O Cordeiro da Páscoa

ImageO profano é o âmbito que se ocupa com os acontecimentos de todos os dias.
O sagrado lida com situações extraordinárias, cercando-as de mistério. Diante de acontecimentos extraordinários, as consciência religiosa procura celebrá-los.
Devido ao seu caráter extraordinário, a Páscoa comemora um acontecimento que passou para a esfera do sagrado. A celebração da páscoa judaica tem início na noite do dia 14 do mês Nisã, e se estende até o entardecer do dia 15. É lembrada então a libertação do Egito. No ano 30 e também no ano 33 d.C. o dia 14 de Nisã coincidiu com uma sexta-feira. Os pesquisadores concluem que um destes dois anos é o da crucificação de Jesus. O batismo de Jesus ocorreu então no ano 28 ou 29 d.C.
A refeição da páscoa é simples: cordeiro assado num espeto de ramo de romãzeira, em forma de cruz; pão sem fermento; ervas amargas e vinho tinto.
Ao saírem do Egito, os hebreus não dispunham de muito tempo (Êx 12:11). Na saída apressada do Egito, não houve tempo para o pão levedar.
O pão ázimo também era conhecido como o ?pão do tormento?. E este pão repartido expressava a união. As ervas lembravam a dura escravidão no Egito.
Durante a refeição pascal, os hebreus bebiam quatro taças transbordantes de vinho. Era uma festa de alegria e de esperança. Mulheres e crianças participavam, pois o êxodo foi um acontecimento que envolveu todo o povo de Deus. Todos os participantes bebem da mesma taça, expressando assim a unidade do povo. Os quatro cálices são uma alusão a Êx 6:6-7, que contém quatro verbos diferentes para se referir à libertação do Egito.
- ?eu vos retirarei? (do Egito)
o primeiro cálice celebra a Santificação.
É expressada a alegria pela libertação poderosa concedida por Javé.
- ?eu vos libertarei?
o segundo cálice celebra a Redenção.
São lembrados os momentos de dor e de humilhação.
- ?eu vos resgatarei?
o terceiro cálice é o da Bênção.
Os participantes bendizem a Javé.
- ?eu vos receberei? (por meu povo)
o quarto cálice expressa o louvor do povo que foi aceito por Deus.
Eram entoados Salmos do Hallel (SI 111 - 118).
Com esta celebração, o passado era lembrado como uma garantia para o futuro. A salvação não é só um acontecimento do passado, mas o agir salvífico de Deus torna-se realidade também no futuro, em perspectiva messiânica. O Deus libertador triunfou sobre os poderes do mundo, representados por faraó.
A ultima ceia de Jesus com os discípulos era uma refeição da páscoa judaica. Em Lc 22:17-20 é narrado que Jesus usou duas vezes o cálice. Assim, ele estabelece um paralelo entre o ritual antigo da páscoa judaico e a nova celebração da Eucaristia cristã.
Jesus aguardou com expectativa esta celebração (Lc 22:15). Os Evangelhos Sinópticos (Mt, Mc e Lc) narram que esta refeição ocorreu nas horas seguintes ao pôr-do-sol da quinta-feira, dia 14 de Nisã. Para os hebreus, o dia começa com o anoitecer.
O evangelista João, por sua vez, relata que no dia 14 de Nisã aconteceu a crucificação de Jesus. Observemos Jo 18.28 e 19:14. João não quer divergir dos sinópticos, mas quer testemunhar que Jesus foi crucificado na mesma hora em que os cordeiros pascais estavam sendo sacrificados no Templo. João quer nos transmitir que Jesus é o Cordeiro Pascal, que consumou seu sacrifício na cruz. Observemos também 1 Co 5:7-8 e percebemos que o evangelista João e o apóstolo Paulo souberam promover o encontro da realidade com o símbolo!
A idéia central da celebração da páscoa é a libertação. Mas a compreensão da páscoa passou por transformações e diferentes ênfases ao longo da história de Israel. Na época de Moisés, o povo tinha uma compreensão mais elementar da libertação. Os novos desafios fizeram com que o povo redimensionasse a noção de libertação. O Javista se ocupou com a historização da páscoa, o Deuteronômio deu-lhe uma dimensão nacional e o Escrito Sacerdotal sacralizou-a (observemos o Levítico).
