O Primeiro Século do Cristianismo: Os Alicerces são Lançados

ImageEssencial para termos uma visão lúcida do nosso presente é estudarmos criticamente nosso passado. O estudo da História do Cristianismo além de empolgante, lança luzes sobre a Igreja dos nossos dias e ajuda-nos a compreender melhor quem somos nós e porque nos tornamos o que nos tornamos.

Devemos começar pelo nascimento da Igreja. Num sentido, a Igreja começa em Gênesis 12 com a chamada de Abraão. Ali, Deus inicia a concretização do Seu plano de salvação para o homem. A partir daquele homem, Javé estabeleceria o povo chamado de Seu. Contudo, há de se destacar que as características marcantes deste povo no Antigo Testamento diferem das características que encontramos no Novo Testamento. Apenas para citar algumas, devemos nos lembrar da relação diferenciada do Espírito Santo em um caso e outro, a circuncisão e o batismo, a Lei e a Graça, a expectativa pelo Messias e a promessa concretizada. Enfim, a Antiga e a Nova Aliança.

Mas, aqui nos interessa o estudo da História do Cristianismo e, portanto, devemos começar pelo Novo Testamento. Neste, o melhor ponto de partida, é a obra do médico Lucas. Lucas escreveu uma única obra em dois volumes: o Evangelho e Atos. No primeiro ele descreve, após árdua pesquisa (Lc 1), a vida do Senhor da Igreja. No segundo volume (Atos) ele aborda a vida da Igreja do Senhor.

Sem nos determos demais, vale lembrar o início da Igreja neotestamentária em Atos 2, passagem que descreve o derramar do Espírito seguido do sermão do apóstolo Pedro, principal líder destes primeiros anos da Igreja. A partir daí temos pequenos resumos feitos por Lucas, espécies de notas de rodapé, que descrevem o dia a dia desta comunidade cristã primitiva (At 2:42-47; 4: 32-35). Ao longo deste livro, nosso médico narra o início dos conflitos entre judeus e judeus-cristãos (vide a prisão de Pedro e João); os primeiros conflitos internos no Cristianismo (por exemplo, o caso de Ananias e Safira em At 5 ou o que provocou a nomeação dos primeiros diáconos em At 6); o primeiro mártir cristão, o diácono Estevão (At 7); o primeiro Evangelista itinerante, o diácono Filipe, que também foi o primeiro com coragem para pregar para gentios e samaritanos, fato que ocorre cerca de 3 anos depois do Pentecostes (At 8); a conversão de Saulo de Tarso (At 9), maior perseguidor da Igreja naqueles dias, que viria a se tornar o maior missionário de todos os tempos, levando o Evangelho de maneira definitiva para além dos rincões judaicos: o mundo pagão; o surgimento do maior centro de envio de missionários daqueles dias, a Igreja de Antioquia (At 13) que envia Paulo, Barnabé e o jovem João Marcos (que escreveria mais tarde o primeiro Evangelho) para a região da Galácia. Fato que ocorre cerca de 14 anos depois da conversão de Paulo.

Um momento importante nesta ampliação da pregação da Graça para o mundo gentio foi a reunião que aconteceu em Jerusalém (At 15) sob a presidência de Tiago, irmão de Jesus. Com a presença dos apóstolos e principais líderes daqueles dias, discutiu-se o problema enfrentado pelas igrejas fundadas por Paulo e Barnabé na Galácia: a Controvérsia Judaizante. Alguns judeus-cristãos destas igrejas achavam que os gentios convertidos eram bem-vindos, entretanto, deveriam se submeter ao antigo ritual judaico da circuncisão. Até então, não havia uma separação muito clara entre Cristianismo e Judaísmo. Antes de Filipe pregar aos gentios, nós temos um Igreja constituída de judeus cuja única diferença dos outros, era aceitar a Pessoa de Jesus como o Messias prometido pelos profetas. A separação do Cristianismo do Judaísmo, deu-se gradativamente culminando no Concílio de Jerusalém. A bem da verdade, cristãos continuavam se reunindo em Sinagogas até o ano 70 d.C. quando começaram a ser expulsos pelos líderes judaicos.

