Vivemos uma nova ordem mundial, onde a cultura de massas assume proporções gigantescas, que se impõe, principalmente, através do discurso neoliberal sobre a economia de mercado. O neoliberalismo já se tornou o modelo global, novo paradigma da organização das nações. O conceito de Estado passa por transformações surpreendentes, e a globalização é um fato já irreversível, a menos que uma catástrofe aniquile a rede mundial de comunicações, disponível em virtude da tecnologia desenvolvida nos últimos 20 anos.
A compreensão desta realidade é fundamental para a identificação dos desafios e o planejamento da Missão nas primeiras décadas do próximo século, e os cristãos não podem abrir mão de analisarem a nova ordem mundial à luz do Evangelho, caso queiram ser presença no mundo que está se delineando neste final de milênio.
1. A nova ordem mundial: alienação e exclusão.
A moderna concepção de economia de mercado se caracteriza, por um lado, pelo caráter metafísico do Mercado, que se basta a si mesmo e tudo regula com sua ?mão invisível?; por outro lado, cria enormes bolsões de exclusão, onde populações inteiras, até em nível continental, são deixadas à margem de tudo por causa de sua imensa pobreza, uma vez que, impossibilitadas de consumir, não existem na lógica econômica neoliberal: ?consumo, logo existo?!
As populações que podem consumir, e assim escapam da exclusão, vivendo no mundo do Mercado, estão imersas em um universo tecnológico e tecnicista cada vez mais sofisticado e, ao mesmo tempo, simples, facilmente consumível. A tecnologia e o conhecimento tecnológico não estão ao alcance da compreensão do cidadão comum, a não ser quanto a sua utilização. A tecnologia é concebida e aplicada de forma a superar-se rapidamente, gerando necessidades artificiais - disfarçadas de conforto e utilidade - para manter a demanda. Já não se buscam soluções técnicas para a solução de novos problemas, mas criam-se problemas novos para induzir o consumo de novas tecnologias, mais avançadas, que logo se tornam superadas e descartáveis, formando o círculo vicioso onde o consumo aparece como motor e como VALOR.
A educação, no mundo do Mercado, seja a formal, seja a informal, privilegia o prático contra o teórico, sem caracterizar exatamente o que é teoria e o que é prática. Sob o rótulo de prático privilegia-se o imediato, o que pode ser consumido no varejo, segundo a lei do menor esforço, em nome da comodidade. Ensina-se e aprende-se o usar e não o fazer.
O cidadão comum, no mundo do Mercado, convive quotidianamente com a tecnologia sofisticada que ele não compreende, mas sabe usar: consome-a a todo momento, e ao mesmo tempo que a usa, ela lhe parece muito complicada para ser compreendida, algo mágico! Aperta-se um botão, digita-se alguns números, e a máquina fornece o extrato bancário que antes era fornecido por um funcionário, uma pessoa cujo nome se conhecia, com quem se conversava sobre o tempo ou sobre o resultado do último jogo de futebol... As relações são, cada vez mais, mediadas pela tecnologia sofisticada, criando a sensação de que o outro não é necessário !
Em todo o mundo, os supermercados exibem os produtos bem embalados e prontos para o consumo. Compra-se o produto sem a maior noção de sua procedência e sem a consciência de que é resultado do trabalho humano: para muitos, o leite, por exemplo, é algo que está dentro de uma caixa bem fechada, que se pega na prateleira do balcão frigorífico, e não algo produzido por uma vaca, que passou por um processo industrial onde pessoas trabalharam, foi transportado por várias mãos e veículos conduzidos por pessoas, até chegar ao lugar onde estamos acostumados a comprá-lo. Tudo muito simples e fácil: o leite está ali na prateleira, como coisa mágica...
