Os Filósofos e a Busca da Transcendência

ImageA Filosofia surgiu na Grécia, porque os gregos souberam investigar a realidade com os recursos da razão. Na Babilônia e no Egito era diferente. Eram sociedades controladas pelos sacerdotes, os quais ? por sua vez ? proporcionavam o suporte ideológico do poder. Nessas sociedades, o sobrenatural invadia o cotidiano em seus detalhes, a ponto de se desenvolver muito mais a superstição e a magia do que o exercício do livre pensar.

Foi exatamente o livre pensar que caracterizou o surgimento da Filosofia. Sem a tutela dos sacerdotes, os gregos passaram a se ocupar mais com a explicação dos fenômenos do que com as crenças mitológicas. As respostas fornecidas pelos mitos não estavam mais satisfazendo algumas mentes mais exigentes. E observaram que existem leis de causa e efeito. ?Pela primeira vez na história, respostas sobre o funcionamento do mundo natural foram buscadas na própria natureza e não por meio das ações sobrenaturais de diversos deuses. Assim nasceu a ciência? (Marcelo Gleiser, A música das pequenas e grandes esferas, Folha de S. Paulo).
A Filosofia nasceu junto com a ciência. Nesse contexto de investigação, os primeiros filósofos se destacaram na cidade de Mileto, na Jônia. Eles constataram que a realidade toda está impregnada de energia. E concluíram que as forças, que dinamizam a natureza, são dotadas de inteligência e espiritualidade. A natureza está impregnada de um princípio inteligente: o Logos (fundamento do ser). Observemos que ? distanciados da tutela dos sacerdotes e exercitando o livre pensar num contexto em que nasceu a ciência ? desde o início os filósofos se mostraram abertos à transcendência. ?A Filosofia levanta a pergunta mais importante capaz de ser feita que é a pergunta sobre o significado do ser. O filósofo olha a totalidade da realidade para descobrir dentro dela a estrutura da realidade como um todo. Razão ontológica pode ser definida como a estrutura da mente capaz de compreender e estruturar a realidade. A Filosofia lida com a estrutura do ser em si mesma; a Teologia lida com o sentido do ser para nós? (Paul Tillich, Teologia Sistemática).

Desde cedo, os filósofos compreenderam que a natureza ? que nós temos diante dos olhos ? não fornece todas as respostas pelo sentido último de toda a realidade. O nosso ser é determinado pela nossa preocupação última. O ser humano possui a ?capacidade de perguntar pelo infinito ao qual ele pertence: o fato de que o homem deve perguntar por ele indica que se encontra separado do mesmo?, constata Tillich.

Tales (624-547aC) de Mileto, considerado o primeiro dos sete sábios da Grécia, observou que o cosmos é Um. E ensinou que a inteligência do cosmos é Deus.
Anaximandro (610-547aC) também era de Mileto. Discípulo e sucessor de Tales, legou-nos este fragmento: Todas as coisas se dissipam onde tiveram a sua gênese, conforme a necessidade; pois pagam umas às outras castigo e expiação pela injustiça, conforme a determinação do tempo. O Ilimitado é eterno. O Ilimitado é imortal e indissolúvel.
Anaxímenes (585-525aC) de Mileto escreveu: Como nossa alma, que é ar, nos governa e sustém, assim também o sopro e o ar abraçam todo o cosmos.

Diógenes de Apolônia é o último expoente da Escola Jônica. Enfatizou a presença do ar em toda a realidade e escreveu: Pois é este precisamente que tomo por Deus, que atinge tudo, dispõe de tudo e está em tudo. E nada há que dele não participe.

Heráclito (540-480aC) de Éfeso ensinou que a mudança constante é a lei do Universo. Tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia. Só uma coisa é sábia: conhecer o Pensamento que governa tudo através de tudo. A harmonia invisível é mais forte que a visível. Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, abundância e fome. O homem é infantil frente à Divindade, assim como a criança frente ao homem. Mesmo percorrendo todos os caminhos, jamais encontrarás os limites da alma, tão profundo é o seu Logos. Heráclito é o criador da doutrina do Logos. Ele foi o primeiro a empregar o conceito Logos para se referir à lei universal da realidade. Mais tarde, o evangelista João declarou que o Logos é Jesus Cristo.

Pitágoras (571-497aC) observou que todas as partes do Universo estão unidas entre si e expressam-se em números. O Universo evolui harmoniosamente. A alma individual é uma parte da alma universal, que é imortal. Pitágoras também descobriu a relação que existe entre a harmonia dos sons e a longitude das cordas vibrantes.
Filolau expôs em um livro a doutrina pitagórica. O Um é o princípio de tudo.

Xenófanes (577-460aC) foi o fundador da Escola Eleata e veio a ser o primeiro crítico da religião, observando que cada povo projeta seus deuses de acordo com seus desejos. Um único Deus, o maior entre deuses e homens, nem na figura nem no pensamento semelhante aos mortais. Todo inteiro vê, todo inteiro entende, todo inteiro ouve. E sem esforço move tudo com a força do seu pensamento.

Parmênides (510-470aC) concluiu que só podemos pensar aquilo que permanece sempre idêntico a si mesmo: o Ser. Ele se opôs de um modo enérgico à questão do não-ser: o nada. Ele não admitia a possibilidade de se deparar com o nada. O Ser existe e mil sinais nos provam que não nasceu nem morrerá jamais. É o Todo, o Universo, o Imóvel, o Indestrutível. Não era e não será, porque é. É o Ser Universal, unido e contínuo. Também não é divisível, pois é completamente idêntico.

A partir de então o debate filosófico dos pré-socráticos situa-se entre o vir-a-ser (Heráclito) e o Ser (Parmênides). Heráclito afirmou que tudo flui e somente a mudança é real. Parmênides salientou que as mudanças são superficiais. Nossos sentidos nos levam a imaginar mudanças, mas o raciocínio percebe algo que realmente persiste. Em seu último livro, C. G. Jung conseguiu captar o pensamento dos dois, quando declara: ?nunca perdi o sentimento da perenidade da vida sob a eterna mudança? (Memórias, Sonhos e Realizações, p. 20).

Anaxagóras (500-428aC) foi o primeiro a declarar que a realidade é movimentada por uma Mente Suprema: o Pensamento. Todas as coisas participam de todas as coisas; o Espírito, contudo, é ilimitado e autônomo, com nada misturado, mas só, por si e para si. E se isto é assim, devemos supor que todas as coisas estão no Todo.

Empédocles (nasceu em 443 aC) declarou que todos os organismos são formados por quatro elementos: a terra, o ar, a água e o fogo. E há dois princípios dinâmicos: o amor causa união, e o ódio provoca a separação. E no Todo, nada há de vazio ou de supérfluo. Ás vezes, do múltiplo cresce o Uno para um único Ser; outras, ao contrário, divide-se o Uno na multiplicidade: fogo e água e terra e ar- a infinita altura; e separado deles, o ódio funesto, forte em toda parte, e o Amor entre eles, igual em comprimento e largura.

Leucipo introduziu a noção de átomos. Em grego, átomo significa indivisível. Ele deve ter observado o pó das marmorarias, constatando que se havia chegada à parte indivisível da matéria. Nada deriva do acaso, mas tudo de uma razão e sob a necessidade.

Demócrito (460-370aC) desenvolveu as teorias de Leucipo e liderou a Escola Atomista. Quem procura o bem, atinge-o só com dificuldades; o mal, contudo, atinge mesmo aquele que não o procura. Os homens fizeram do acaso uma imagem para a sua própria imprudência. Pois somente em casos excepcionais o acaso combate a imprudência: em geral, na vida, a perspicácia sensata põe-nos no caminho reto. Sábio é quem não se aflige com o que lhe falta e se alegra com o que possui. Convém ao homem dar maior atenção à alma do que ao corpo. Pois a excelência da alma corrige a fraqueza do corpo; a força do corpo, contudo, sem a razão, é incapaz de melhorar a alma.

Sócrates (469-399aC) estava convencido de que existem valores absolutos, e estes nos são proporcionados pela razão. Com seus interlocutores empregava a ironia e a maiêutica. Com a ironia, desmontava um pretenso saber. Mediante a maiêutica (a técnica da parteira) fazia nascer o saber a partir de dentro do indivíduo. [A criança só deixa de brincar com o martelo, quando ela descobre por si mesma que o brinquedo é inadequado.] Sócrates repetia: Conhece-te a ti mesmo. O filósofo dizia-se dirigido por um daimónion: um espírito orientador.

Platão (427-347aC) ensinou que esta realidade é uma cópia do mundo ideal. A alma contemplou as Idéias e agora, aprisionada no corpo, deseja retornar. Ela precisa relembrar o que contemplou no mundo das essências. Em Platão ficou evidente o contraste entre essência e existência. Há dois processos de pensamento para se compreender a existência de Deus. A via física para Deus parte do movimento. Todo movimento ou é por si mesmo, ou por outro. O movimento do Universo pressupõe uma fonte ? com capacidade de auto-movimento. A via dialética para Deus é a ascensão do pensamento em direção ao Absoluto. Cada pessoa concordou previamente com o seu destino aqui na Terra. Nós mesmos fazemos o que somos. A justiça de Deus atua também na eternidade.

Aristóteles (384-322aC) formulou as provas da existência de Deus. A prova do movimento é uma variação da via física para Deus (enunciada por Platão). O movimento se explica de duas maneiras: ou o organismo é movido por outro, ou nos deparamos com um que se move sozinho: o Primeiro Motor Imóvel. Trata-se de um ser necessário e existente por si mesmo. A Causa Primeira de todo existente é Deus. Quanto à natureza de Deus, ele é Ser, Espírito e Vida. Aristóteles salientou que a realidade toda deseja se unir ao Absoluto, pois este move todas as coisas por amor. Uma vida feliz resulta da perfeição de Deus.

Epicuro (342-271aC) preocupou-se com a justiça divina (teodicéia) perante o mal no mundo. Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto nem sequer é Deus. Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males? Por que razão é que não os impede? Epicuro também afirmou que ímpio não é aquele que nega os deuses vulgares, senão quem atribui aos deuses qualidades vulgares. O filósofo conseguia libertar seus seguidores da angústia.

