Lucas 16:1-9Com a abordagem inicial, Jesus faz uma conexão com a situação descrita em Lc 15:1-3, ligando esta parábola às três anteriores, nas quais os publicanos e os pecadores foram confortados. Agora, Jesus quer conduzi-los ao discipulado e à santificação.
O texto apresenta duas temáticas: a esperteza e o posicionamento adequado diante do dinheiro.
A esperteza é abordada nos vers. 1-8. E o vers. 9 fala do correto posicionamento diante do dinheiro. Os vers. 1-8 se ocupam com a dimensão escatológica, isto é, a plenitude dos tempos, quando Deus nos posiciona diante de uma realidade definitiva. E o vers. 9 dá ênfase ao aspecto ético.
Aquele que quer ser minucioso e detalhista, encontrará duas prédicas dentro de um só texto. Mas a segunda prédica estaria na dependência da primeira.
O administrador ocupava um cargo de destaque. Por isso, estava constantemente sujeito a observadores e acusadores. Através de uma denúncia, o homem rico fica ouvindo que o seu administrador o estava defraudando. O homem rico dá ao administrador o direito de defesa. Sendo desonesto, o administrador não poderá continuar na sua função. Mas, ele não é despedido sem ser ouvido.
Até o momento, o administrador se conduzira de um modo insensato com relação aos bens do homem rico. Mas, na hora da necessidade, ele se torna astuto. E a astúcia do administrador passa a ter um destaque na parábola.
O homem conclui que não tem condições para se submeter a um serviço braçal e tem vergonha para se tornar um mendigo. Ele descarta essas duas possibilidades razoáveis, e busca uma saída dentro do sistema econômico que ele conhece muito bem e maneja com habilidade.
Então ele chamou cada um dos devedores de seu patrão para uma conversa particular. O administrador pergunta, então, a cada um dos devedores qual é a importância de sua dívida. Muito embora ele esteja sabendo a cifra (ou deveria saber), ele procura ? através da pergunta ? despertar nos seus interlocutores o sentimento de dívida. E ao reduzir a dívida, ele obtém da parte dos devedores um sentimento de gratidão. O administrador conseguiu transformar os devedores do patrão em devedores de favores seus.
A nenhum deles é concedida anistia total da dívida. O patrão deveria encontrar alguns documentos de crédito, para não acusá-lo de dissolver totalmente os seus bens. E os devedores deveriam ser mantidos em humildade e submissão, pois uma anistia total os deixaria mal agradecidos.
Em ambos os casos, a dívida é de 100 medidas (cados e coros, respectivamente). Um cado equivale a 40 litros, e um coro equivale a 10 cados, portanto a 400 litros. O primeiro devedor é agraciado com 50, e o segundo, com 20 medidas.
Fica uma pergunta: o administrador estava anistiando os devedores com uma parte da dívida real (que efetivamente pertencia ao patrão), ou ele estava abrindo mão da taxa de juros que estava embutida na dívida? A primeira interpretação é possível, pois o administrador já foi acusado de desonesto e fraudulento. E as providências do patrão mostram que a acusação foi comprovada. A segunda interpretação é respaldada pela prática da época de embutir os juros nos produtos (pois a cobrança de juros era proibida entre judeus ? Dt 23:19). Neste caso, o administrador estaria apenas abrindo mão da taxa de juros (que o patrão não tinha o direito de cobrar). Ele teria alterado as cifras para os montantes originais e corretos, deixando as duas partes satisfeitas. Seja como for, recebe destaque a astúcia do administrador.
O administrador tira proveito do tempo que lhe resta. Ele considera a causa como perdida, mas ? enquanto dispõe de recursos ? aproveita para agir.
E então o administrador é elogiado pela sua esperteza. Ele havia tomado providências diante da iminência de perder o seu emprego. O objetivo do administrador não era apaziguar o patrão com um engodo, mas garantir a sua subsistência para depois da perda do emprego.
Os devedores do patrão tiveram que alterar com o próprio punho as cifras de suas dívidas. Calculando os preços da época, conclui-se que cada devedor teve a sua dívida reduzida em aproximadamente 500 denários. Era uma boa quantia, pois um denário era o ordenado de um dia de trabalho (Mt 20:2). Mas, para o patrão rico, o prejuízo já vinha se avolumando há muito tempo.
A esperteza do administrador é louvada. Ele soube avaliar a situação e agiu rapidamente.