A informação é hoje tão veloz e tão volumosa que cria o paradoxo de uma sociedade farta de informação, mas mal informada. A informação é tratada como mercadoria, algo a ser consumida. Sabe-se dos fatos, mas pouco ou quase nada se reflete sobre eles, como se os acontecimentos do mundo não afetassem o cidadão que assiste o telejornal (mais de imagem que de texto), criando a sensação de se estar fora do mundo e de seus problemas - na tranqüilidade do lar. Os fatos são mostrados de maneira que todos se sentem impotentes, como anestesiados na consciência dos sentimentos de solidariedade: ninguém fica chocado com as cenas de morte e dor que, na TV, ilustram nosso jantar...
Algumas pessoas, é verdade, sentem uma emoção que se traduz por ?pena? seguida de expressões do tipo ?onde vamos parar? ?, ?o que se pode fazer? ?, ?alguém precisa tomar uma providência! ?... impotência induzida, consumida e assumida!
Está surgindo uma nova ética que justifica as concepções da lógica econômica. A nova ética emergente é propagada pela mídia e é, também, adjacente a novas concepções religiosas, muitas das quais evocam antigas tradições e mitologias apresentando-as através de um conteúdo pragmático facilmente consumível pelas massas. Os novos referenciais éticos privilegiam o indivíduo contra o comunitário, o isolamento contra a convivência, a acumulação contra a partilha. A nova ética emerge no vazio de paradigmas que vem se formando desde a segunda metade dos anos 80, agravada no início dos anos 90 com o chamado ?fim da utopia socialista? no Leste Europeu. A globalização aparece, assim, como novo Renascimento, para aqueles que ainda acreditam na utopia desenvolvimentista projetada à base de avanços científico-tecnológicos.
Às populações excluídas, que não podem consumir, sobra o instinto de sobrevivência, a violência e a aniquilação pela fome, ou pela guerra civil induzida ou ainda pelo ?extermínio de marginais? . Isso é entendido pela nova ética como parte do sacrifício necessário até que o Mercado, agindo com sua ?mão invisível?, possa criar as condições de progresso econômico que eliminem a pobreza. Todavia, parece evidente que a eliminação da pobreza será mesmo feita, mas através do extermínio dos pobres e não da partilha das riquezas... Para essas populações, o humanismo do Mercado cria uma rede de assistência através de programas de abrandamento e controle da miséria, algumas vezes disfarçados de programas em favor do desenvolvimento social, outras vezes arrogantes e paternalistas, administrados por grandes organizações de solidariedade, a maioria desvinculada do Estado (ONG?s), com afirmações cínicas a favor de se liberar o Estado de sua responsabilidade social e até previdenciária, caracterizando assim a privatização da miséria e do assistencialismo .
Um dos mais graves sinais da perversidade do sistema é a dívida externa que assola, sem exceção, os países pobres, incluindo-se aqui o Brasil e a América Latina. Dom Luiz Osório Pires Prado, Bispo Anglicano de Pelotas (RS), relatando sobre a Comissão Inter-Anglicana de Justiça e Paz, na qual representa a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, afirma: ?Embora o discurso ?burocrata? e ?pétreo? dos representantes do FMI e do Banco Mundial, permanece a convicção de que a Dívida [externa] é a pior forma contemporânea de escravidão, que alguma coisa está muito errada no atual estado de coisas das relações internacionais e que, o crescente empobrecimento e violência nos países subdesenvolvidos precisam tomar um outro rumo?. Os ajustes econômicos, impostos pelo FMI aos países pobres, por causa da dívida externa, privilegiam os aspectos neoliberais da economia, propõem também o desmantelamento do Estado e tornam essas populações cada vez mais excluídas do processo histórico de regerem suas vidas como povo e nação.