Epiteto (50-125) havia sido escravo e foi liberto. Viveu e ensinou em Roma até o ano 90, quando Domiciano exilou todos os filósofos. Epiteto retirou-se para o Nicópolis, no Egito, onde escreveu e ensinou. Legou-nos este pensamento: Tenho como melhor o que Deus quer, e não aquilo que eu quero; a ele hei de entregar-me como servo e seguidor; à uma ir com ele, no pensar e no desejar.

Entre os estóicos, destacou-se o imperador romano Marco Aurélio (121-180). Tudo me convém, se a ti convém, ó Cosmos; nada advém a mim nem demasiado tarde nem demasiado cedo.

Plotino (204-269) é o fundador do Neoplatonismo. Deus é o Uno. Deus também é o Bem absoluto. Plotino explica todo o processo da realidade a partir da emanação. A Unidade é Tudo. Tudo procede dela. O Ser Perfeito é o princípio da emanação. O primeiro ser que emana da Unidade é o Espírito. O ser humano possui em si um centro divino. O último degrau da emanação é a matéria.

A vida de Agostinho (354-430) teve uma alternância de fases bastante distintas, oscilando entre o ceticismo e o caminho místico do neoplatonismo. Em sua fase de ceticismo, Agostinho se tornou um precursor de Descartes, pois concluiu que mesmo que duvidemos de tudo, não podemos duvidar de nossa própria dúvida. A partir de então, a verdade perdida no mundo exterior é reencontrada na dimensão interior. A alma é o lugar onde Deus se manifesta ao ser humano. Desejo conhecer Deus e a alma. Nada mais? Absolutamente nada mais. Agostinho descobre a presença imediata de Deus na alma. Tu eras mais íntimo a mim que o meu próprio interior. Na alma existe algo imutável que a transcende, que é o fundamento divino. Agostinho transferiu as Idéias [da filosofia de Platão] para a mente de Deus. As Idéias passam a existir em Deus. Tarde te amei, ó beleza, ó velha e nova beleza, tarde te amei: e vê, tu estavas no meu íntimo e eu fora, a procurar por ti. Agostinho não aderiu à idéia da emanação do mundo a partir de Deus, mas formulou com clareza a doutrina da criação a partir do nada. Tudo o que em Deus é, não é senão Ser. Os outros seres só podem existir mediante a participação do Ser divino. De fato, quando se pensa naquele Deus único [...], ele é pensado como algo acima do qual nada vejo melhor e acima do qual nada de mais sublime aquele pensamento possa se esforçar para atingir. Deus é a experiência do incondicional. Devemos, na medida do possível, pensar Deus como bom, mas sem entrar na categoria da qualidade; grande, mas sem a quantidade; criador, sem indigências; superior a todas as coisas, sem situação local; abrangendo-as todas, sem as cingir; onipresente, sem lugar; eterno, sem tempo; criador do mundo mutável, sem sofrer ele próprio mudança alguma, e sem sobra de passividade.

Severino Boécio (480-524) observou que o tempo não se apresenta para Deus do mesmo modo como para os seres humanos. Enquanto o ser humano só consegue compreender o tempo na sucessão de passado, presente e futuro, Deus vê tudo no agora intemporal de sua eternidade. Quanto mais o ser humano se distancia de Deus, tanto mais se deixa arrastar pelo destino, que então o subjuga. Vivendo em comunhão com Deus, a pessoa se subtrai ao destino e à sua necessidade e vive na dimensão da Providência divina. A Providência é aquele plano divino, existente na mente do Senhor do mundo, que tudo ordena.

Anselmo de Aosta (1033-1109) formulou o Argumento Ontológico da existência de Deus. É a demonstração da existência de Deus a partir da idéia que temos dele em nosso ser. A ontologia se ocupa dos princípios do ser sem recorrer à experiência. Amar, crer, confiar, apreciar a arte são questões ontológicas (pertinentes ao nosso ser). Não recorrendo à experiência, o argumento ontológico é a priori. Agradeço-te, bom Senhor, agradeço-te, porque naquilo em que cri pelo teu dom, agora compreendi pela tua iluminação, de tal modo que mesmo se não quisesse crer que existes, não poderia não compreendê-lo. Portanto, Senhor, tu és não somente aquilo que não se pode pensar nada de maior, mas tu és muito maior de quanto possa ser pensado. Deus é o Ser perfeitíssimo. Na perfeição de Deus já está incluída sua existência.

Boaventura (1217-1274) desenvolveu o argumento de Anselmo e concluiu que não podemos pensar nada maior do que Deus. Não se pode pensar que ele não exista. Deus é verdadeiro e é maior do que aquilo que se possar pensar que não exista. Se limitarmos Deus com o nosso pensamento, então não pensaremos mais aquilo de que não se pode pensar nada de maior. A existência de Deus é verdade ?primeira e imediatíssima?.

John Duns Scot (1266-1308) subordinou o argumento de Anselmo ao princípio da não-contradição. Deus, se pensado sem contradição, é aquele de que não se pode pensar nada de maior sem contradição. Observemos o raciocínio de Duns Scot: fadas, duendes e bicho-papão podem ser pensados, mas o pensamento entra em contradição. Mas, Deus pode ser pensado sem contradição e, portanto, não se pode pensar nada de maior.

Tomás de Aquino (1221-1274) salientou que as verdades da razão e da revelação são distintas, mas não são opostas. Desenvolveu o Argumento Cosmológico da existência de Deus. Nós só podemos conhecer Deus através dos efeitos de seu agir. Nosso intelecto é incapaz de conhecer a Deus como ele é em si mesmo. O Argumento Cosmológico parte do mundo em direção a Deus. A partir da observação do Universo descobrimos a necessidade lógica da existência do Ser superior. A existência de Deus é demonstrada a posteriori. Aquino desenvolveu as cinco vias do Argumento Cosmológico. 1) Nada se move sozinho, e o movimento exige uma causa. Existe um Primeiro Motor Imóvel. 2) Nada pode ser causa de si mesmo. Devemos chegar a uma Causa Primeira. 3) Tudo no mundo é contingente (podendo existir ou não). Mas, deve existir uma Causa Necessária, que necessariamente existe. 4) Deparamo-nos com seres finitos e imperfeitos. Ora, o finito se explica pelo Infinito. E o imperfeito se explica pelo Perfeito. Logo, existe o Ser Infinito e Perfeito. 5) Há ordem e finalidade no universo. Há propósitos na natureza e no ser humano. Logo, deve haver uma finalidade.

Mestre Ekhart (1260-1327) tornou-se um expoente da mística, salientando a conformidade entre o nosso pensamento e a vontade de Deus. Assim, a alma se torna uma divina morada da eterna Divindade. Nossa vida percorre um rio, que a reconduz ao oceano da Divindade, de onde ela outrora derivou. Quando a alma alcança esse objetivo, ela se torna igual a Deus.

Jakob Böhme (1575-1624) também enfatizou que o objetivo mais elevado é a dissolução total da alma em sua origem divina. Ressaltou que o bem e o mal se condicionam mutuamente como dois pólos em uma só realidade. Tudo no mundo tem o seu contrário para poder existir.

Giordano Bruno (1548-1600) refutou a concepção aristotélica de um universo finito. O universo é infinito, pois resulta da infinitude de Deus. A Alma Universal é o princípio de todos os seres individuais. O ser humano é um instrumento consciente da Divindade.

Descartes (1596-1650) é o Pai da Filosofia Moderna. Seu nome latino é Cartesius. Durante 14 séculos a Igreja havia mantido o geocentrismo. Galileu provou o equívoco do sistema geocêntrico, mas a Inquisição o obrigou a se retratar. A matemática havia se tornado o modelo e a linguagem de todo o conhecimento científico. Nesse contexto, Descartes passou a duvidar de toda realidade externa, da existência de Deus e de suas próprias idéias. Adotou a dúvida metódica (que é diferente da dúvida cética). A dúvida metódica rejeita tudo aquilo que não é de uma certeza absoluta, que não se impõe de modo evidente. Mas, duvidar é atividade de pensamento. Mesmo duvidando de tudo, Descartes não podia duvidar de estar pensando. E pelo fato de estar pensando, Descartes constatou que existe. E assim, Descartes descobre a primeira certeza: Penso, logo existo. O fato de pensar nos mostra que temos idéias em nossa mente. Descartes classificou as idéias em: 1) inatas; 2) adquiridas e 3) construídas. Temos em nós a idéia de Deus. Por causa da infinitude e da perfeição de Deus, a idéia a respeito dele não pode derivar nem do exterior, nem de uma construção intelectual. Ela não pode ser adquirida e nem construída. É necessário que exista uma causa que tenha determinado a idéia de Deus em nós. E esta causa deve ser maior do que a idéia causada. O ser humano é finito e não pode ser a causa da idéia de Deus (que é Infinito e Perfeito). A causa deve ter a mesma realidade contida no efeito. Portanto, se o efeito é a idéia de Deus, a causa deverá ser Deus. Logo, a idéia de Deus é inata no ser humano. A origem da idéia de Deus é necessariamente Deus, que existe efetivamente. Descartes descobre assim a segunda certeza: a existência de Deus. É a prova ontológica da existência de Deus. Quando Descartes provou a existência de Deus, toda a realidade readquiriu veracidade. Deus tornou-se a garantia de toda a verdade, pois ele garante a correspondência entre o mundo sensível e o mundo inteligível. Classificando a realidade em modos de pensamento (alma) e modos de extensão (corpo), a filosofia de Descartes realçou o dualismo, despontando o racionalismo e o empirismo.

Pascal (1623-1662) enfatizou três fatores que Descartes não considerou devidamente: o indivíduo e sua percepção (sentir), a fé como único caminho para Deus e a ênfase na situação particular e existencial do indivíduo. O coração tem razões que a própria razão desconhece.

Malebranche (1638-1715) reelaborou o argumento ontológico formulado por Descartes. Foi influenciado também por Agostinho. Ora, estou certo de ver o infinito: portanto, o infinito existe, pois o vejo, e só posso vê-lo em si mesmo. Mas, sendo minha inteligência finita, também é finito o conhecimento que tenho do infinito. Não o contenho, nem o mensuro: antes, estou certíssimo de que jamais o poderei mensurar. Não só não encontro nele um limite, como ainda percebo que ele não tem limites. Em suma, a percepção que tenho do infinito é limitada, mas a realidade objetiva na qual, por assim dizer, a minha mente se perde, não tem nenhum limite. Para mim é impossível duvidar disto agora.

