidade o sinal da cruz, o qual nos diz que o indivíduo isolado h não é a medida nem o centro da vida, mas que Deus se manifesta a cada um e a cada uma no rosto do outro que conosco compartilha a aventura prodigiosa da vida para que a nossa humanidade se realize.

A Igreja é um espaço mas também uma proposta de uma prática intensa de comunhão que reúne, que junta os humanos num único projeto de vida ou não é a igreja dos seguidores de Jesus, mas apenas mais uma comunidade de consumidores de bens religiosos como outra qualquer. Se não há verdadeira interação entre os seus membros é porque o Espírito não foi discernido. E se o Espírito não é discernido o amor não acontece, e se o amor não reina Jesus é de novo crucificado.

Estamos todos unidos e temos tudo em comum? Há solidariedade ativa entre nós? Somos inclusivistas ou, para usar palavras bíblicas, não fazemos acepção de pessoas, mesmo?


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Quarta apresentação:

?Quem não é contra nós está a nosso favor?
(Mc 9.40)

(ou... a comunidade cristã como espaço de diálogo e
comunhão com o diferente.)

Caminhos

Quem poderia aprisionar o vento
ou o silêncio que dorme
na alma da pedra?

Quem poderia aprisionar a lenta luz
pousada sobre o lago
ou a tarde que esconde e revela
o segredo das antigas montanhas?

Quem poderia aprisionar
o sabor fugaz
de uma fruta
ou o vôo cheio de mistério
da palavra liberdade?

Não têm dono os caminhos
que levam ao infinito:
desde o azul rubro do mar
até a última estrela
o homem é apenas andarilho.
Em cada um o sopro divino . (Roseana Murray)


Introdução

O Deus de Jesus, que ele apresentou aos seus contemporâneos de então, e a nós hoje, pelos registros dos evangelistas, por meio da metáfora da figura do Pai cheio de ternura, misericórdia e compaixão é o Deus de todos e de tudo que existe. Embora pensemos e, quem sabe, estejamos mesmo convencidos de que o nosso Deus é o Deus de Jesus e, portanto, o Deus de tudo e de todos, faríamos bem em interrogar-nos acerca desta afirmação, pondo em dúvida a sua veracidade. Porque o que a gente observa na prática é que, quase sempre o nosso Deus, não é o deus do outro. Insistimos em afirmar, por razões culturais, sociais e até psicológicas, que o nosso Deus, ( quase sempre, o meu deus!) é diferente, é melhor, é mais verdadeiro; que a nossa religiosidade, a nossa fé é mais cristalina, que a fé do outro está eivada de supertições, e assim por diante.

Quero permitir-me a leitura de um texto do jornalista e escritor espanhol, Juan Arias, onde nos conta um episódio vivenciado por ele quando acompanhava o Papa Paulo VI em sua viagem à longínqua e exótica ilha de Samoa, no sul do Oceano Pacífico. Nesse acontecimento, fica muito bem evidenciado o fato de que Deus, ao contrário de nossa vã suposição, nem sempre, ou quase sempre não é o Deus de todos, mas apenas de alguns de nós.