Sem consciência da própria história por causa da exclusão econômica, social e política, os pobres são solitários que perdem o senso de solidariedade e de vida comunitária, vivendo mais pelo instinto de sobrevivência, recorrendo à violência (lei da selva), cada vez mais dependentes das ?boas ações humanitárias?, do assistencialismo social terceirizado. Por sua vez, o cidadão que vive sob ?as asas protetoras do mercado?, pensa tudo como mercadoria e objeto de consumo para sua auto satisfação. A perspectiva que passa a ter do próximo é a de alguém que lhe pode ser útil e consumível ou alguém que lhe é concorrente, uma ameaça.
De um lado ou de outro, perde-se a sensibilidade, a afetividade, o sentido do afeto e da sexualidade, o senso de partilha e companheirismo, o amor ao próximo. De uma forma ou de outra vai se perdendo a identidade humana (?soma?, ?pneuma?, ?psique? ), substituída pela identidade de marginal ou consumidor, ambos centrados no próprio umbigo: é o ?homo umbilicalis?! Os valores do Reino, o qual Cristo afirmou estar dentro de nós, entre nós , são cada vez menos perceptíveis no mundo, tornando-se coisa antiga ou ultrapassada, irrelevante para a realidade presente.
Por outro lado, como contrapartida, cresce a divulgação de ideais de cidadania e respeito pelo cidadão e principalmente, o conceito de respeito pelo consumidor. É preciso uma análise cuidadosa do conteúdo ideológico que está por trás desse repentino interesse em favor do cidadão. Quem é o cidadão a que se referem as campanhas? o que se pretende ensinar com os novos conceitos de ?respeito? ao consumidor? o que se está tentando passar, realmente, por detrás dessas belas palavras? Pode ser um crescimento na consciência de identidade das pessoas, mas pode ser também uma sutil forma de alienação...
2. O diabólico e a mercadolatria.
A análise acurada, sob a ótica da fé bíblica, da filosofia da economia de mercado demonstra que esta traz embutida em si uma sofisticada e sutil idolatria: ?o Mercado é o Senhor?. Afirmar a invisibilidade da ação reguladora do Mercado eqüivale a divinizá-lo, ou pelo menos, apresentá-lo como algo mágico, onipotente e transcendente ao homem histórico.
A invisibilidade parece ser uma característica da moderna cultura de massas: a tecnologia, a produção, tudo parece ser invisível. Tudo está disponível em sua forma final, pronta para o consumo, perdendo-se a noção de que as coisas são produzidas, fabricadas. O trabalho das pessoas, a presença das pessoas que produzem, tudo fica oculto e perdido na dimensão do produto final. Por outro lado, a invisibilidade dos pobres é cada vez mais crescente. Em que pese a presença das favelas nas grandes cidades do mundo, os programas sociais de habitação popular procuram tirar o pobre da vista urbana, obrigando populações enormes a viverem nas periferias, cada vez mais distantes, e excluídas dos centros de decisão, de trabalho e de consumo.
A cultura de massas é alienante. As pessoas são modeladas para dependerem cada vez mais do consumo, sem se darem conta que estão se tornando cada vez mais dependentes daqueles que, a qualquer preço, mantêm o domínio e o controle do saber tecnológico, que são os mesmos que detêm o poder econômico, bélico e político no mundo, os artífices da nova ordem mundial, os quais visam ampliar seus privilégios; os grandes sacerdotes do deus-mercado, pregadores do reino-do-consumo, celebrantes dos rituais alienantes do egocentrismo, em realidade virtual, através dos videogames. (Não seriam os ?shopping centers? templos do deus-mercado?).
Em relação ao universo religioso verifica-se o mesmo fenômeno. Novos movimentos religiosos estabelecem com o absoluto a mesma relação de praticidade objetiva: talismãs, ídolos, tudo subserviente ao bem-estar do fiel consumidor. O paraíso e o milagre disponíveis na prateleira do mercado, disfarçado de igreja ou santuário!
Entre os excluídos aparece a necessidade metafísica de afirmar a não-exclusão: o paraíso como recompensa futura pela vida de sacrifícios e dificuldades. O conceito de sacrifício, adotado pela nova ética emergente, recuperando um conceito cristão medieval e inadequado, serve, também, como justificativa religiosa para a exclusão .