Leibniz (1646-1716) apresentou três formulações para provar a existência de Deus. 1) A série inumerável de seres contingentes exige uma razão que não seja contingente. Deparamo-nos com o Ser necessário, perfeito, infinito, razão e fonte de todas as coisas finitas. 2) Deus é a causa de sua idéia em nós. Leibniz se baseia em Descartes: Deus é a fonte e o fundamento das verdades eternas. A existência de Deus é a causa das idéias de eternidade e de infinito em nós. 3) A idéia do Ser cuja essência implica sua existência é possível, porque ela pode ser pensada sem contradições. A intenção de Leibniz é tornar totalmente lógico o argumento ontológico. A não-existência do Ente necessário é contraditória. O Ente necessário é aquilo cujo contrário é impossível.

Henry More (1614-1687) declarou que se pensamos em Deus, ele só pode ser pensado como existente. O ens perfectum só pode ser existente. A necessidade de sua existência é própria de sua essência como ente perfeito. A existência está implícita à idéia do ente perfeitíssimo.

Ralph Cudworth (1617-1688) argumentou que seria contraditório pensar no ser perfeitíssimo sem pressupor sua existência. A necessidade de sua existência é absoluta. O que existe necessariamente não pode ser contraditório. More e Cudworth pertenceram ao Platonismo de Cambridge.

Samuel Clarke (1675-1729) legou-nos este pensamento: A única verdadeira idéia de um Ser existente, auto-existente e necessário, é a idéia de um Ser, do qual não supor a existência é contradição evidente.

Espinosa (1632-1677) salientou que a realidade deve ser olhada a partir da perspectiva da eternidade. Há uma única e mesma substância constituindo o Universo inteiro. Essa substância é eterna, porque nela existir, ser e agir são uma só e mesma coisa. Essa substância é Deus. Deus é a causa de si mesmo e também causa de todas as coisas. O mundo é eterno, porque exprime a causalidade eterna de Deus. A substância e seus atributos recebem o nome de natura naturans. Deus é idêntico à natureza criativa: Deus sive natura. Os seres humanos são modos finitos de Deus; são parte da natureza infinita de Deus. Os dois atributos de Deus são o pensamento e a extensão. Cada um dos fenômenos é um diferente modus dos atributos. O corpo é um modo finito do atributo extensão. A alma é um modo finito do atributo pensamento. Deus é causa livre, necessária e imanente de todas as coisas. Deus, causa primeira de todas as coisas e também causa de si mesmo, faz-se conhecer por si mesmo. Entendo por Deus um ser absolutamente infinito, isto é, uma substância constituída por uma infinidade de atributos, cada um dos quais expressa uma essência eterna e infinita. Deus, ou seja, a substância constituída de uma infinidade de atributos, cada um dos quais expressa uma essência eterna e infinita, existe necessariamente. Como causa de si, Deus é demonstrado a priori. Só um único Ser é causa completa e absoluta de si mesmo: Deus. Somente Deus pode agir em plena liberdade, pois este Ser eterno e infinito que chamamos Deus ou Natureza, age com a mesma necessidade com que existe.

Os empiristas ingleses diziam que todo conhecimento procede da experiência. A partir desse ponto de vista, a metafísica tornou-se impossível para pensadores como Francis Bacon, Thomas Hobbes, John Locke David Hume. Os empiristas alegavam que nada se pode saber a respeito da existência e natureza de Deus, sobre a origem primeira e destino final da vida humana. Muitos também se declararam deístas. O empirismo é a filosofia característica do povo inglês.

Voltaire (1694-1778) professava o deísmo e combatia a religião organizada. Com a física clássica passou-se a entender o Universo como uma máquina, onde os fenômenos acontecem mediante leis fixas. Existe regularidade e nexo causal. O Deus do mecanicismo criou o Universo, e este agora se mantém sozinho. Não se admitia mais a possibilidade de Deus intervir no mundo. Passou-se a admitir somente aquilo que é acessível ao conhecimento. A religião da razão era considerada a verdadeira; tudo o mais era visto como superstição. O deísmo estava suprimindo a metafísica.

Christian Wolff (1679-1754) formulou duas vias para demonstrar a existência de Deus. No primeiro volume de sua Teologia natural tratada pelo método científico, ele quer provar a existência do ens necessarium. Elabora o conceito do ser necessário a partir da cosmologia. Ele procura um fundamento último do mundo. A partir da realidade contingente, Wolff se defronta com uma causa primeira incausada e necessária. A existência do ente necessário não contém contradições. É o único ente cuja necessidade pode ser pensada sem contradições. No segundo volume o ponto de partida é o argumento de Anselmo: Aquilo a respeito de que não se pode pensar nada de maior. Elabora então a passagem do ente perfeitíssimo para a necessidade de sua existência atualíssima. Dado que Deus é o ente perfeitíssimo e o ente perfeitíssimo contém todas as realidades possíveis em grau absolutamente supremo, Deus contém em grau absolutamente supremo todas as realidades possíveis, porque todas as realidades estão em grau absolutamente supremo em Deus. Entre as perfeições de Deus está também a sua existência.

Alexander Baumgarten (1714-1762) demonstra a existência do ente necessário mediante a cosmologia. A realidade deste mundo exige uma causa primeira incausada. Não é contraditório pensar Deus como ente perfeitíssimo que tem em si a própria existência. É possível pensar na perfeição de sua existência. E é contraditório pensar a não-existência de Deus. Como ente perfeitíssimo, Deus existe necessariamente. A existência de Deus é absolutamente necessária.

Kant (1724-1804) conclui que só é possível demonstrar a priori a existência de Deus. Escreveu O único argumento possível para uma demonstração da existência de Deus, referindo-se ao argumento ontológico entendido como demonstração a priori. Salientou também que toda contingência exige absoluta necessidade do ser perfeitíssimo e do ser necessário. Com sua obra Crítica da Razão Pura, Kant demonstrou o limite do conhecimento humano. Analisou então o conhecimento a partir dos fundamentos da razão prática. Conceitos como alma, totalidade e Deus são postulados da razão prática. Estes três postulados são certezas imediatas, mesmo não sendo demonstráveis. A lei moral postula a existência de Deus. Entre a felicidade e a virtude deve haver uma união definitiva. E só um Ser Superior, justo, santo e onipresente pode realizar essa união para tornar o homem virtuoso eternamente feliz. E assim Kant desenvolve a prova moral da existência de Deus. O Bem supremo ? o Summum bonum ? é o estado ideal onde a virtude e a felicidade coincidem. A lei moral requer justiça, isto é, felicidade proporcional à virtude. Só a Providência pode assegurar isto e, evidentemente, não o tem realizado nesta vida. Por conseguinte, há um Deus e uma vida futura; e tem de haver liberdade, pois, de outro modo, não haveria virtude. Kant postulou uma religião sóbria para o homem orientado pela razão.

Hegel (1770-1831) procura compreender a realidade a partir de uma perspectiva eterna: sub specie aeterni. Ele analisa a relação entre finito e infinito. Descreve a trajetória do Espírito num processo de vir-a-ser até evoluir no Absoluto. O vir-a-ser segue um processo que obedece a uma estrutura formal, que é a lógica. As diferentes etapas obedecem ao método dialético, culminando no reencontro do Espírito na totalidade. Tudo é vida: Deus, a verdade, o universo. O pensamento de Hegel é uma teologia da encarnação de Deus na História. No fim do processo histórico acontece a realização e a verdadeira manifestação do Absoluto. Aquilo que é racional é real e o que é real é racional. O resultado do processo dialético é a manifestação do Absoluto, só compreensível no processo final. Todo ser particular só é conhecido por sua inserção no todo. A verdade é a totalidade. Hegel se inspirou no evangelho segundo João e afirmou: A razão pura, acima de qualquer limite, é a Divindade mesma. É da essência de Deus participar do processo evolutivo: morrer, ressurgir, continuar a viver. O organismo do mundo dá testemunho de Deus. A própria vida de Deus fez com que ele se exteriorizasse a si mesmo. Se concebermos a vitalidade como ela verdadeiramente é, veremos que é um princípio, uma vida orgânica do universo, um sistema vivo. A partir dessa perspectiva, o universo não é um agregado de muitos acidentes indiferentes, mas um sistema de vida. O Espírito é vida, e o pensamento deve expandir-se como um organismo vivo. A evolução do Espírito consiste em exteriorizar-se, disseminar-se e reencontrar-se logo depois em si mesmo. Somente no fim do processo o Absoluto desponta como sujeito do processo. A História é a explicitação do Espírito no tempo. A razão é histórica. O fim da evolução total é a liberdade universal. O Estado é um organismo vivo. E o supremo dever do indivíduo é ser membro do Estado. A arte e a religião são formas da revelação do Absoluto. O objetivo da religião é o Absoluto; seu interesse coincide com o da Filosofia. A vocação da Filosofia é abranger a totalidade.

Schelling (1775-1854) observou que a razão espera encontrar um fundamento para toda a realidade. Mas, ao invés de encontrar um fundamento, ela se depara com o abismo. No ponto culminante de sua elaboração racional a razão pensa no ens perfectum, mas percebe que não está pensando numa realidade efetiva e sim numa realidade lógica. A razão deixa então de lado a idéia do ens perfectum, pois só lhe resta a idéia do ens necessarium. Constatou que a razão se encontra diante do ens necessarium, e então resta-lhe o espanto. A razão estupefata percebe que o pensamento não pode caminhar antes do ens necessarium para esplicá-lo. O pensamento não consegue preceder o ente que é necessário; simplesmente encontra-se diante dele. A razão é atraída para fora de si e acolhe o Ser mediante uma experiência de êxtase. Diante do prius que não pode ser objetivado, o pensamento não pode caminhar antes dele. O pensamento não pode andar na frente; ele sempre vem depois. O prius absoluto não pode ser representado. Em seu estado de possibilidade, Deus já é Deus. E mesmo criando toda a realidade, Deus não deixa de ser toda possibilidade. Ao criar algo fora de si, Deus não é diminuído em sua unicidade. Schelling se propõe a uma leitura da experiência histórica, principalmente da dimensão religiosa. A experiência religiosa é histórica e ao mesmo tempo transcendente. Suas conseqüências são legíveis a posteriori, e é por meio delas que Schelling encontra Deus. A encarnação de Deus nos faz compreender os atos livres de sua soberana vontade. Conseguimos provar a existência de Deus mediante a sua revelação. Compreendemos então a distância entre Deus e o ser humano e a importância de uma reunificação. O termo religião contém a idéia de religar. Influenciado por Schelling, mais tarde Paul Tillich escreveria: A filosofia, no seu desespero, clamou pela revelação.