Lucas termina o segundo volume de sua obra sem um desfecho claro. Abruptamente. Tudo o que sabemos a partir daí, sabemos pelos registros de historiadores da época, como Flávio Josefo, e outros escritos. É aceito pela quase unanimidade dos historiadores que os apóstolos Pedro e Paulo, foram mortos em 64 d.C. em Roma por ocasião do incêndio que destruiu quase toda a cidade nos dias do Imperador Nero. Este fato marca também o início das perseguições desencadeadas pelo Império Romano contra os cristãos.

Outro fato marcante deste primeiro século, foi a destruição de Jerusalém pelas legiões comandadas pelo General Tito em 70 d.C., conflito este provocado por uma rebelião de judeus que desejavam sua independência do jugo Romano. Vemos aí o cumprimento da profecia de Jesus que afirmava a destruição do local mais sagrado para os judeus, o Templo de Jerusalém (Mt 24:2).

Outra perseguição contra cristãos voltou a ocorrer nos dias do Imperador Domiciano já na última década do primeiro século. Foi sob esta perseguição que o último apóstolo vivo, João, foi retirado de seu pastorado em Éfeso e mandado para o exílio na ilha de Patmos onde recebeu a famosa visão que originou o livro do Apocalipse.

De maneira geral queremos destacar aqui alguns fatos que devem servir para nossa reflexão. Primeiramente, nos chama a atenção a descrição sincera e transparente que Lucas fez da vida da Igreja dos primeiros dias. A mesma igreja visitada pelo Espírito Santo, que realizou tantos sinais e prodígios também teve em seu meio trapaceiros, como Ananias e Safira, manifestações de mesquinharias, como não querer dar “cesta básica” para as viúvas dos helenistas (At 6), fofocas, soberba, bebedeiras e até incesto (vide a Igreja de Corinto). Isto deve nos dizer algo. Alguns reclamam um retorno aos dias da Igreja Primitiva, como se aquela fosse uma igreja perfeita. Não era. Ser uma Igreja bíblica é ser uma comunidade que convive diariamente com seus paradoxos e incoerências. Ao invés de querermos imitar o modelo, deveríamos nos preocupar fundamentalmente como uma coisa: a capacidade de nos humilharmos diante de graça que tudo nos perdoa e nos habilita para começarmos tudo de novo. Isto não invalida alguns princípios observados por aquela igreja e que podem nos servir de paradigma ainda hoje. Por exemplo, é bom lembrarmos que a liderança naqueles dias não era hierárquica como nos nossos dias. As palavras gregas para pastor, presbítero, ancião, episcopo têm o mesmo sentido. Aquela era uma liderança baseada em dons espirituais. As igrejas não possuíam um pastor monárquico mas, eram pastoreadas por um colegiado de apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres (Ef 4:11). O povo da igreja não estava ali para sustentar a posição deles. Mas a posição deles existia em função do povo. O personalismo e estrelismo de alguns de nossos líderes deveriam ser revistos à luz desta verdade. E, finalmente, aquela era uma Igreja muito simples. Não possuíam templos, nem bens, nem dinheiro. A grande expectativa era pela parousia (a vinda de Cristo). Viviam em meio a uma feroz perseguição. Mesmo assim, entre acertos e erros, conquistaram o mundo ocidental de então.

Com certeza, o mundo em que vivemos é bem mais complexo. Isto exige de nós também uma postura mais complexa. Mas, o que de essencial foi perdido e que precisa ser recuperado ? “Igreja reformada, sempre reformando”, foi a palavra dos reformadores do século XVI.

Wanderley Pereira da Rosa, formado em Teologia, Filosofia e aperfeiçoamento em Psicanálise, é Diretor da Faculdade Teológica Unida onde ministra a matéria de História da Igreja dentre outras.
 
 
 
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