Do ponto de vista da fé bíblica, estamos diante do Reino das Trevas, do Príncipe deste Mundo, o diabólico pervertendo a Vida. O diabólico assume agora, como nos tempos do Império Romano , proporções globais e por isso é fundamental a criação de espaços de resistência, onde se possam manter vivos os valores éticos e humanos inspirados pelo Evangelho.
3. A dimensão profética do Evangelho e a dimensão ecumênica.
Contra a idolatria e a alienação se rebelaram todos os profetas levantados por Deus dentro do Seu Povo. Os cristãos primitivos proclamavam um Reino que é de Deus, não de César! hoje somos chamados a afirmar que o Reino é de Deus, não do Mercado.
A resistência ao Príncipe deste Mundo sempre foi, na história do Povo de Deus, ação de minorias proféticas, amadurecidas pela fidelidade a Deus e pela permanente reflexão ético-teológica sobre a realidade, à luz da Palavra. Essas minorias, nos momentos cruciais de crises de identidade do Povo, erguem a bandeira dos valores esquecidos, despertando consciências e apontando novos rumos e alternativas.
As minorias proféticas se reconhecem pela sua vocação e não pela sua denominação ou tradição, porque mesmo as instituições eclesiásticas vivem dentro do Reino deste Mundo ( hoje, a cultura de massas e a economia de mercado) e experimentam as tentações inerentes a esse Reino, como sempre aconteceu na História.
Hoje, as Igrejas são tentadas ao isolamento denominacional, que não deixa de ser uma forma de individualismo institucional. Preocupadas em conseguir sucesso missionário (crescimento numérico) diante do confuso mercado criado pelos novos movimentos religiosos (onde a ?Graça? é oferecida como produto de consumo), muitas Igrejas acabam perdendo a noção de sua principal tarefa, isto é, serem testemunhas do Cristo Ressuscitado, e passam a disputar entre si mais espaço nesse mesmo mercado religioso. De certa forma, a tentação do sucesso missionário acaba por diluir ou poluir a identidade confessional das diferentes Igrejas, porque no mercado consumidor da ?graça? o importante é ter um bom produto, facilmente vendável: importa antes mostrar que ?aqui se fazem milagres? do que ?somos uma comunidade confessante do Cristo Ressuscitado e anunciamos a Boa Nova do Reino ?...
A reflexão capaz de avaliar e interpretar criticamente a realidade é, portanto tarefa urgente. Ela não pode estar circunscrita aos limites denominacionais das Igrejas, mas é imperiosamente ecumênica, reunindo e partilhando experiências históricas herdadas e acumuladas pelas distintas tradições e por aqueles que, em todas as denominações, têm mantido, no decorrer da História, a resistência ao Príncipe deste Mundo, desde o chamado de Abraão até os dias de hoje, para ser serviço consistente.
As minorias proféticas estão também dentro das Igrejas e ao mesmo tempo, caminham além do espaço denominacional. Essas minorias podem e devem hoje ajudar as Igrejas a compreenderem e avaliarem a realidade e os desafios que se colocam à Missão de testemunhar o Cristo, à luz das Escrituras e de suas tradições. Isso só pode ocorrer na dimensão ecumênica do diálogo e da partilha. Ao invés de diluírem-se no mercado religioso as diferentes identidades e especificidades da Igreja de Jesus Cristo (una, mas diversa), é preciso que busquem o sentido de unidade na diversidade, como testemunho do convívio fraterno de diferentes sob a obediência à vontade amorosa, não do Mercado e sua ?mão invisível? que crucifica a humanidade através da alienação e da exclusão, mas d?Aquele que, pela Cruz, uma vez para sempre, fez novas todas as coisas .