Originalmente, a páscoa preservava a memória da libertação do Egito e a esperança de libertações futuras. O cordeiro era imolado e oferecido a Deus. Lembrava-se que o sangue, na porta das casas dos hebreus no Egito, tinha uma função protetora.
Quando o povo voltou do exílio na Babilônia, a influência sacerdotal era muito grande, e o sangue passou a ter uma conotação expiatória. O sangue, que protegeu os hebreus no Egito, passou a ter valor expiatório também para as gerações seguintes. Aqueles que participam da refeição pascal judaica, tornam-se participantes da libertação do Egito. O Cordeiro pascal tinha que ser adquirido no pátio do Templo, para que a expiação dos pecados fosse eficaz. Depois de adquirido, o Cordeiro era sacrificado no Templo, sendo todo o seu sangue ali derramado. Nenhum de seus ossos podia ser quebrado. Observemos Ex 12:46 em relação a Jo 19:33-36.
Na época de Jesus predominava esta interpretação sacerdotal, elaborada nos tempos de Esdras (450 a.C.) e escrita no Talmude. Celebrava-se a páscoa com o propósito de que as faltas cometidas serão apagadas por meio do sacrifício do Cordeiro.
Como se percebe, os sacerdotes tinham se apropriado da festa de libertação do povo. Pois, somente o Cordeiro adquirido no pátio do Templo podia efetivamente expiar e purificar os pecados. E assim a festa da libertação estava sendo controlada pelos sacerdotes. Desvirtuada de seu propósito, a festa se tornou em mais uma opressão para o povo. E esta opressão, exercida pelos profissionais do Templo, incomodou muito mais a Jesus do que a dominação dos romanos. A opressão dos sacerdotes era camuflada por motivos religiosos; o povo era explorado na sua busca pelo sagrado.
Jesus celebrou a festa com o propósito de destacar a proximidade do Reino de Deus. Ele não queria simplesmente repetir um ritual, mas celebrar uma festa de justiça e liberdade.
Nem os evangelistas e nem o apóstolo Paulo fazem menção de um Cordeiro como elemento de sacrifício. ?Na Ceia de Jesus os elementos são apenas pão e vinho. É a celebração simples dos pobres, dos que têm apenas o necessário para sobreviver.? (Júlio de Santa Ana)
A páscoa celebrada por Jesus foi uma festa fora do controle sacerdotal. O sacrifício não precisa ser administrado pelos sacerdotes. O sacrifício é o próprio Jesus.
Não se trata de uma repetição litúrgica, mas de um acontecimento histórico em que Jesus obedeceu integralmente à vontade do Pai. Com este sacrifício, o amor redentor de Deus alcança os pecadores
Tornando-se o Cordeiro do sacrifício, Jesus tirou do Templo a autoridade do controle, e devolveu ao povo a festa corno memória de libertação.
Jesus se despediu de seus amigos e acentuou o caráter escatológico da páscoa (Lc 22:14-18). À memória da libertação, Jesus acrescentou a proclamação do Reino. A libertação é um fato passado, mas também uma certeza no futuro. A libertação no futuro até vai suplantar a do passado.
A Antiga Aliança - entre Deus e o povo escolhido - foi selada com o sangue de novilhos sacrificados (Êx 24:3-8).
A Nova Aliança, anunciada através do profeta Jeremias (31:31-34). não foi estabelecida com sangue de touros e bodes (Hb 10:4), mas através do sangue do Cordeiro de Deus - sem defeito e sem mancha, como observamos em Lc 22:20 e Hb 9:15-26.
Assim corno aquele grupo de escravos no Egito experimentou libertação, também nós precisamos nos situar diante de nosso presente e nosso futuro com Deus!
 
 
 
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