Nietzsche (1844-1900) proclamou a vontade de potência, que é a posição arbitrária diante dos valores. Os valores foram criados pelas consciências ?enfraquecidas e escravas? para escapar da luta e viver na resignação. A vontade de potência é própria da natureza e do ser humano. Denunciou que a pessoa moralista sente inveja da vida. A moral resulta do ressentimento diante da vida. As manifestações negativas e diminuidoras de vida são criações do ?homem do ressentimento?, do homem fraco. Considerou o cristianismo um ?platonismo para o povo?. A morte de Deus possibilita o surgimento do super-homem. Pois, este mesmo Nietzsche nos surpreende no final de sua vida com

A ORAÇÃO AO DEUS DESCONHECIDO

?Antes de prosseguir em meu caminho e lançar o meu olhar para frente, uma vez mais, elevo, só, minhas mãos a Ti, na direção de quem fujo.

A Ti, das profundezas de meu coração, tenho dedicado altares festivos para que, em cada momento, Tua voz me pudesse chamar. Sobre esses altares estão gravadas, em fogo, estas palavras: ?Ao Deus desconhecido?.

Teu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos. Teu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo.

Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servir-Te. Eu quero Te conhecer, Desconhecido.

Tu, que me penetras a alma, e, qual turbilhão, invades a minha vida, Tu, o Incompreensível, mas meu semelhante, quero Te conhecer, quero servir só a Ti.?

[Oração transcrita do livro Tempo e Transcendência, Leonardo Boff, Editora Sextante]

Elaborando uma análise da pessoa e da obra de Nietzsche, C. G. Jung fez este comentário: ?A tragédia de Assim falava Zaratustra consiste em que o próprio Nietzsche, não sendo ateu se transformou em deus, porque seu Deus havia morrido. E isto ocorreu porque ele não era ateu. Tinha uma natureza demasiado positiva para suportar a neurose peculiar aos habitantes das grandes cidades, que é o ateísmo? (Psicologia e Religião, p. 90-91).

Feuerbach (1804-1872) foi o primeiro a inverter as relações entre o ser e o pensamento ? propostas pelo idealismo hegeliano. Aquele que tem consciência do infinito, contém o infinito em si. Só o ser infinito pode pensar o infinito. O indivíduo tem consciência do infinito, pois ele traz em si a infinitude de sua espécie. Portanto, o infinito é a consciência auto-objetivada e divinizada da espécie. A consciência da espécie é sacrificada. E assim o indivíduo projeta Deus. O homem contempla o mundo, mas na verdade está contemplando a si mesmo. A consciência de Deus é a consciência que o homem tem de si mesmo; o conhecimento de Deus é o conhecimento que tem o homem de si próprio. A primeira e fundamental alienação do homem é a alienação religiosa. O homem então projeta um ser estranho e independente dele. O indivíduo se despoja das propriedades impessoais da espécie e as exterioriza, objetiva e personifica num ser idealizado e transcendente. Assim tem início a auto-alienação do homem. Quanto mais a religião se desenvolve, tanto mais o homem se esvazia e se degrada. O homem afirma em Deus o que nega em si mesmo. Quanto mais vazia esta vida, tanto mais completo e exuberante é Deus. O despojamento do mundo real e o enriquecimento da divindade constituem um só ato. Só o homem pobre tem um Deus rico. Deus surge da sensação de uma deficiência; o que o homem perde ? seja de uma forma determinada e consciente, seja de uma forma inconsciente ? isso é Deus. Feuerbach considera a religião uma forma essencial do espírito humano. O homem tem necessidade de se exteriorizar. Ele se reconhece por intermédio da objetivação de Deus. O desenvolvimento da religião ... consiste, portanto, mais precisamente nisto: o homem recusa cada vez mais a Deus para apropriar-se de si mesmo. A partir do cristianismo, resta ao homem o penoso caminho de volta. O homem deve ser restaurado em sua humanidade. ?O cristianismo é o máximo de recuperação possível ao homem dentro de uma religião. É, por isso mesmo, a última religião possível? (José Tavares, O Homem e Deus em Feuerbach, p. 144). O cristianismo é a última etapa para que o homem retorne à sua humanidade. A primeira inclinação de minha juventude, na idade dos 15 aos 16 anos, não foi para a ciência e ainda menos para a filosofia, mas para a religião. Esta inclinação religiosa não provinha em mim da instrução religiosa que, eu o recordo muito bem, me havia deixado indiferente, nem de outras influências religiosas exteriores, mas unicamente de mim mesmo, pela necessidade de qualquer coisa que não me ofereciam nem o ensino dado na escola, nem o mundo que me cercava. No final, fica pergunta: Feuerbach foi um ateu, ou foi um homem profundamente religioso? Um homem que se ocupou tanto com fenomenologia religiosa, foi ? de um modo paradoxal ? um ateu religioso. ?Feuerbach foi uma estranha combinação. Religioso e ateu ao mesmo tempo. Para nossos hábitos mentais aqui estão duas atitudes que se excluem. Para ele, ao contrário, são atitudes que se pressupõem: ateu porque religioso? (Rubem Alves, O Enigma da Religião, p. 33). E deixou um legado muito fecundo: Deus deve ser Deus, e não apenas o suprimento de nossas carências, anseios e desejos mal resolvidos. Cabe ao ser humano se posicionar diante de Deus e deixá-lo ser Deus.

Karl Marx (1818-1883) também inverteu a dialética de Hegel. Explicou a história através dos fatores econômicos e técnicos. No lugar das idéias estão os fatos materiais; no lugar dos heróis, a luta de classes. A idéia é derivada das condições econômicas. É rejeitada toda filosofia idealista da história. Através de seu trabalho criativo, o homem se relaciona dialeticamente com a natureza, transformando-a em cultura e fazendo história. Marx e Engels aproveitaram as análises de Feuerbach sobre a religião.

Kierkegaard (1813-1855) descreveu três níveis de consciência. No nível estético, o homem busca a felicidade, mas a fugacidade o leva ao desespero. No nível ético, o homem busca o cumprimento do dever, mas seus erros o levam a um situação de culpa. No nível religioso, o homem busca a Deus e se depara com a distância entre ele e o Absoluto, sobrevindo-lhe a angústia. Quando alguém assume a angústia e o desespero, então ingressa no âmbito da fé, na vivência da relação pessoal com Deus. Tudo gira em torno da entrada da angústia em cena. O homem é uma síntese do psíquico e do corpóreo; mas uma síntese inconcebível se os dois termos não se unirem a um terceiro; terceiro que é o espírito... É preciso distinguir bem a angústia do medo e de outros estados análogos; estes referem-se sempre a algo determinado, enquanto a angústia é a realidade da liberdade como possibilidade anterior à possibilidade. Não se encontra nenhuma angústia no animal, porque este, em sua naturalidade, não está determinado como espírito. Kierkegaard definiu a angústia como sendo a possibilidade da liberdade. A angústia é inerente ao ser humano. Somente a pessoa que tem a liberdade diante de todas as possibilidades, sente a angústia de tomar uma decisão ? certa ou errada. A pessoa se sente responsável pela sua existência. Ela é então tomada de angústia, pois se dá conta de que tudo é possibilidade.

Sartre (1905-1980) enfatizou que o homem só existe na medida em que se realiza. O importante não é o que fazem do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele. Para compreendermos o pensamento de Sartre perante a transcendência, tornou-se paradigmática esta frase: O mundo é absurdo e unicamente Deus poderia dar-lhe um sentido; mas Deus não existe, e portanto, é preciso aceitar a vida como um absurdo. Na avaliação de Sartre, somente Deus pode dar um sentido a esta existência e ao mundo. É possível que este tenha sido um clamor, pois em entrevista concedida ao jovem amigo e discípulo Benny Lévy, publicada poucos dias antes de sua morte, Sartre fez um balanço de toda sua obra, e falou a respeito da transcendência, Deus, ressurreição e esperança. Avaliando a história dos judeus, Sartre assim se expressou: É precisamente o que eu procurei compreender. Mas pensando bem, acredito que o essencial para o judeu é que, há muitos milhares de anos, ele tem uma relação com um único Deus; ele é monoteísta e era isso o que o distinguia de todos os povos antigos, que tinham, todos, pluralidade de deuses, e foi isso o que o tornou absolutamente essencial e autônomo. Essa relação com Deus, ademais, era muito especial. [...] O que há de novo é o fato de esse Deus estabelecer uma relação com os homens. A relação que caracteriza os judeus é uma relação imediata com o que eles denominam o Nome, isto é Deus. Deus fala ao judeu, o judeu entende sua fala e, através disso, o que há de real é uma primeira ligação metafísica do judeu com o infinito. É essa, penso eu, a primeira definição do judeu antigo, o homem que tem toda a sua vida determinada de alguma maneira, regulamentada pela sua relação com Deus. E toda a história dos judeus consiste justamente nessa primeira relação. [...] O essencial é que o judeu viveu e ainda vive metafisicamente. [...] A religião judaica implica um fim deste mundo e o aparecimento, no mesmo momento, de um outro mundo, um outro mundo que será feito deste, mas no qual as coisas estarão dispostas diferentemente. Há um outro tema que também me agrada: os mortos judeus e outros ressuscitarão, retornarão à Terra. Contrariamente à concepção cristã, eles não têm, os mortos judeus atuais, outra existência senão a sepulcral e eles renascerão como vivos nesse novo mundo. Esse novo mundo é o fim. [...] O judeu pensa que o fim do mundo deste mundo, e o surgimento do outro, é o aparecimento da existência ética dos homens vivendo uns para os outros. Na entrevista, Sartre também falou a respeito de esperança. Com essa terceira guerra mundial, que pode estourar qualquer dias desses, com esse conjunto miserável que é o nosso planeta, o desespero recomeça a me tentar: a idéia de que não acabaremos jamais com isso, que há finalidade, mas apenas pequenos fins pelos quais combateremos... Fazemos pequenas revoluções mas não existe um fim humano, não há algo que interesse ao homem, só há desordem. Pode-se chegar a pensar assim. É uma idéia que volta a nos tentar incessantemente, sobretudo quando já estamos velhos e podemos pensar ? ?pois é, em cinco anos, no máximo, estarei morto? ? na verdade penso dez, mas poderão ser cinco. Em todo caso, o mundo parece feio, mau, e sem esperança. Esse seria o desespero de um velho que já morreu por dentro. Mas eu resisto, e sei que morrerei na esperança, dentro da esperança ? mas essa esperança, teremos de fundá-la. É preciso tentar explicar porque é que o mundo de agora, que é horrível, não passa de um momento no longo desenvolvimento histórico, e que a esperança sempre foi uma das forças dominantes das revoluções e das insurreições ? e como sinto, ainda, a esperança como minha concepção do futuro. [A íntegra da entrevista se encontra em O testamento de SARTRE, L&PM Editores, Porto Alegre, 1980]