De acordo com a nossa cultura, a nossa previsão é que o homem acusado se livre imediatamente de qualquer suspeita. Mas, o administrador procupou-se unicamente em garantir o seu futuro. Ele não rebateu as acusações, e é nesse aspecto que ele difere de nossos padrões culturais.
?Não devemos concluir que o homem rico tenha louvado a infidelidade ea safadeza do administrador desonesto, como se ele estivesse conivente com a trapaça. Ele louva unicamente a agilidade e a prudência do administrador, a fim de servirem de exemplo a nos impelir para procurarmos o mesmo empenho e a mesma seriedade na obtenção de uma causa boa? (Lutero).
Jesus menciona a astúcia dos ?filhos do mundo?, que se esforçam na obtenção de seus objetivos, e se mostram mais espertos do que os ?filhos da luz?. Jesus espera que seus seguidores sejam mais espertos para investir na eternidade.
Os ?filhos do mundo? são mais astutos, pois, embora nada conhecendo além da necessidade de garantir a sua existência terrena, eles perseguem inescrupulosamente o seu objetivo, valendo-se de todos os meios à sua disposição. Em contrapartida, os ?filhos da luz? ? que conhecem o Evangelho e têm conhecimento da proximidade do Reino de Deus ? têm se mostrado negligentes e apáticos para levar adiante os propósitos da verdade.
?É realmente uma vergonha que filhos da luz, sendo iluminados pelo Espírito e pela Palavra de Deus, não estejam dando atenção, por causa de sua cegueira, para a esperança da salvação eterna que lhe é oferecida. Enquanto isso, os filhos do mundo andam irrequietos e engenhosamente preocupados com o seu bem-estar e a sua saúde? (Calvino).
Os ?filhos da luz? devem ir na escola dos ?filhos do mundo?. Devem aprender a ser expertos e a exercitar a astúcia, mas devem continuar sendo sempre ?filhos da luz?. Na mesma proporção em que os ?filhos do mundo? se aplicam em negócios obscuros, com a mesma intensidade os discípulos de Jesus devem assumir a sua tarefa divina. Assim como os ?filhos do mundo? superam a hesitação e a morosidade, também os ?filhos da luz? devem agir com lucidez, discernimento e criatividade.
O epílogo da parábola é o tema ?dinheiro?. No evangelho de Lucas, Jesus adota um posicionamento muito crítico diante do dinheiro e das riquezas (6:24; 12:15-21; 16:19-31). Lucas apresenta uma trilogia em parábolas a respeito de um comportamento insensato diante das riquezas: 12:15-21; 16:1-13 e 16:19-31.
O dinheiro pode se constituir em divindade, um ídolo.
Um ídolo fascina e requer adoração. Ele é servido e nele é depositada a confiança. Dele se espera uma vida com plena satisfação. Mas, o ídolo não cumpre as suas promessas. Ele não liberta, mas gera dependência e inquietação (Lc 12:34 e 21:34).
?Idolatria é a elevação de uma preocupação preliminar à ultimacidade. Algo essencialmente condicionado é considerado como incondicional. Algo essencialmente parcial é elevado à universalidade. E algo essencialmente finito é revestido de significado infinito. [...] Contradiz radicalmente os mandamentos bíblicos, e o primeiro critério teológico. [...] Nossa preocupação última é aquilo que determina nosso ser ou não-ser? (Paul Tillich, Teologia Sistemática).
Jesus não mandou que nos afastássemos do dinheiro. Mas, ele recomendou: ?Das riquezas de origem iníqua fazei amigos?. Ele nos ordena aproveitar o dinheiro para algo proveitoso! O dinheiro deve nos servir!
Como devemos interpretar esta recomendação de Jesus: ?Das riquezas de origem iníqua fazei amigos??
A verdadeira astúcia consiste no devido uso dos bens terrenos.
Deus nos confiou os bens para os administrarmos. O dinheiro está ligado a muitas injustiças, mesquinharias e perversidades. Mas, é com este dinheiro que devemos fazer amigos. Como? Perdoando dívidas, ajudando aos necessitados. ?Quem se compadece do pobre empresta ao Senhor, e este lhe paga o seu benefício? (Pv 19:17). O texto personifica o dinheiro como uma potência que escraviza a humanidade. Pois, é perante o dinheiro que os discípulos de Jesus precisam se mostrar astutos. Enquanto que a humanidade serve ao dinheiro, os discípulos de Jesus deve se servir do dinheiro!