4. Conclusão: algumas pistas para o agir ecumênico
Toda a lógica da idolatria do mercado fundamenta-se nos horizontes alcançados pela humanidade a partir do conhecimento científico e tecnológico. É exatamente a tecnologia que possibilita a globalização e o conseqüente surgimento dessa idealização do consumo. Por isso, as pistas que apresento se referem à relação das Igrejas com esse conhecimento, reconhecendo, porém, que muitas outras pistas podem ser levantadas para o agir ecumênico diante dos desafios que surgem a partir do neoliberalismo.
Sem entrar em detalhes operacionais, quero apresentar, a título de conclusão, algumas idéias que, após reflexão e aprofundamento, poderão resultar em ações eficazes através dos Organismos Ecumênicos de ação missionária, educacional ou pastoral, em parceria entre si e com as Igrejas.
4.1 - Estabelecer o diálogo fraterno e franco com a comunidade científica
Como alguém acostumado com o universo e a linguagem das ciências naturais, é com muito pesar que vejo as Igrejas Cristãs, em sua maioria, reagirem mal ao progresso científico e tecnológico, com discursos geralmente moralistas e preconceituosos, resultantes de lamentável desinformação e, ouso dizer, ignorância. Parece que, ainda, as Igrejas (de modo geral) não sabem conviver com a ciência, vendo nela antes uma ameaça que uma aliada.
É certo que as Igrejas, em fidelidade ao mandato recebido do Senhor, devem ter uma postura ética diante da realidade - e da ciência - apresentando com clareza seu posicionamento. Mas, para isso, precisam antes conhecer o universo científico, seu contexto, sua linguagem e seus objetivos. As Igrejas, em geral, desconhecem a vida e a dinâmica da comunidade científica, homens e mulheres que dedicam suas vidas ao estudo e à compreensão do Universo, da Criação de Deus.
Se de um lado, as Igrejas os olham com desconfiança, por outro esse sentimento é mútuo. Ainda permanecem na memória da comunidade científica o Santo Ofício, a intolerância e o dogmatismo (católico, protestante e ortodoxo - nisso, as Igrejas sempre foram unidas!) que caracterizaram o conflito entre ciência e religião até poucas décadas atrás (acho que ainda hoje...).
Os cientistas e as cientistas são pessoas comuns, trabalhadoras e lutadoras, com suas qualidades e dons, defeitos e dificuldades; como tal, têm suas angústias, dúvidas, inseguranças, e necessidades emocionais e espirituais. Muitos têm preocupações éticas em relação ao conhecimento que produzem, embora não tenham espaço seguro para pronunciá-las, porque são dependentes dos que financiam e pagam seu trabalho.
Muito do conhecimento científico moderno é fruto do labor e do suor de homens e mulheres que foram ou são, em geral, olhados com suspeita pelas Igrejas onde congregaram ou congregam. Muitos cientistas são ou foram pessoas de prática religiosa e vivem ou viveram sua fé em comunidades cristãs , e as Igrejas parecem não saber tirar proveito disso, para enriquecer sua reflexão sobre o mundo e sua tarefa de proclamação do Evangelho. O diálogo fraterno e franco, sem os desvios do autoritarismo e do dogmatismo, com esses cristãos que se dedicam a compreender o Universo, reconhecendo seu saber e sua forma de descrever a Criação, poderá levar à Igreja a apropriar-se desse saber e torná-lo útil à sua Missão.
4.2 - Reconhecendo o progresso científico-tecnológico e colocando-o a serviço da Missão
As Igrejas Cristãs têm feito muito progresso, nesse sentido, no que se refere às ciências humanas e sociais. A moderna reflexão teológica conta hoje com a mediação dessas ciências, já incluídas - e muito à vontade - no currículo dos seminários e faculdades de teologia, para a formação do clero e das lideranças leigas. É preciso abrir-se agora às ciências da natureza e à tecnologia advinda das pesquisas nesses campos.