Gabriel Marcel (1889-1973) reflete sobre a existência singular do ser humano. Sentir é participar sem intermediários. As sensações e os sentimentos possibilitam ao ser humano abrir-se ao mundo e aos outros. A Filosofia é uma exploração e uma caminhada. O ser humano é um peregrino em direção ao Absoluto: é um homem viajante. Como ser itinerante, o homem descobre o sentido de sua existência, descobrindo também seus semelhantes e Deus. O caminho está cheio de obstáculos, e o pior deles é a morte. Por isso, é tão necessária a esperança. No caminho percorrido é que o homem encontra a esperança. A esperança é a característica dos seres desarmados; é a arma dos desarmados ou, para sermos mais precisos, é o que há de mais oposto a uma arma, e nisto reside sua eficácia. Filosofar é meditar sobre esta questão: ?eu existo?. Sua reflexão existencial tem a dimensão cristã. A ética de Marcel principia pela amizade a si mesmo. Declara que o egoísta é alguém que não se ama bastante, mas insuficientemente. Amar-se a si mesmo é imprescindível para amar os semelhantes e a Deus ? o Tu Absoluto. O lema de Marcel: Não estou assistindo a um espetáculo. Não podemos ser espectadores. O mistério é alguma coisa em que eu estou engajado. No centro das relações com o tu está a fidelidade. O ser humano fiel se cria a si mesmo na fidelidade. Há um Tu Absoluto, que não pode ser objetivado: Deus. Encontramos Deus no relacionamento, no mesmo plano em que encontramos a outra pessoa: no amor e na adoração. Eu estou profundamente convencido que [...] de maneira alguma Deus quer ser amado por nós de um modo que vá contra a criação, mas ele quer muito mais ser glorificado por intermédio da criação e a partir da mesma.

Karl Jaspers (1883-1969) preocupou-se com as perturbações existenciais que ocorrem na relação do homem com o mundo. Ao tomar decisões, o homem pode acertar ou se arruinar a cada instante de sua existência. Jaspers falou da ?vertigem da liberdade?. A própria liberdade só pode existir quando o outro também for livre. O ser isolado ou que se isola acaba por transformar-se em meras possibilidades ou desaparece no meio do nada. Eu só existo em companhia do próximo; sozinho nada sou. Jaspers acentua a importância da existência possível. O homem só toma consciência de seu ser nas situações-limite. É por isso que, desde minha juventude, procurei não dissimular o pior. Eis uma das razões que me levou a escolher a medicina e a psiquiatria: a vontade de conhecer o limite das possibilidades humanas, de aprender o significado daquilo que comumente nos esforçamos por velar ou ignorar. Existe uma ruptura na existência humana. Quando começamos a pensar na nossa ruptura, então começamos a superá-la. O ser humano não está fechado na imanência; ele está aberto para a transcendência. Deparamo-nos com sinais que apontam para a transcendência. O ser humano é livre para autocriar-se. Ele é forçado a um contínuo auto-realizar-se, a um incessante vir-a-ser. Batemos contra o limite, sofremos uma derrota e naufragamos. Percebemos, então o encontro de nossa existência naufragante com Deus. Muito mais do que crer em Deus devemos nos sentir diante de Deus. Viver significa existir, isto é, viver os limites, as lutas e as contradições de nossa existência. O diálogo é o único meio, não só nas questões vitais de uma ordem política, mas também em todos os aspectos do nosso ser. Mas o conteúdo e o impulso de tal conversa nos é fornecido através da fé Naquele (Deus) que é o Guia para a associação de todos, pela fé de que eu só me realizo quando os demais também se realizam.

Henri Bergson (1859-1941) reagiu a um pensamento mecanicista e racionalista. Declarou que a evolução do universo é impulsionada por um Élan Vital. Bergson se opõe aos pensadores que alegam que Deus não pode ser captado pela experiência. Se Deus existe, deve haver um modo de o homem atingi-lo experimentalmente. Deus não pode ser tão inacessível, pois a maioria dos seres humanos constata que o Ser Supremo pode estabelecer relações com as pessoas. Bergson observa que o Deus de Aristóteles é incapaz de estabelecer relações com os seres humanos. O erro básico dos filósofos foi formular definições a priori de Deus. Em nós existe uma visão possível de Deus. A visão possível que existe em nós, ou antes, atrás de nós, é a intuição. Em sua obra A Evolução Criadora, Bergson afirma que Deus nada tem de completo. Ele é vida incessante, ação, liberdade. Considera os místicos as grandes testemunhas de Deus. A última etapa da experiência mística acontece quando a contemplação está integrada com a ação. Então, a vontade humana se confunde com a vontade onipotente de Deus. O Hinduísmo ficou preso a um intelectualismo acentuado. O Budismo incorreu na mesma deficiência do misticismo de Plotino: carência de ação. Com o Cristianismo surgiu o misticismo completo: o êxtase transformou-se em dinamismo. A essência do misticismo é a ação, que se realiza de um modo criativo pelo amor. Nos místicos, o Élan Vital mostra até onde seres humanos são capazes de ir. Todos os homens deveriam ser receptivos ao Élan Vital. A energia espiritual fluiria a exemplo do fogo, que está no centro da Terra, e que aparece no cume dos vulcões. Os místicos não se ocupam com os ?atributos metafísicos? de Deus. Eles não se atêm a definições a priori de Deus. Eles buscam a experiência da presença de Deus. A principal revelação mística é que Deus é vivenciado em Amor. E este Amor é inefável. Esta é uma verdade essencial. O amor divino é o próprio Deus. E este amor divino é comparável à emoção artística, que é supra-intelectual. O amor divino só é qualificado pela sua essência. O amor dinâmico sempre é endereçado a alguém. Bergson vivencia Deus movido por amor: para que teria ele necessidade de nós, se não fosse para nos amar? A criação é um empreendimento de Deus com o propósito de associar a si seres dignos do seu amor, dispostos a colaborar com a obra divina. Bergson considera o sofrimento ?uma terrível realidade?, que não pode ser minimizada em vista do amor de Deus. Mas, nada prova que Deus queira o sofrimento. Deus é a causa eficiente da criação, e também a sua causa final. A existência do sofrimento e do mal não afeta o plano divino. A partir de nossa visão particular e individual, como poderíamos nós alegar que a Totalidade poderia e deveria ser diferente? A realidade surgiu a partir de Deus mediante um processo de emanação. A vida principia na dimensão do espírito e percorre o caminho que se estende até à materialidade. Diante da materialidade o Élan Vital interrompe sua trajetória. O Élan Vital é essencialmente consciência, ou supra-consciência. A matéria é a extensão do ilimitado, é quando a liberdade se converte em necessidade. A dimensão física é algo de psíquico invertido. Mas, a vida não se separa da matéria. A vida pura ? ou pura consciência, ou supra-consciência ? seria pura atividade, puro movimento, pura criação. Deus assim definido nada tem de completo (de acabado); é vida incessante, ação, liberdade. A criação assim definida não é um mistério; nós a experimentamos em nós quando agimos livremente. Bergson notabilizou-se pela valorização da experiência mística, e por sua crítica aos conceitos abstratos que os filósofos formularam a respeito de Deus. Ressaltou a essência da natureza divina: Deus é amor, generosidade, criação. Em última análise, Deus parece ter uma história. E a criação do mundo se assemelha a uma criação artística. Deus é uma emoção criadora.

Maurice Blondel (1861-1949) observou que o ser humano vive numa tensão entre o querer e o poder. A pessoa é então tomada de uma insatisfação, que só se satisfaz quando o desejo alcança o infinito: Deus. Não existe adequação entre o sujeito que quer e o objeto desejado. Diante do infinito, a vontade humana encontra satisfação.

Emmanuel Mounier (1905-1950) confrontou o personalismo com o pensamento de Marx. Observou que o marxismo é tão otimista em relação à humanidade, e tão pessimista a respeito do homem. Mounier prega um socialismo libertário. O marxismo não entendeu o humanismo dentro do movimento operário. O materialismo perdeu a dimensão do espírito e da pessoa humana. Mounier quer um espaço para a dimensão ética e espiritual. Ele define o personalismo como a doutrina que afirma o primado da pessoa humana sobre as necessidades materiais. No Manifesto a serviço do personalismo, Mounier escreveu em 1936 que a primeira preocupação do individualismo é centrar o indivíduo sobre si mesmo, a primeira preocupação do personalismo é descentrá-lo para estabelecê-lo nas perspectivas abertas da pessoa. O personalismo é uma filosofia da existência que se opõe ao individualismo e ao niilsmo. Os homens são convocados a se engajar na construção de uma humanidade e uma ordem social onde despontem os valores da pessoa. O ser humano é racional, livre, consciente do bem e do mal e responsável em suas decisões. Em 1933, Mounier fundou a revista Esprit, órgão de ação e conscientização política. Sob a acusação de atentar contra o governo, a revista foi fechada e Mounier foi preso. Como prisioneiro, Mounier constatou que um homem que não conhece a enfermidade ou a prisão é um ser humano incompleto. A igreja institucional negou-lhe a eucaristia, pois considerou-o um subversivo. Mounier não se abateu. Percebeu que Deus lhe dava um reflexo eucarístico através de sua presença na igreja sofredora e abandonada.