? Que Deus seja patrimônio de poucos e que seja necessário protegê-lo com chave para não se poder roubá-lo daqueles que o têm como sua propriedade, entenderam muito, na longínqua e bonita ilha de Samoa. Na parte independente da ilha, governada por um Rei, , aterrissou, nos anos 60, nada menos que um Papa vindo de Roma: Paulo VI. De Pango Pango até aquele lugar da ilha, e acompanhado por um punhado de jornalistas escolhidos ao acaso entre os que trouxera em seu avião, naquela viagem pelo mundo asiático, o Papa voou num minúsculo avião pilotado por um jovem e louro comandante americano que nunca havia estado numa ilha igual. O avião aterrissou num descampado. Haviam cortado palmeiras para aumentar a pista. O Rei o esperava com um bastão na mão, como cetro, junto aos membros do Parlamento, ataviados com uma saia de casca de árvore e peito descoberto, junto com os habitantes de um povoado de cabanas de palha, abertas, porque não se conhecia ali o que significava roubar. Ou melhor, só souberam quando, um dia, chegaram uns missionários europeus para levar-lhes a fé e para isso construíram um edifício de pedra e madeira, com portas e chaves. A chave era para trancar Deus no Sacrário e para que ninguém pudesse roubar as hóstias consagradas. E servia também para fechar a porta da igrejas para que ninguém pudesse apoderar-se dos objetos sagrados. Assim foi explicado aos indígenas do lugar, quando perguntavam para que se trancavam as portas. Eles nunca tinham visto uma chave em sua vida. Ali, ninguém, nos diziam, se apoderava das coisas alheias. Também não tinham moeda e faziam suas trocas com os produtos da terra, da caça ou da pesca.
Curiosamente aprenderam o que era roubo, o que significava a defesa da propriedade privada, quando lhes chegou o anúncio da fé. Assim nos contou o único que ali falava um pouco de italiano porque o bispo o tinha enviado, por um ano, à Universidade de Peruggia, na Itália, para estudar.
E nos contou também que, quando Paulo VI inteirou-se daquela história, negou-se a celebrar a Missa dentro daquela igreja. Rezou a Missa numa explanada na frente da igreja, com as pessoas sentadas no chão. E aconteceu um fato engraçado durante a celebração da Missa, naquele lugar super exótico que era um povoado de índios onde o sério Papa Montini havia chegado numa espécie de carreta, toda ela revestida de magnifícas orquídeas que ali cresciam por todos os caminhos. No momento do ofertório, ouviu-se chegar do bosque, uma comitiva de homens seminus, que traziam algo nos ombros. Pensou-se que poderia tratar-se de objetos de artesanato para oferecer ao Papa durante a oferenda da Missa, como acontecia em outros lugares. Não, era algo mais substancial. Notamos, em seguida, pelo cheiro: era um gigantesco porco assado com ervas aromáticas, que foi colocado no chão, a dois passos do altar, no meio das pessoas que assistiam à cerimônia. Paulo VI, que já havia levantado a mão para abençoar as oferendas que chegavam, ao ver o focinho do enorme porco assado, ficou com a benção congelada no ar.
Contaram-me, mais tarde, que o intelectual Papa Montini, o Papa da dúvida, com aquela história de uns cristãos recém-batizados que descobrem o que é roubar através da Eucaristia trancada à chave, dentro da igreja, para que ninguém se apoderasse dela, ficou muito impressionado e contou a história para os seus colaboradores mais íntimos.
É que se considera natural que Deus seja propriedade de seus mediadores, das igrejas que o têm como patrimônio de alguns privilegiados. Deus nunca foi o Deus de todos. As igrejas nunca aceitaram de boa vontade essa verdade fundamental: qualquer Deus, se é Deus, tem que ser como a luz, a comida e o consolo para todos os seres criados, sem distinção. Nem sequer só para os humanos. Mas para todos, animais e coisas incluídos. Recuperar a idéia de um Deus universal será fundamental para a fé do século XXI." (Arias, Juan, Um Deus para 2000 - contra o medo e a favor da felicidade, Petrópolis, Vozes, 1999, pgs. 101-103 ).


I ? A ação de Deus e as barreiras culturais


Nós só podemos pensar na idéia de um Deus universal, na medida em que levamos em conta a insuficiência e os limites que nos são próprios e nos impedem de aprendê-lo, compreendê-lo, defini-lo e abarcá-lo, no interior de nossas estruturas de entendimento. O Deus universal, de todos e de cada um, criador e sustentador da vida, que a nada está condicionado, mas que a tudo condiciona, ?em quem nós existimos, vivemos e nos movemos? como escreveu o apóstolo Paulo, extrapola e supera nossa cultura, nossa história e os modos de linguagem com que tratamos de expressá-lo. Como pontua, com clareza meridiana, R. Garandy: ?Deus não é apenas o que diz nossa tradição judaico-grega. Ele é o Deus de toda a história, o germe da história de todos os continentes, a alma de todos os esforços dos homens ? de todos os homens ? para descobrir e realizar o sentido da vida. Somente essa universalidade, essa verdadeira universalidade, essa abertura para o outro, esse ouvir o outro, tornam possível a revelação do Deus que é nele. Pois também é no outro que descobrimos Deus. Não somente em nós, na língua de nossa cultura parcial. Deus, o mesmo Deus, o único Deus,, viveu a partir de outras experiências que devem deixar de ser estranhas para nós." (Garaudy, R., op.cit. pg. 128)