Devemos ter amigos entre os nossos semelhantes, pois aquele que passa por esta existência sem dar atenção aos pobres, está juntando acusadores contra si para a eternidade. Aquele que ajuda e é prestativo, está conseguindo amigos para a eternidade. Todo o gesto praticado em nome de Jesus Cristo obtém o beneplácito de Deus para a eternidade. ?E quem der a beber ainda que seja um copo de água fria, a um destes pequeninos, por ser este meu discípulos, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão? (Mt 10:42). O texto de Lc 16:1-9 deve ser lido e refletido juntamente com Mt 25:31-46.
Desse modo, o dinheiro deixa de ser uma divindade. O ídolo foi reduzido a algarismos. Os cristãos devem dispor do dinheiro com liberdade! O dinheiro deve nos servir ? em empreendimentos beneficientes e restauradores de felicidade. Havendo dinheiro, devemos saber usá-lo. Não havendo dinheiro, não devemos nos desesperar.
É admirável a liberdade de Jesus. Ele se mostra soberano no relacionamento com as coisas do mundo. Nada deve nos escravizar, nem o dinheiro.
Jesus não está defendendo uma justificação através das obras. Seu ensinamento está muito bem explanado em 1 Tm 6:7.17-19. Também Lutero se ocupou com esta questão, transmitindo a sua conhecida diferenciação entre a árvore (a fé) e os frutos (as obras). E acrescentou que ?as obras não me tornam piedoso, mas elas indicam se eu sou piedoso, e confirmam se a fé está realmente em mim?. E Lutero prosseguiu: ?Portanto, não deves procurar o céu com alguma obra, mas pratica-as livremente, e a conseqüência, isto é, a vida eterna virá por si, sem a tua procura.? E com sabedoria Melanchton sintetizou: ?É a fé sozinha que justifica, mas a fé nunca está sozinha.?
Portanto, devemos aplicar o nosso dinheiro de tal modo que os pobres venham a ser nossos amigos. Devemos fazer amigos através das nossas riquezas, para que eles nos ?recebam nos tabernáculos eternos?. Esta expressão deve inspirar-se no repertório de imagens da Festa das Tendas (ou Tabernáculos). A Festa das Tendas era considerada uma prefiguração da era da salvação (Zc 14:16-21). O administrador astuto estava preocupado em fazer amigos que o ?acolham em suas casas? (vers. 4). A resposta está no vers. 9: Se formos generosos com o dinheiro, teremos depoimentos a nosso favor e seremos recebidos ?nos tabernáculos eternos?. O plural ?vos acolham? é uma expressão impessoal que designa Deus, evitando mencioná-lo como em Lc 6:38. Ao exercitarmos misericórdia junto aos pobres, eles nos abrirão as portas do Reino de Deus. Observemos Lc 12:33-34 e 11:41. Lutero declarou que os pobres, que vêm a ser nossos amigos mediante a riqueza bem administrada, são testemunhos a favor de nossa fé diante do juízo de Deus. E Lutero conclui: ?São testemunhos mais proveitosos do que os de São Pedro ou São Paulo.?
Por duas vezes aparece no texto o verbo ?receber?. No vers. 4 o sujeito do verbo são os devedores, que são induzidos a receber o administrador mais tarde em suas casas. No vers. 9, o sujeito do verbo é Deus. O judeu piedoso evitava pronunciar o nome de Deus, e por isso procurava circunscrevê-lo, recorrendo ao emprego da voz passiva do verbo. Portanto, os pobres podem ser um testemunho valiosíssimo a nosso favor, diante de Deus. Mas, quem permanece com a autoridade de pronunciar o veredicto decisivo sobre a nossa eternidade é Deus.
Nós devemos ser tão astutos quanto o foi o administrador infiel e desonesto. Ao se deparar com a realidade de que poderia perder o emprego, ele tratou de fazer amigos que depois o acolhessem ?em suas casas?. Para que não sejamos acusados pelos pobres na eternidade, devemos nos empenhar para que os mesmos se tornem nossos amigos. As riquezas, que nos foram confiadas, devem ser usadas com generosidade. Há apenas uma diferença: o administrador agiu por motivo egoísta.
?Queres ser um administrador inteligente? Então dá aquilo que tu não podes manter, para vires a receber aquilo que tu não podes perder? (Agostinho).