Whitehead (1861-1947) foi professor de Matemática até os 63 anos. Alfred North Whitehead e Bertrand Russel escreveram a Principia mathematica. Enquanto Russel se declarava ateu e escrevia Porque não sou cristão, Whitehead passava a se ocupar com a metafísica e escrevia Ciência e mundo moderno (1926) e Processo e realidade (1929). Ele não se limitou a uma visão estritamente científica, mas sua reflexão filosófica também recorre à intuição do artista, à espiritualidade e à intuição pessoal. Ele apontou para uma realidade que transcende o cientificismo. Sua obra se constitui na melhor e mais completa reflexão filosófica sobre as ciências da natureza. Whitehead salientou que a realidade é dinâmica. A realidade é um evento, um real processo existente, ou um real momento que está sendo. Cada processo existente concentra em si todo o Universo. O passado de cada processo está contido nele. Seu futuro também está enunciado e prefigurado nele. Além disso, também está presente nele todo o mundo dos outros eventos, representados nele mediante seu efeito. Essa ação recíproca de todos os eventos entre si recebe o nome de impressão (sensação). Os eventos têm uma qualidade de vetor. Eles apontam para além de si, penetrando em outros processos e essências. Cada processo sente e percebe todas as outros. Isto não precisa ser consciente, mas pode se tornar consciente. A consciência é o fato de que uma substância está presente em outra. Esta também é a essência do conhecimento. Conhecimento é uma relação direta entre sujeito cognoscente e objeto cognoscível. O evento não é permanente. Ele é uma pulsação, um momento. O evento morre. Mas, o evento se perpetua na medida em que ele continua a atuar no evento seguinte. Ele é ?herdado? no evento que segue. O Universo não é um conglomerado arbitrário de eventos isolados. Ele é conduzido por leis e por uma harmonia estética. A regularidade do Universo é evidente e manifesta. Em um sentido mais elevado, cada evento é uma síntese de todo o Universo. As eternas Idéias [de Platão] se realizam no evento. O impulso criativo do processo é atuante no evento. Deus é a força que delimita e que impulsiona o evento. É um conceito bipolar de Deus. Isto significa que Deus é causa e também é efeito dos acontecimentos. Deus é a causa de toda a realidade. Mas, ele também é influenciado por aquilo que acontece. Deus e o mundo evoluem juntos através do tempo. Pode-se afirmar que tudo o que acontece, realiza-se em Deus. Se negarmos Deus, então também precisamos negar a existência dos seres concretos. A partir do impulso universal e das essências universais eternas, Deus configura individualmente cada ser determinado. Deus é determinante em cada momento. Sua reflexão teológica faz distinção entre dois aspectos de Deus: a natureza primordial e a natureza conseqüente. A natureza primordial de Deus faz com que ele seja imutável e intemporal; sua atualidade é infinita e completa. Deus é eterno, mas só através da criação ele se tornou dinâmico. A natureza conseqüente de Deus faz com que ele seja onisciente; ele é a apreensão consciente e conceptual do universo. O mundo ideal é uma descrição dele. Deus é ilimitado e está evoluindo, graças à captação de novos acontecimentos. Deus é imanente e transcendente ao mundo. Deus é imanente, pois está presente em cada ser. Deus é transcendente, assim como cada acontecimento transcende a outro. O mal é integrante do processo evolutivo. Mas, no mundo, o mal conduz à anarquia e à degradação. Deus está em luta contra o mal, e se solidariza com os que sofrem e também lutam. Deus é, ao mesmo tempo, imanente e transcendente ao mundo. É imanente enquanto está presente em cada ser; é transcendente, da mesma maneira que cada acontecimento transcende a outro.

CONCLUSÃO

A relação entre Deus e a realidade é a questão mais fundamental no pensamento teológico e filosófico.
Ao abordarmos esse relacionamento a partir da teoria do conhecimento, torna-se necessário perguntar: o que é conhecer?
A teoria do conhecimento envolve relações internas e externas. O sujeito, que conhece um objeto, passa a ter uma relação interna com o mesmo. O sujeito cognoscente inclui algo dentro de si, sendo modificado pela presença da novidade em sua consciência. Quando o sujeito passa a conhecer um objeto desconhecido, então é estabelecida uma relação interna . O objeto conhecido tem, por sua vez, uma relação externa com o sujeito cognoscente, pois não sofreu alteração no ato do conhecimento.

A partir da teoria do conhecimento, pode-se afirmar que:

1. O sujeito cognoscente é afetado e modificado pelo objeto conhecido, que entra em sua consciência.

2. O sujeito cognoscente pode se desenvolver adquirindo cada vez mais saber. A partir da capacidade de conhecer, afirma-se a superioridade do sujeito sobre o objeto a ser conhecido.

3. Se conhecer a realidade mutável é incluí-la dentro de si, deixando-se transformar pela presença da novidade na consciência, segue-se que o sujeito cognoscente é necessariamente mutável. Um ser completamente imutável e necessário só pode conhecer aquilo que é como ele mesmo: perfeitamente imutável e necessário. Para um ser imutável não acontecem novidades. Ele não pode conhecer o mutável, pois não pode incluí-lo dentro de si e nem ser alterado pela sua presença. Nesse caso, não haveria acontecimentos, pois tudo já estaria aí de um modo imutável.

Aristóteles afirmou que Deus é um ser plenamente imutável e, portanto não pode conhecer o mundo, pois este é mutável e contingente. Defendeu que o conhecimento de Deus se restringe aos pensamentos imutáveis e necessários de sua própria mente divina. Aristóteles restringiu drasticamente o conhecimento de Deus.
Com essa concepção, Aristóteles idealizou o Eremita Transcendente, auto-suficiente e indiferente ao drama da humanidade. E a partir dessa concepção, a teologia ocidental sempre afirmou que Deus é absolutamente imutável e necessário em todos os seus aspectos.

Também Espinosa reconheceu, a exemplo de Aristóteles, que um ser completamente imutável e impassível não pode conhecer um mundo mutável e contingente. Mas, Espinosa resolveu essa questão de outro modo. Aristóteles havia restringido o conhecimento de Deus. Espinosa negou a mutabilidade e a contingência do universo.

Espinosa salientou que um Ser necessário conhece perfeitamente tudo que existe. Logo, todas as coisas existentes devem ser necessárias e imutáveis com Deus. Em resumo, todas as coisas existentes são aspectos (ou modos) da divindade. Existe apenas uma Substância (ou Ser) e não há diferença entre Deus e a Natureza. E sendo esta Substância perfeitamente imutável, todos os acontecimentos ocorrem necessariamente. Acontecem por necessidade. Portanto, ninguém dispõe de livre arbítrio em seu agir. Nada ocorre por acaso.

Torna-se assim relativo o diálogo entre o Ser Supremo e os indivíduos criados como seres diferentes de Deus, como sempre ressaltou a teologia bíblica. Também fica suprimida a liberdade do indivíduo, para assumir suas próprias decisões diante de Deus. E onde não há liberdade, também não há responsabilidade. Os indivíduos são reduzidos a modos (ou aspectos) do único Ser. É verdade que a liberdade humana é limitada, mas sempre há a possibilidade de o ser humano tomar suas próprias decisões diante de Deus. Sendo os indivíduos meros modos do Ser, torna-se relativo o diálogo entre criatura e Criador, como é enfatizado pela teologia cristã.
Portanto, o mundo é necessário e imutável, sendo a Natureza idêntica a Deus, no entender de Espinosa.

Seguindo a lógica, devemos nos ocupar com a contingência e a mudança ? em Deus e no mundo. Deus conhece o mundo com suas mudanças, seus eventos e suas novidades. E este processo de conhecer também provoca transformações em Deus. Mas, também devemos ressaltar que os indivíduos possuem um poder limitado de decisão em sua vida, podendo determinar o seu destino em responsabilidade diante de Deus.

Deus não pode ser contingente (possível); ele é necessário em sua essência e propósitos. Mas, ele também é idêntico a si mesmo, de modo que ele não é plenamente mutável. A essência de Deus permanece. Ele é o único Ser que necessariamente existe e sempre é idêntico a si mesmo.

No processo evolutivo do universo e da humanidade, as decisões livres dos indivíduos e os novos eventos ampliam o conhecimento de Deus. O próprio Deus se encontra dentro do processo e evolui junto com o universo.

A onisciência de Deus não deve ser entendida como o pleno conhecimento de todos os eventos no universo. O teísmo clássico defendeu a onisciência como o conhecimento pleno e perfeito de todos os eventos no universo, inclusive os futuros. Mas, os eventos futuros não podem ser conhecidos como se fossem realizados. Os eventos futuros ainda não estão definidos, assim como as decisões futuras ainda não foram efetivadas. Portanto, conhecer o indefinido como sendo o definido, e o não-realizado como sendo o realizado, aproxima tal conhecimento muito mais do erro do que do saber.

Em Cartas Persas I, Montesquieu se manifestou de modo muito apropriado sobre essa questão:

Por mais ousada que seja essa idéia, a metafísica se presta a isso maravilhosamente. Segundo seus princípios, não é possível que Deus preveja as coisas que dependem da determinação das causas livres, porque o que não chegou a acontecer não existe e, por conseguinte, não pode ser conhecido. De fato, o nada, que não tem propriedades, não pode ser percebido; Deus não pode ler numa vontade que não existe e ver na alma uma coisa que não existe nela, pois, até que ela seja determinada, essa ação que a determina não está nela.

A alma é a operária de sua determinação, mas há ocasiões em que é de tal modo indeterminada, que não sabe até mesmo de que lado se determinar. Muitas vezes ela não o faz senão para usar de sua liberdade, de maneira que Deus não pode ver essa determinação de antemão, nem na ação da alma, nem na ação que os objetos exercem sobre ela.