Para que possamos fazer esta experiência da descoberta do Deus que está para além de nossa forma cultural de existir, precisamos aprender a ouvir e a ser com o outro. É neste sentido que Jesus insistia, com os seus discípulos em particular e com os seus ouvintes, em geral, quando procurava mostrar que o Deus misericordioso e compassivo, que ele proclamava, faz parte da experiência de todos os humanos. Está presente na vida de todos como Pai e Mãe amorosos, assim como estava presente nele. Ou seja, o que Jesus procura nos ensinar é que Deus, que ultrapassa todas as nossas limitações e parcialidades, está presente no mundo todo e em todo o mundo. Daí a advertência de Paulo de que ?Deus não faz acepção de pessoas?. Assim, discernir o Espírito implica no reconhecimento do outro, meu semelhante, culturalmente distinto de mim, naquilo que o caracteriza como diferente. É isto que a herança bíblica, que se diz albergar no interior de nossas estruturas eclesiásticas, nos ensina. Trata-se, na verdade, do esforço constante de busca de novas relações humanas fundadas no primado da liberdade e da justiça plena em todos os níveis de nossa experiência de vida.

Nossa tradição protestante, que arranca do grito por liberdade, dos reformadores do século XVI para cá, assenta sua concepção eclesiológica na movimentação do Espírito no interior da criação para suscitar a submissão de tudo e de todos, pelos diferenciados caminhos culturais trilhados pela humanidade à vontade salvífica e soberana de Deus. Na prática de Jesus desponta uma nova nova hermenêutica, onde o elemento central se constitui na afirmação do direito inalienável do outro ser e permanecer o outro que ele ou ela é.

Nas muitas parábolas, e nos inúmeros encontros de Jesus com as mais diferentes pessoas, sobressai o convite à e o convívio com aqueles e aquelas que são estranhos ao seu contexto racial, social e cultural-religioso, com destaque para o reconhecimento e a aceitação destas diferenças. E isso só é possível porque o Espírito está nele e lhe permite reconhecer a limitação etnocêntrica e sócio-política de auto-afirmação da tradição cultural-religiosa a que ele pertencia. Como assinala com clareza J. Comblin: ?O Espírito Santo não mantém os seres humanos isolados em si próprios, mas abre-os para uma comunhão universal que tem seu centro em Jesus. Por sua vez, Jesus não age sobre os outros homens (e mulheres) simplesmente por meios humanos, o que produziria uniformidade, submissão, renúncia ao próprio de cada um. Jesus reúne a humanidade segundo o modo de agir do Espírito, isto é, a partir da própria realidade de cada um, de cada indivíduo e de cada coletividade humana?. (Comblin, J., op.cit. pg. 180 )

É esta a concepção fundamental que informa a prática de Jesus. Por isso, ele não podia concordar com o exclusivismo dos discípulos, no texto que nos serve de referência, mas inclui no seu ministério aquele homem que, por outros meios, outras palavras, outras práticas culturais, curava em seu nome. A comunidade de seus seguidores está, portanto, chamada a se envolver nesta mesma prática inclusivista, fundamentalmente dialógica, e de humilde reconhecimento de que, a soberana graça de Deus se derrama sobre os humanos, por meio de formas e caminhos que, nós, prisioneiros de nossas limitações culturais, jamais suspeitaríamos.


II ? Para Deus não há diferentes


Um Deus que não julga, que não examina ninguém antes de amá-lo, que não condena depois de conhecer seus erros, nem o castiga por suas fraquezas, mas que aceita este alguém como ele ou ela é, sem querer que mude, que não exige fidelidades impossíveis, é um Deus sempre temido pelas instituições religiosas, Isto acontece porque as instituições religiosas sabem que um Deus compassivo, enamorado de suas criaturas, devolve a elas o gosto da liberdade e o gozo dos sentidos. E as instituições, quase sempre, subsistem com maior facilidade na medida em que trabalham com o mecanismo do valor do sacrifício, de modo a prender as consciências na camisa de força do sentimento de culpa! Mas nós sabemos, hoje, depois de muita amargura e sofrimento, que só o amor, definitivamente, resgata a essência humano/divina dos homens e mulheres. Nunca o sofrimento e a dor.