O teólogo Joachim Jeremias analisa esta parábola num contexto em que Jesus chama a atenção de seus ouvintes quanto à emergência da hora, e ressalta que ?o intervalo da graça está passando. Sem descansar, ele aponta para o caráter ameaçador da situação. Você acaso não enxerga que está na posição de acusado, que está diante do tribunal, e que a sua causa é desesperadora? É o último minuto para entrar em acordo com o seu adversário [...] aprenda com o administrador infiel! Ele não deixa as coisas correrem; age resolutamente, lá onde tudo está em jogo? (Teologia do Novo Testamento, p. 234).
Lucas 16:10-13
Os vers 9-13 apresentam sentenças soltas. O objetivo dessas sentenças é a interpretação da parábola precedente. Agora, Jesus transmite uma lição sobre os diversos aspectos do dinheiro.
?Os filhos do mundo são mais hábeis na sua própria geração ...? A exortação recebe uma determinação: a astúcia se evidencia no relacionamento com os semelhantes, no convívio. Os filhos do mundo são mais espertos no relacionamento entre si.
Os seguidores de Jesus deve se exercitar na astúcia, mas como filhos da luz. Os cristãos devem ser espertos, mas devem continuar sendo filhos da luz (Mt 10:16).
Devemos saber nos relacionar com as coisas grandes da maneira como com as pequenas. Aquele que é fiel no grande, também deve exercitar sua fidelidade em relação ao pequeno. A verdadeira fidelidade não precisa se fundamentar no tamanho da causa, mas na boa consciência e compromisso. A fidelidade se evidencia em qualquer oportunidade. Mas, a fidelidade em relação às coisas pequenas e insignificantes é de fato a maior.
Ser fiel com a riqueza significa aplicar de um modo justo os bens da vida terrena. O verdadeiro é o bem legítimo, que é confiado aos filhos da luz. O dinheiro é o teste de fidelidade dos discípulos.
No vers. 12 a riqueza é denominada de ?alheio? (estranho). Pois, a riqueza não é a propriedade dos seres humanos. O homem é apenas um mordomo dos bens terrenos. Como tal, o dinheiro tem apenas um valor relativo; o ?alheio? vem a ser idêntico às ?coisas pequenas? mencionadas no vers. 10.
Em contraposição encontram-se os bens espirituais, que Jesus designa de ?vossos? (vers. 12). Estes serão uma propriedade permanente para a eternidade. A contraposição mostra que os bens terrenos são depreciados em relação àquilo que o Evangelho traz.
Nosso posicionamento diante do dinheiro revela quem nós realmente somos. Até que ponto o dinheiro pode perturbar a nossa fidelidade a Deus e o nosso livre relacionamento com nosso semelhante? ?Quem não pode andar três passos, como ele deveria andar três milhas?? Vejamos o que aconteceu com Zaqueu (Lc 19:8).
Os bens terrenos, que são algo ?alheio? (estranho) para os filhos da luz, são-lhes confiados por Jesus, para que sejam administrados com esperteza e honestidade diante do Senhor. Quem não consegue ser fiel no pouco e se prende ao ?alheio?, evidencia-se como sendo em escravo do dinheiro.
Não podemos servir a dois patrões. Aqui, o verbo ?servir? tem um sentido cultual. É impossível servir a Deus e ao dinheiro. Diante de Deus, o dinheiro é um falso deus, um ídolo. Ele se torna uma ameaça para a integridade da pessoa. Em grego, dinheiro é Mamon, deus da fortuna. O deus das riquezas quer ser servido como rival de Deus (Is 65:11). A riqueza sempre se encontra em antagonismo ao verdadeiro e ao eterno. O termo ?fiel? designa uma conduta inteligente em relação à exigência de Deus; neste caso, de um modo específico diante da riqueza. O que se requer do administrador é que seja fiel (1 Cor 4:2). A avareza e o egoísmo podem bloquear o ingresso no Reino de Deus.
O bem terreno não é desprezível em si. Mas ele sempre comparado com algo superior e melhor. Diante do bem verdadeiro, o bem terreno não passa de coisa pequena e alheia.
Em todos os relacionamentos prevalece sempre a entrega à orientação do Senhor, também nas minúcias do viver diário (Dt 18:13).
?Como posso ser tão dorminhoco e preguiçoso quando se trata da salvação da minha alma, a ponto de Deus ter que me puxar pelos cabelos? Eu deveria me empenhar para ir rastejando até o céu, já que alguns caminham e até correm para o inferno? (Lutero).
Aquele que não utiliza os bens terrenos como Deus quer, denuncia sua falta de liberdade e sua situação de escravo das riquezas.