Como Deus poderia prever as coisas que dependem da determinação das causas livres? Não poderia vê-las a não ser de duas maneiras: por conjetura, o que é contraditório com a pré-ciência infinita; ou ele as veria como efeitos necessários que decorreriam infalivelmente de uma causa que os produziria de igual modo, o que é mais contraditório ainda, pois a alma seria livre por suposição; e, nesse caso, não o seria mais que uma bola de bilhar é livre de se mover quando é empurrada por outra.

Não creias, no entanto, que eu queira limitar a ciência de Deus. Como deixa agir suas criaturas à vontade, ele conhece tudo o que quer conhecer. Mas, embora possa ver tudo, não se serve sempre dessa faculdade; deixa geralmente à criatura a faculdade de agir ou de não agir, para lhe deixar aquela de merecer ou não merecer; é então que renuncia ao direito que tem de agir sobre ela e determiná-la. Mas quando quer saber alguma coisa, ela sabe tudo, porque só tem que a querer que ela aconteça como quer e determinar as criaturas em conformidade com sua vontade. É assim que ele presume o que deve acontecer em todas as coisas puramente possíveis, fixando, por seus decretos, as determinações futuras dos espíritos e privando-os do poder que lhes deu de agir ou de não agir.

Cabe aqui também uma reflexão sobre o livre-arbítrio. O psicólogo e neurocientista Steven Pinker, professor em Harvard, afirma que a ação da testosterona no cérebro do menino ? ainda no ventre materno ? ocasiona mudanças neurais. Meninas recém-nascidas estabelecem contato visual predominantemente com pessoas. E os meninos recém-nascidos olham mais para objetos. Isso ajudaria a explicar porque os homens dedicam, em geral, mais tempos à carreira profissional do que à família.

A genética é determinante em distúrbios de cognição, como o autismo e as deficiências de linguagem, limitando a aprendizagem. Ela também determina a nossa orientação política ? se somos liberais ou conservadores.

A partir dessas observações, Steven Pinker constata que nós não entendemos completamente o livre-arbítrio. Também não há uma explicação para a formação da consciência humana. A determinação genética é muito acentuada na existência humana. E existem interesses políticos para preservar a teoria da tabula rasa.

Muitos conceitos ? aparentemente óbvios ? precisam ser redefinidos.
A lógica também não é suficiente para explicar a onipotência divina. Se através da lógica, a onipotência é definida como a possibilidade de Deus poder simplesmente fazer tudo, então deveríamos contar a hipótese de ele criar uma rocha tão gigantesca e tão pesada, a ponto de nem ele próprio poder erguê-la. Hartshorne afirma que Deus deve ter o máximo do poder que é concebível para um ser. Mas, não é concebível que um único ser ? nem mesmo Deus ? detenha literalmente todo o poder. Esse pensador entende que a forma mais elevada de poder não é a capacidade de determinar, mas de influenciar todos os eventos da história.

Podemos entender a onisciência de Deus da seguinte maneira: Deus conhece a realidade da mesma maneira como ele pode ser conhecido. Ele conhece o passado e o presente como realidade, uma vez que essas duas dimensões efetivamente existem. Mas, ele conhece o futuro como possibilidades indefinidas, que ainda não são realizadas. Ele terá completo conhecimento de todos os acontecimentos que se realizarão no futuro, nos quais ele também participa com seu poder persuasivo. Podemos considerar o conhecimento divino perfeito, porque nada se subtrai do alcance do seu poder de conhecimento.

Deus é influenciado pela sua maneira de conhecer o mundo e a realidade.

A teologia clássica do ocidente tem utilizado o atributo ?onipotente? em sua forma literal. Possuindo todo o poder do universo, Deus seria literalmente a causa de todos os eventos. Somente ele realizaria todas as ações no mundo. Neste caso, a existência das criaturas seria uma ilusão (como na filosofia da Índia), ou as criaturas seriam apenas modos do único Ser (como na filosofia de Espinosa).

Sendo Deus a causa absoluta de tudo o que acontece, ele seria o único responsável por tudo o que acontece. Desse modo, nem precisaríamos distinguir entre acontecimentos bons ou maus, pois tudo estaria acontecendo de acordo com a única vontade existente. Também não necessitaríamos de princípios éticos, pois tudo aconteceria de acordo com a vontade divina. As pessoas também não teriam possibilidades de evitar a injustiça social. Ninguém precisaria tomar decisões.

Este conceito de onipotência não tem sustentação na Bíblia, pois pressupõe um deus que cria pecadores e depois os castiga por terem feito aquilo que ele havia determinado.

Se Deus é o único que possui o poder, então não resta poder decisório aos seres humanos.

Mas, a experiência humana de decidir é um pressuposto necessário para
conceber Deus como o Ser que toma decisões. Se os seres humanos não tivessem a capacidade de decidir, eles não teriam palavras e conceitos para descrever uma experiência. Neste caso, a linguagem a respeito das decisões de Deus não teria base alguma na vida humana.
E a linguagem seria ininteligível.

Afirmar que Deus é o único que decide e age, equivale a dizer que não há livre arbítrio.

No seu relacionamento com o mundo e com a realidade, Deus é afetado e influenciado pelas suas criaturas. Deus considera o agir das criaturas e também reage aos acontecimentos. Deus compartilha o poder com todos os outros seres, pois criaturas também são indivíduos ? com personalidade.

O teísmo clássico afirmava a onipotência absoluta de Deus. Essa doutrina ameaçava a existência real das criaturas.

Mas, assim como afirmamos a existência de Deus, também devemos afirmar a existência das criaturas.

Deus não é o único poder no universo, mas ele possui um poder insuperável e perfeitamente adequado para conseguir os seus propósitos.

O poder da criatura sempre ficará restringido pelas dimensões de espaço e tempo. Deus, no entanto, está presente em toda a realidade. Ele exerce constantemente seu poder persuasivo em todos os seres. Ele é o único Ser capaz de influir no processo decisório de todos os outros seres existentes.

A história se desenvolve num processo de tensão. Devemos aprender a conviver com a polaridade dos opostos. Num dos pólos está Deus, o doador e preservador da vida. E no outro pólo está o homem, que é o receptor da vida e também o administrador de toda dádiva. E, assim, a história torna-se o palco do jogo entre duas liberdades. De um lado está a liberdade doadora de Deus, e de outro, a liberdade receptora do homem. Não se trata de duas grandezas alternativas e do mesmo grau, mas trata-se de dois parceiros. A vida se desenvolve numa relação em que Deus e homem se complementam. Deus é Senhor na medida em que o homem se desenvolve, o que Karl Barth soube formular muito bem. Tanto Deus quanto o homem são sujeitos da história. Para consumar a história, a ação de Deus engloba a ação do homem. Não se trata de atuações excludentes, mas de propósitos interligados. A soberana liberdade de Deus conta com a livre cooperação do homem na história. Salvação ou julgamento, vida ou morte, dependem da decisão do homem (Dt 30:19).

Deus não é um ser entre outros, mas é o ser-em-si ou o fundamento do ser. Ele é o poder inerente em tudo. É o poder infinito do ser.

O pensamento de Espinosa se refere a Deus como essência universal. Com esta definição, Deus é identificado com a unidade e a totalidade das potencialidades finitas. Sendo Deus identificado com a natureza (Deus sive natura), então é ressaltado o poder criativo presente em tudo.

O ser humano está preso às categorias da finitude. E emprega duas categorias de relação: substância e causalidade.

A categoria de substância foi elaborada por Espinosa, na linha do pensamento racionalista. O pensamento de Espinosa é naturalista, pois identifica Deus com a essência universal do ser. Com a frase Deus sive natura, Espinosa quer afirmar que Deus é idêntico à natureza criativa.
O panteísmo afirma que Deus é a substância ou essência de todas as coisas. O absoluto do monismo idealista é a estrutura essencial do ser.
Deus é a essência de todas as essências. Deus é o ipsum esse, o ser-em-si. Deus é a substância de tudo. Não existe independência substancial e nem liberdade nos seres finitos. Mas desta maneira, o poder criativo de Deus fica limitado a um sistema de formas. Ele deixa de ser o poder do fundamento de todos os seres. E não os transcende.
?Como poder do ser, Deus transcende todo ser e também a totalidade dos seres - o mundo? (Paul Tillich).

Existe uma ruptura absoluta entre o finito e o infinito.

Deus é seu próprio destino. Ele está além do contraste entre o essencial e o existencial. Ele não participa da ruptura que caracteriza o ser finito. Por isso, o ser-em-si não participa do não-ser.

O cristianismo afirma a liberdade finita no homem. A partir desse postulado, o cristianismo rejeitou a categoria de substância e adotou a categoria de causalidade.

Desde Aristóteles até Leibniz tornou-se clássica a idéia de que a possibilidade se desenvolve e se torna realidade. Tendo em vista sua realização, a possibilidade é sempre potência. A categoria de causalidade foi elaborada por Leibniz, na linha da tradição tomista. A categoria de causalidade afirma que o mundo é dependente de Deus. Mas, ao mesmo tempo, tenta separar Deus do mundo. No entanto, causa e efeito não podem ser separados. O que é causa em um momento, torna-se efeito em outro. Para evitar a série de causas e efeitos, denominou-se então a causa divina de primeira causa - o começo absoluto. Com esse procedimento, a categoria de causalidade está sendo negada, ao mesmo tempo em que está sendo usada! Logo, devemos entender a causalidade como sendo um símbolo.

Devemos superar a alternativa entre substância e causalidade.
Deus é a causa de séries inteiras de causas e efeitos. E ele é a substância que forma a base do processo do vir-a-ser. Substância e acidentes preservam sua liberdade. Também a substância é um símbolo.
Visto a partir do simbolismo, não existe diferença entre ultima substantia e prima causa.

E assim são superados o panteísmo naturalista (substância) e o teísmo racionalista (que argumenta com a causalidade).

Deus é o ser-em-si ou o absoluto. Essa afirmação não aponta para além de si mesma. Por isso, ela não é simbólica.

Deus é o fundamento da estrutura ontológica do ser. Mas ele não está sujeito a esta estrutura. Ele é a estrutura.

Qualquer afirmação concreta sobre Deus deve ser simbólica. A interpretação simbólica é necessária. Ela amplia a realidade e o poder da linguagem religiosa.