Na medida em que Deus é percebido e assumido como Deus da liberdade, da compaixão, da misericórdia; que nos aceita como somos, sem condicionantes de qualquer tipo, nos ensina que ele/ela é o Deus da diversidade, da pluralidade, portanto, é o Deus que afirma que todos somos iguais. Quem estabelece diferenças são os humanos em seu afã de auto-afirmação, quando inferiorizam os outros para se projetarem como indivíduos, grupos ou coletividades sobre os demais. É aqui que encontramos as raízes profundas do racismo, dos pré-conceitos de classe, das afirmações dogmáticas, de todas as insuportáveis intolerâncias! Geralmente nos sentimos mal com o diferente, por isso o inferiorizamos e o colocamos fora da comunidade dos que se consideram os úncos eleitos, ou, os únicos normais!

Esta atitude rompe com a visão de Deus, que Jesus insiste em nos apresentar. Para o Pai generoso, os filhos e as filhas são destinatários de seu amor e cuidado. São diferentes, sim, pois não são clones, mas são iguais porque são objetos de um mesmo amor e cuidado. Como assinala Juan Arias ?Deus só pode ser a expressão da máxima pluralidade, da diversidade, do complexo, capaz de abarcar todas as diversidades, todos os contrários, tudo o que a ordem despreza. Definitivamente, tudo o que é original, criativo, novo, o que nasce a cada instante, o que fermenta continuamente, o que é sempre igual mas sempre distinto, porque a vida não é estática mas dinâmica. Um Deus exclusivo para os iguais, para os clones, os moldados pelo poder e pelo medo, seria um Deus anódino e até chato. O divino tem que ser a explosão de todas as forças vitais onde tudo cabe e onde até o mais diverso encontra o seu lugar, com todo o direito?. (Arias, J., op.cit., pg. 107 ). Foi isso que Jesus quis significar quando deu aquela resposta a João.


III ? Diálogo e inclusão do diferente


O grande e perseguido teólogo e filósofo católico-romano, Hans Küng tem, repetidamente, declarado que o mundo só terá paz quando houver paz entre as religiões. Junto com ele se destaca, no mundo protestante, o teólogo presbiteriano escocês John Hick, ao lado de muitos outros que vem afirmando, há algum tempo, que o século XXI será marcado na história como o século do diálogo inter-religioso.

Esse diálogo, que pouco a pouco vai vencendo preconceitos e superando resistências, só se torna possível, na medida em que cada comunidade religiosa, vai tomando consciência de que, se Deus é transcendente, sem nenhuma semelhança com nossos pensamentos e linguagens, nenhum humano pode ter a pretensão de encerrá-lo em suas definições, ritos ou dogmas.

Tentar fazer isso é uma manifestação de ?auto-suficiência? e arrogância. O contrário da transcendência. Pois, ?Deus é mais? como costumam dizer os baianos, do fundo de sua sabedoria popular.

Em toda a literatura sagrada da humanidade, Deus é sempre referido por metáforas, por parábolas, utilizando-se de experiências humanas para sugerir, assinalar, indicar aquilo que transcende a toda experiência e toda conceituação. Em todas as religiões, especialmente, nas reveladas, os humanos só conseguem expressar o que Deus não é. Ou seja, só se pode falar de Deus de forma apofática, isto é, por meio de uma teologia negativa. Assim, a experiência de Deus só pode ser minimamente expressa através do poema, da poesia, dos símbolos.

O diálogo entre as religiões só se torna possível na medida em que nos revestimos, como Jesus, da consciência humilde de que algo nos falta, e sempre faltará a nossa fé, para aprendermos o divino nos limites de nossa incompletude.
Hoje, esse diálogo é fundamental para o bem maior da humanidade. Somos desafiados a nos constituir como comunidades dialogantes e integradoras dos que, aos nossos olhos e corações, (mas não aos olhos e coração do Deus de Jesus) se nos parecem diferentes e, muitas vezes, contrários.
 
 
 
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