As novas tecnologias no campo da informática, por exemplo, abrem portas imensas para a ação evangelizadora. Ao invés de criticar a Internet, como já tenho ouvido em muitas reuniões de clérigos e lideranças leigas, as Igrejas deveriam aproveitar-se da rede mundial para divulgar a Palavra de Deus, testemunhar sua fé no Cristo Ressuscitado, profetizar e proclamar horizontes de esperança. Investir recursos, envolver e estimular os técnicos e profissionais da área - que estão na comunhão das Igrejas - para, por exemplo, desenvolverem videogames cujo conteúdo seja de afirmação da solidariedade e da partilha, ou seja, de valores do Reino, ao invés do individualismo como o são, hoje, a maioria deles.
São inúmeras as possibilidades... Basta vencer o preconceito e a intolerância do dogmatismo.
4.3 - Com isso, tornar o conhecimento acessível aos excluídos pelo mercado.
Uma das críticas que mais ouço ao progresso científico - e das mais inconseqüentes - é que o mesmo não é acessível aos ?pobres e oprimidos?. Isso é ?julgar a arma, e não o assassino, pelo assassinato?!
Ora, o domínio do conhecimento faz parte do esquema de poder dentro da lógica do sistema. Quem tem o domínio do conhecimento, tem o poder, porque tem o controle da produção da riqueza e o coloca a seu serviço.
Assim, as Igrejas têm potencialmente o papel de servirem de instrumentos de educação e formação, à medida em que se apropriam do conhecimento, de trabalharem com esse conhecimento de forma divergente à lógica alienante do sistema, colocando-o acessível e a serviço daqueles que o sistema exclui a priori.
Uma grande parceria mundial (no sentido real, ecumênica!) entre as Igrejas, os Organismos Ecumênicos e as Organizações realmente populares, poderia gerar e gerir os recursos financeiros, humanos e técnicos suficientes para apropriar-se, desenvolver e democratizar o conhecimento científico e tecnológico.
O potencial já existente, representado pelas Instituições Educacionais, Universidades e Centros de Pesquisa que estão sob controle (ou são de propriedade) das Igrejas, aliado à capacidade - ainda grande - das Igrejas e Organismos Ecumênicos reunirem recursos financeiros e humanos, pode ser o ponto de partida. Programas de bolsas de estudo e intercâmbios entre estas instituições, por exemplo, envolvendo pessoas do mundo chamado desenvolvido e dos países emergentes, podem ser direcionados nesse horizonte.
O processo educativo de preparação dos formadores comunitários das Igrejas (catequistas, ministros da palavra, etc) deve, corajosamente, estimular o estudo e trabalhar a temática da ciência e da tecnologia sob seus aspectos éticos, a partir da visão realmente cristã e evangelizadora de que todo conhecimento é dom de Deus e permitido para a felicidade humana.
A idolatria do deus-mercado se utiliza da linguagem e da forma tecnológica para justificar-se e impor-se à humanidade. O conhecimento científico e a tecnologia têm sido um dos mais poderosos instrumentos de exclusão e alienação, nas mãos dos sacerdotes dessa idolatria. Ao invés de esbravejarem contra o conhecimento científico e tecnológico, cabe às Igrejas o papel de estender a esse conhecimento a ação misericordiosa e salvadora de Jesus Cristo, para que ele não se torne diabólico, mas seja uma expressão da infinita vontade humana de buscar a Deus e de retornar ao Jardim onde, no plano original do Criador, seríamos os jardineiros, os companheiros de Deus quando Ele viesse passear pelas alamedas ao cair da tarde ...
A única maneira de fazer isso é agindo ecumenicamente, em abertura à ação do Espírito Santo, o qual nos inspira para a unidade que se constrói no reconhecimento do dom da diversidade .
Londrina, na Festa de São Miguel e Todos os Anjos, setembro de 1997 .
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