Lá Vem o John Wayne de Revólver na Mão

Image“E olhei, e eis um cavalo amarelo e
o seu cavaleiro cujo nome era Morte.
E o Inferno o estava seguindo.”

(Apocalipse 6:8)


O meu medo se anuncia. Profetizo que vai acontecer com o mundo o que aconteceu com os índios norte americanos: John Wayne matou todos. Todos não: ele poupou uns poucos, que hoje são exibidos como troféus... Se vocês pensam que o povo norte americano votou no Bush estão redondamente enganados. O povo norte americano votou no John Wayne, seu símbolo mais amado: cara macho, com dois revólveres na mão, matando sozinho os bandidos e pondo uma centena de índios ferozes a correr. E aí ele sai gritando pelo campo coberto de cadáveres: “Iraq is free! Iraq is free!” Foi esse o grito que Bush deu na televisão quando Saddam caiu. Ele achou que os iraquianos iriam sair pelas ruas com bandeirinhas norte americanas...

É isso. O povo norte americano democraticamente reelegeu o Bush. Tinha de fazê-lo. Religioso. Segundo testemunho próprio, transmitido pela televisão, ele conversa diariamente com Jesus Cristo, que o informa das decisões divinas. Ao reelegê-lo o povo americano aprovou as mortes passadas, aprovou as mortes presentes, aprovou as mortes futuras. Um povo que resiste ao invasor estrangeiro é terrorista. Assim também pensavam os nazistas sobre os membros da resistência francesa, na França invadida. Morte aos terroristas. O povo americano decidiu. O povo unido jamais será vencido!

Terrorismo é o uso ilegítimo da violência para atingir fins políticos, ainda que essa violência seja dirigida contra inocentes. Aí eu me pergunto: Qual a diferença que existe entre o uso da violência pelo terrorismo e o uso da violência pelo Estado? Responder-me-ão os sociólogos, citando Max Weber, que “o Estado é uma comunidade humana que ( com sucesso ) reclama para si o monopólio do uso legítimo da força física sobre um dado território”. O ponto crucial está nessa expressão entre parêntesis – imagino que Max Weber a colocou posteriormente no manuscrito, depois de lê-lo...- “com sucesso”. Mas o que define esse “com sucesso”? É a força. Poderíamos, então, refrasear o dito dizendo que “o Estado é uma comunidade humana que, pela força, reclama para si o monopólio do uso legítimo da força...” Curto e grosso: a violência do mais violento é justa. É a força que diz a última palavra. Como disse Trotsky, “todo Estado é fundado sobre a força.” Os terroristas são aqueles que fazem uso da força sem que tenham sido bem sucedidos em estabelecer, com sucesso, o seu domínio sobre um determinado território. Não são um Estado.

Lewis Carroll, professor de matemática em Oxford, escrevia sobre política sob a forma de estórias infantis, pois conhecia o poder da Rainha para cortar-lhe legitimamente a cabeça. Assim, como quem não quer nada, ele inventou esse diálogo entre Alice e aquele cabeça de ovo chamado Humpty-Dumpty. Questão semântica. O uso das palavras. Já notaram que todas as questões políticas estão dependuradas em questões de linguagem? Aqueles que gritam slogans iguais pensam igual, votam igual. Como ovelhinhas de um rebanho que balem juntas. É nas palavras que o povo vota. Bush baliu “anti-terrorismo”. O povo baliu junto. Claro que terrorismo é ruim. Mas não se resolve um problema de unha encravada no pé cortando a perna. Seria melhor tirar o sapato apertado que produz a unha encravada. Qual é o nome do sapato apertado que produz a unha encravada? Garanto que nele não está escrito “made in Brazil”. Está escrito “made in USA”.

Humpty Dumpty usou uma palavra que não fazia sentido nessa frase: “Vou lhe dar uma glória de presente de aniversário?” Alice não entendeu: “Não sei o que você quer dizer com ‘glória’.” Humpty Dumpty explica: “É claro que você não sabe – até que o diga. Com ‘glória’ eu quero dizer ‘um par de sapatos novos’. Alice protesta: “Mas ‘glória’ não significa ‘um par de sapatos novos...” Humpty Dumpty retruca, num tom de deboche: “Quando eu uso uma palavra ela significa aquilo que eu quero que ela signifique, nem mais e nem menos.” Alice, que certamente tinha estudado filosofia da linguagem, contesta: “ A questão é se você pode fazer com que palavras signifiquem tantas coisas diferentes.” Humpty Dumpty, que não havia estudado filosofia da linguagem mas havia lido Maquiavel, dá então a resposta definitiva: “A questão é quem é que manda – isso é tudo.”

Aprenda isso: os fortes sempre dizem a verdade, mesmo quando estão mentindo. E os fracos dizem sempre a mentira, mesmo quando estão dizendo a verdade. Essa é a primeira lição a ser aprendida por aqueles que querem entender de política. Quem define o certo é aquele que tem o porrete maior. Quem disse isso foi Theodore Roosevelt, um dos mais cínicos expositores da política exterior norte americana: “Fale suavemente. Tenha sempre o porrete grande na sua mão. Você irá longe.” Os fortes são sempre justos.

No tempo de Theodore Roosevelt o “longe” era, especialmente, a América Latina, que os Estados Unidos sempre trataram como o seu quintal, com a Doutrina Monroe na boca e o porrete na mão. Agora o “longe” é o mundo todo. A Doutrina Monroe foi globalizada. O mundo inteiro é agora quintal dos Estados Unidos. Assim, os Estados Unidos têm o direito de atacar qualquer país “preventivamente”, desde que haja a suspeita de que nele se esconde uma ameaça ao poder norte americano. Assim começou a guerra do Iraque: com a suspeita de que Saddam estaria fabricando armas de destruição em massa. O único país, do meu conhecimento, que tem em estoque armas de destruição em massa, são os Estados Unidos. Isso, evidentemente, dá a nós, Brasil, o direito de atacá-los, para nos defendermos...

Eis o problema: “Que tribunal poderá colocar fim ao uso impune do poder do forte? Que tribunal de coelhos poderá julgar e condenar o tigre, colocando-o na jaula?”

Já se fizeram tentativas. A Liga das Nações, depois da Primeira Guerra Mundial, e a Organização das Nações Unidas foram criadas na esperança de que os paises, ao invés de usar a força para resolver suas diferenças, tratariam de resolvê-las nos termos de acordos de convivência pacífica, subscritos por todos. Assim, cada país teria de abrir mão dos seus desejos individuais e se submeter ao desejo coletivo, pois essa é a única forma de se evitar a guerra. Essas organizações se construíram sobre o pressuposto de que os homens são racionais e são capazes de substituir a violência unilateral pelos acordos universais.

Mas esse pressuposto é falso. Acordos só são possíveis entre iguais, quando há equilíbrio de poder. As ovelhas podem fazer acordos entre elas. Os lobos podem fazer acordos entre eles. Os tigres podem fazer acordos entre eles. Mas as ovelhas não devem fazer acordos com os lobos e os lobos não devem fazer acordos com os tigres. Quando o poder é desigual a vontade do mais forte prevalece sempre. Os tigres devoram os lobos dissidentes. Os lobos devoram as ovelhas dissidentes. As ovelhas devoram...

O poder dos Estados Unidos da América do Norte torna impossível uma ordem internacional. Bush matou a ONU. Os Estados Unidos mataram a ONU. A invasão do Iraque foi um ato unilateral de desrespeito arrogante aos acordos internacionais assinados. Como se dissesse: “Sou o mais forte! Quem me deterá?” Quem irá punir o tigre que se lança sobre a sua presa?

Numa entrevista publicada pela Folha de S. Paulo (19 de setembro, A 16) o jornalista Seymour Hersch diz o seguinte: “Eles não foram para o Iraque por causa do petróleo ou de Israel. Eles foram porque são utópicos. Você pode chamá-los de idealistas. Mas não há nada mais perigoso que idealistas com poder e guerra nas mãos e completamente errados sobre o mundo. Eles achavam que podiam invadir o país com 5.000 soldados e as forças especiais, jogar umas bombas, fincar umas bandeiras americanas e Saddam Hussein ia sair correndo e a democracia irá brotar como água do chão. Eles acreditavam nisso. Existe algo mais perigoso do que gente que não entende o mundo?”Milan Kundera, muitos anos antes já havia escrito coisa parecida: “Aqueles que pensam que os regimes comunistas da Europa Central são obra exclusiva de criminosos deixam na sombra uma verdade fundamental: os regimes criminosos não foram feitos por criminosos, mas por entusiastas convencidos de terem descoberto o único caminho para o paraíso. Defendiam corajosamente esse caminho, executando, por isso, centenas de pessoas. Mais tarde ficou claro que o paraíso não existia e que, portanto, os entusiastas eram assassinos.” O “poder” é um Deus estranho. Aqueles que dele bebem ficam iguais, ainda que as bandeiras sejam diferentes: democratas, de um lado, comunistas, do outro... Vale para a política mundial. Vale para a política do vilarejo. Tudo acaba. John Wayne morreu. Bush morrerá. O império americano terá um fim.
 
 
 
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