Deus não é uma entidade separada do mundo, como se ele dirigisse tudo movido pelos seus caprichos. Ele não é uma entidade auto-suficiente, que cria aquilo que quer e salva a quem quer. Também o amor de Deus encontra sua realização no confronto com outro ser. Um mundo que fosse somente externo a Deus, seria apenas uma brincadeira divina, que não requeresse o envolvimento essencial de Deus.

Devemos nos confrontar com o Deus acima do Deus do teísmo. É a coragem de auto-afirmação, mesmo no estado extremo de dúvida radical. Permanece a seriedade daquela dúvida na qual é afirmado um sentido dentro da ausência de sentido. Quem nos permite essa afirmação é o poder de ser, o Deus acima de Deus. É a coragem de ser no vazio de uma situação.

?Deus se tornou ?uma pessoa? só no século XIX, em conexão com a separação kantiana entre a natureza regida pela lei física, e a personalidade regida pela lei moral. O teísmo ordinário tornou Deus uma pessoa celeste, completamente perfeita, que reside acima do mundo e da humanidade. O protesto do ateísmo contra esta pessoa suprema é correto. Não existe evidência de sua existência, nem é ela questão de preocupação última. Deus não é Deus sem participação universal? (Paul Tillich, Teologia Sistemática, p. 207).

O deísmo no estilo dos pensadores ingleses é uma religião da razão. Com a física clássica passou-se a entender o Universo como uma máquina, onde os fenômenos acontecem com necessária regularidade e com um nexo causal. O Deus do mecanicismo criou o Universo, e este equipamento agora se sustém por si mesmo ? sem interrupções nem irregularidades. Desse modo a ciência moderna passou a entender Deus. Não se admitia mais a possibilidade de Deus intervir no mundo. Em todos os âmbitos (também no religioso) passou-se a admitir somente aquilo que era acessível ao conhecimento natural.
A religião da razão era considerada a verdadeira; tudo o mais era superstição. Desse modo o deísmo estava suprimindo a metafísica.
?A doutrina da preservação do mundo é a porta através da qual penetraram facilmente conceitos deístas dentro do sistema teológico. O mundo é concebido como uma estrutura independente que se move de acordo com suas próprias leis. Deus certamente criou o mundo ?no início? e lhe deu as leis da natureza. Mas depois de seu início ele não interfere em absoluto (deísmo consistente) ou só ocasionalmente mediante milagres e revelação (deísmo teísta), ou atua em uma inter-relação contínua (teísmo consistente). Nestes três casos, não seria exato falar em criação mantenedora? (Paul Tillich, Teologia Sistemática, p. 220).

Bergson detectou a mão morta do mecanicismo também na própria atividade do raciocínio. Como mero desdobramento mecânico, a evolução nunca poderá proporcionar novidade real, mas evidenciar somente o que já existe. Salientou que a intuição é a faculdade com a qual se deve compreender a realidade em permanente transformação. A razão devia funcionar a partir de uma lógica dedutiva. Bergson passou a falar em compreensão intuitiva.

O posicionamento de Bergson é uma reação a um pensamento mecanicista e racionalista. Em contraposição a uma evolução mecânica, Bergson se refere ao Poder Vital. A evolução é impulsionada por um élan vital, um ímpeto que está sempre fazendo novos experimentos.

?Vitalidade é o poder que mantém um ser vivo com vida e crescendo. Élan vital é o impulso criativo da substância viva em tudo o que vive rumo a novas formas? (Paul Tillich, Teologia Sistemática, p.154).

?A vida em sua criatividade dinâmica, em seu élan vital (Bérgson), está aberta ao conhecimento receptivo, à participação intuitiva e à união mística? (Tillich, p. 90).

O ser humano deve considerar a série de experiências que constituem o processo de sua vida. O decisivo é a transformação e a mudança. A realidade primária é o processo da vida.

É rejeitado o teísmo clássico. O teísmo afirma que o Criador está distante desta realidade, totalmente fora do mundo e da humanidade. A Teologia do Processo adota um conceito bipolar de Deus. Isto significa que Deus é causa e também é efeito dos acontecimentos. Deus age na realidade e também reage aos acontecimentos.

Deus é eterno: ele sempre foi, sempre é e sempre será. Deus é a causa de toda a realidade. Mas, ele também é influenciado por aquilo que acontece.

Deus é afetado pelo mundo, mas não é identificado como ele, como propõe o panteísmo. Deus e o mundo evoluem juntos através do tempo. Pode-se afirmar que tudo o que acontece, realiza-se em Deus.
Os dois maiores expoentes são Alfred North Whitehead e Charles Hartshorne.

Whitehead declara que Deus é necessário como princípio de concreção. A realidade se concretiza através de Deus. Sem Deus não poderíamos compreender nem o ?como? e nem o ?porquê? dos acontecimentos. Se negarmos Deus, então também precisamos negar a existência dos seres concretos.

A partir do impulso universal e das essências universais eternas, Deus configura individualmente cada ser determinado. Deus é determinante em cada momento.

Sua reflexão teológica faz distinção entre dois aspectos de Deus: a natureza primordial e a natureza conseqüente.

A natureza primordial de Deus faz com que ele seja imutável e intemporal; sua atualidade é infinita e completa. Deus é eterno, mas só através da criação ele se tornou dinâmico.

A natureza conseqüente de Deus faz com que ele seja onisciente; ele é a apreensão consciente e conceptual do universo. O mundo ideal é uma descrição dele. Deus é ilimitado e está evoluindo, graças à captação de novos acontecimentos.

Deus é imanente e transcendente ao mundo.

Deus é imanente, pois está presente em cada ser.

Deus é transcendente, assim como cada acontecimento transcende a outro.

O mal é integrante do processo evolutivo. Mas, no mundo, o mal conduz à anarquia e à degradação.

Deus é bom e estimula o progresso qualitativo. Deus é o princípio da harmonia, da ordem e da paz; o mal não pode proceder dele.

Deus está em luta contra o mal, e se solidariza com os que sofrem e também lutam. O mal é resultante das manifestações de auto-determinação das criaturas.

?Deus é ao mesmo tempo imanente e transcendente ao mundo. É imanente enquanto está presente em cada ser; é transcendente, da mesma maneira que cada acontecimento transcende a outro? (Whitehead).

A realidade é dinâmica. Ela é um evento. E cada substância concentra em si o Universo. O passado de cada substância está contido nela. Seu futuro também está enunciado e prefigurado nela,
Os eventos têm uma qualidade de vetor. Eles apontam para além de si, penetrando em outras substâncias e essências.

O evento não é permanente. Ele é uma pulsação, um momento. O evento morre. Mas, ele se perpetua na medida em que ele continua a atuar no evento seguinte. Ele é ?herdado? no evento que segue. Nessa pluralidade de poderes, os eventos exercem influência um no outro.
O Universo não é um conglomerado arbitrário de eventos isolados. Ele é conduzido por leis e por uma harmonia estética. A regularidade do Universo é evidente e manifesta. Esse panexperiancialismo considera todas as entidades fundamentais da realidade dotadas de um poder auto-determinante. A experiência confirma a existência de uma pluralidade de poderes. Essa auto-determinação parcial é inerente a todas as entidades e não se atém somente aos seres humanos. Portanto, existir significa ser parcialmente auto-determinante.
Whitehead foi professor de Matemática até os 63 anos. Passou a se ocupar com a metafísica e escreveu Ciência e mundo moderno (1926) e Processo e realidade (1929). Esse pensador apontou para uma realidade que transcende o cientificismo. Sua obra se constitui na melhor e mais completa reflexão filosófica sobre as ciências da natureza.

Temos de um modo conciso o pensamento de 56 filósofos ? desde Tales até Whitehead. Também temos o posicionamento de Paul Tillich, um teólogo que soube dialogar com a filosofia. Constatamos que o ser humano sente a necessidade de se abrir para a transcendência. O empenho dos filósofos é paradigmático para a humanidade toda. E cada um foi original em sua procura. Somos confrontados com o Ser Perfeito e também com o Ser Necessário. Somos desafiados por Feuerbach a nos desembaraçar de nossas projeções, para então nos relacionarmos de um modo mais verdadeiro com Deus. Concluo esta pesquisa com uma pergunta de uma personagem do filme Sunshine: ?Por que tantas pessoas têm dificuldade para crer em Deus e, no entanto sentem tanta necessidade dele??


BIBLIOGRAFIA

ALVES, Rubem. O Enigma da Religião. Petrópolis: Vozes, 1975.
BOCHENSKI, I. M. A Filosofia Contemporânea Ocidental. São Paulo: Herder, 1962.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1994.
CHAUI, Marilena. Espinosa: Uma filosofia da liberdade. São Paulo: Moderna, 1995.
DUNAWAY, Lloyd Philip. A Relação entre Deus e o Mundo: As alternativas lógicas. Brasília: Revista Teológica e Cultura do Centro de Teologia do Processo e da Igreja Cristã de Brasília, 1995.
FRANKL, Viktor E. A Presença Ignorada de Deus. Porto Alegre: Sulina / São Leopoldo: Sinodal, 1985.
FRANKL, Viktor E. Sede de Sentido. São Paulo: Quadrante, 1989.
FROMM, Erich. Ter ou ser?, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1980, 4ª edição.
HIRSCHBERGER, Johannes. História da Filosofia Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea (4 volumes). São Paulo: Editora Herder, 1967.
JAPIASSU, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário de Filosofia, Rio: Jorge Zahar, 1991.
JUNG, Carl Gustav. Psicologia e Religião. Petrópolis: Vozes, 1984.
REZENDE, Antonio (Org.). Curso de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
STEIN, Ernildo (Org.). Deus e o Homem no Pensamento Atual, Porto Alegre: Livraria Cultural Católica, 1967.
TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão. São Paulo: ASTE.
TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. Petrópolis: Vozes / São Leopoldo: Sinodal, 1987.
TOMATIS, Francesco. O Argumento Ontológico. São Paulo: Paulus, 2003.

 

 
 
 
Top



FACULDADE UNIDA DE VITÓRIA
Rua Engenheiro Fábio Ruschi - Nº 161 - Bento Ferreira - Vitória - ES / CEP.: 29.050-670 - Tel.: (27) 3325 - 2071
Copyright © 1998 - 2010 - Todos os Direitos Reservados


site compatível com os seguintes navegadores: