Ao tratar da Eucaristia estamos no coração do Evangelho e da vida que ele suscita na Igreja. A pergunta inicial que dirige nossa reflexão é: “de que modo a Eucaristia ilumina nossa compreensão do mistério da Igreja?” Ao tentarmos acentuar o mistério da Eucaristia e da Igreja estamos tentando falar do que não pode ser dito, do indizível, do inexplicável, daquilo que nem olhos viram, nem ouvidos ouviram e que é o próprio mistério do Deus presente.Alguns estudiosos do Novo Testamento perguntaram por que as alusões bíblicas à Eucaristia além de poucas, são indiretas e não muito claras. Bultmann e Kasemann deduziram que a ceia não tinha grande importância na vida das primeiras comunidades e que só começou a ganhar importância na medida em que diminuía a expectativa da parusia iminente. Assim, para eles, a celebração eucarística tornou-se uma espécie de substituto ou sucedâneo da parusia. A expectativa escatológica teria sido substituída por um rito proléptico que, de certo modo, resolvia o problema da frustração diante do não-retorno de Cristo.
Inclino-me, porém, a aceitar mais a hipótese de Jeremiias e Von Allmenn que explicam as reduzidas referências esparsas e pouco objetivas sobre a eucaristia apelando para a disciplina do arcano. Ou seja, se há poucas referências à Eucaristia nos escritos apostólicos, não é porque ela fosse negligenciada, mas porque não se falava dela aos de fora, e sobre ela se escrevia o mínimo possível. Isso suscitou até mesmo acusações de canibalismo por parte de pessoas de fora da igreja e que apenas ouviam dizer que os cristãos se reuniam para “comer o corpo e beber o sangue” de alguém.
De fato, a celebração eucarística é um mistério. Encerra um segredo do qual os iniciados partilham mas não explicam. Por isso, sem qualquer pretensão de explicar o inexplicável, quero apenas destacar três pontos (dentre muitos outros) que me parecem importante acentuar em nossa presente caminhada histórica:
1. A Eucaristia aguça o mistério da comunhão mística entre Cristo e a Igreja. Nós a celebramos “com Cristo, por Cristo e em Cristo”;
2. A Eucaristia esclarece o significado das marcas teológicas da Igreja;
3. A Eucaristia revela aos olhos da fé a contínua transformação que Deus opera no mundo e em nós pelos efeitos do sacrifício de Cristo.
1. A Eucaristia enfatiza o mistério da comunhão mística entre Cristo e a Igreja.
Esclareço, de antemão, que sempre que me refiro à Igreja, tenho em mente uma compreensão orgânica e não institucional. Estou falando do “corpo de Cristo” e não propriamente de nossas instituições.
A Eucaristia é um mistério de comunhão dupla – une a Igreja a Cristo e os fiéis entre si. É comunhão “com Cristo” e “em Cristo” e por isso a chamamos também “Santa Comunhão”. É o mistério ao qual São Paulo se refere quando afirma “o pão que partimos é a comunhão do Corpo de Cristo, e o Cálice que aençoamos é a comunhão do Sangue de Cristo, pois nós, embora muitos, somos um só corpo” (1 Co 10.17 e LOC, p. 64).
Uma das formas das Escrituras Sagradas acentuarem o mistério da comunhão entre Deus e seu povo é com a metáfora nupcial. Ela procede do Antigo Testamento (p.ex., o profeta Oséias) e recebe reforço no Novo Testamento com a parábola das Bodas (Mt 22.2) onde o Reino de Deus é comparado a uma festa de casamento. A carta aos Efésios também utilizará essa metáfora posteriormente comparando a relação entre marido e esposa, Cristo e a Igreja e concluirá dizendo: “grande é esse mistério, mas eu me refiro a Cristo e à Igreja”.
Atualmente a utilização dessa metáfora tem caído em desuso devido às pertinentes críticas da teologia feminista. Porém, ela faz parte da tradição de Israel e da Igreja e precisamos pensar como seria possível recuperar o poder dessa metáfora evitando os abusos do patriarcalismo e do androcentrismo.
A comunhão mística da Igreja “com Cristo” suscita também a comunhão “em Cristo”, ou seja, une as pessoas que estão “com Cristo” em um elo de intimidade “em Cristo” porque comem e bebem o mesmo alimento, seu corpo e seu sangue. Daí a importância do símbolo da mesa e da comensalidade. Nas culturas antigas, especialmente nas culturas orientais, sentar-se com alguém à mesma mesa e partilhar a mesma refeição em um mesmo ambiente era sinal de muita intimidade. Para nós, é um pouco difícil compreender isso devido à cultura fast-food, aos restaurantes que vendem almoços por quilo. Por isso Paulo corrige com veemência a Igreja de Corinto que transformava a refeição em um banquete para poucos. O apóstolo chega a firmar “quando vocês se reúnem, não é a ceita do Senhor que vocês comem” (I Co 11.20).
Eis um importante ponto para nossa meditação e para trabalhar com nossas comunidades: se nossa eucaristia não suscita a certeza da comunhão “com Cristo” e não nos insere numa prática efetiva de comunhão “em Cristo”, é sinal de que ainda não interiorizamos suficientemente seu mistério. Se participamos dominicalmente da eucaristia, mas nossa vida não muda e a vida da comunidade também não, cabe perguntar se o que celebramos é, de fato, a Ceia do Senhor ou uma deturpação fast-food.
2. A Eucaristia esclarece o significado das marcas teológicas da Igreja
Um dos temas chaves da eclesiologia é o estudo do que se convencionou chamar “marcas teológicas” da Igreja, derivadas do Credo Apostólico: unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade. Na compreensão anglicana, a abordagem dessas “marcas” ou é feita a partir do mistério do próprio Deus. A Igreja é una porque Deus é uno; é santa porque Deus é santo, etc. A celebração eucarística nos auxilia a compreender melhor essas marcas que identificam a Igreja.
A Eucaristia acentua, por exemplo, que há um só corpo – o corpo de Cristo, assim como há uma só fé, um só batismo. Por isso a mesa não é propriedade de nenhuma instituição eclesiástica e isso nos leva a praticar o salutar hábito da hospitalidade eucarística. Nós estamos sempre reafirmando que a mesa do Senhor não pertence a nenhuma instituição religiosa. Ela não é a mesa dos anglicanos ou dos católicos ou dos presbiterianos. É mesa do Senhor ! Ele é o celebrante, o anfitrião, e nós, seu povo, somos os convidados.
Isso só pode ser compreendido quando percebemos que a eucaristia não é invenção da igreja. A Igreja não inventou a eucaristia e nenhuma instituição religiosa detém seus direitos. A Igreja a recebeu do Senhor como dom – “eu recebi do Senhor aquilo que vos transmiti...” (I Co 11.23). É significativo que São Paulo após falar da Ceia passe a destacar a unidade orgânica da Igreja, corpo de Cristo – “o corpo é um só, mas tem muitos membros; e no entanto, apesar de serem muitos, todos os membros do corpo formam um só corpo. Assim acontece também com Cristo. Pois todos fomos batizados num só Espírito para sermos um só corpo (...) e todos bebemos de um só Espírito (...) Ora, vocês são o corpo de Cristo” (I Co 12.11-14,27).
A Eucaristia também ilumina a dimensão da santidade da Igreja. Embora seus elementos-padrão sejam também os elementos mais típicos e básicos de todas as culturas – pão e vinho – eles não são apenas isso. Não são “apenas símbolos’. São muito mais do que isso. Por isso nós anglicanos reservamos cuidado especial para com os elementos consagrados. São os alimentos comuns do povo, mas são também separados, santificados através da epíclese. Quando compreendemos o valor da santificação dos elementos eucarísticos, compreendemos também que aquela mesa santificada dá sentido a todas as outras mesas das quais participamos. A eucaristia nos ajuda a compreender que somos povo santo, não apenas no sentido moral da palavra como é comum compreender, mas no pleno sentido de ser povo “separado”, povo de Deus, chamado a dar testemunho de um reino no qual não há exclusão e no qual todas as pessoas podem ser saciadas.
A Eucaristia ilumina ainda a compreensão da catolicidade da Igreja. Quando a celebramos estamos em comunhão com gerações passadas que nos anteceram, a grande nuvem de testemunhas (Hebreus 11) e com irmãos e irmãs em todas as partes do mundo, por mais diferentes que sejam. O memorial dos falecidos (“lembra-te dos que morreram na paz de Cristo...”) e a lembrança dos fiéis que estão geograficamente distantes de nós e que nunca conheceremos nos ajuda a perceber que a comunidade não é um gueto fechado.
É por isso também que ensinamos que não há várias eucaristias, mas uma só em todas as partes do mundo. O bispo que é o elo da catolicidade, autoriza e legitima seus presbíteros a presidir a celebração, e ele assim o faz porque também recebeu essa delegação de outros. Mas trata-se da mesma comunhão, seja ela celebrada em uma catedral luxuosa com linhos caros e altar revestido de ouro ou em uma capela pobre com pratos rústicos e copos de vidro. Esses detalhes não importam. É a mesa do Senhor !
Finalmente, a eucaristia dinamiza a dimensão apostólica, missionária da igreja. Tal como rezamos na oração eucarística A de nosso LOC, “faze com que nos aproximemos desta mesa para o serviço e não apenas para a satisfação pessoal”. De fato, a celebração eucaristia não é um rito que se esgota na satisfação das necessidades espirituais de quem se aproxima dela. Na comunhão eucarística temos a visão antecipada de um mundo transformado e isso deve nos impulsionar a agir de acordo com essa visão. É a antecipação do banquete nupcial. Em função dele, pedimos na oração eucarística A: “Permite que a graça desta santa Comunhão nos torne um só corpo e um só espírito em Cristo, para que trabalhemos na transformação dos reinos deste mundo no Reino de nosso Senhor Jesus Cristo”.
É significativo que as narrativas sobre o milagre da multiplicação dos pães nos evangelhos (Mt 14, Mc 6, Lc 9) aconteça imediatamente após o relato do banquete promovido por Herodes e que culminou na morte de João Batista. Ali temos um banquete “dos reinos deste mundo”, mas na seqüência, com a multiplicação dos pães,vemos outro banquete, o banquete “do Reino de nosso Senhor Jesus Cristo” que culmina em vida para todos e não em morte.
Então na Eucaristia somos alimentados e esclarecidos a contemplar vislumbres mesmo que num curto espaço de tempo, do que pode ser o mundo, de qual o propósito de Deus para o mundo e da missão da Igreja em viver e testemunhar esse evangelho.
3. A Eucaristia revela aos olhos da fé a contínua transformação que Deus está operando no mundo e em nós
“Não fixamos nosso olhar nas coisas visíveis, mas nas invisíveis; porque as coisas visíveis são passageiras, mas as invisíveis são eternas” (II Co 4.18). Essas palavras do apóstolo Paulo são de extrema profundidade espiritual. Elas nos dizem que devemos estar com nossa sensibilidade aguçada para contemplar com os olhos da fé certas realidades espirituais que não se tornam visíveis enquanto nossos olhos estiverem embaçados com as coisas terrenas.
Teilhard de Chardin relata, por exemplo, suas impressões perante a hósti dizendo que percebia ela se desdobrando luminosamente num fluxo de brancura que o invadia e que, à medida que se irradiava penetrava todas as coisas e o próprio universo a ponto de o mundo se tornar incandescente e parecido com uma grande hóstia.
De fato, durante a celebração eucarística somos convidados a romper o véu das coisas terrenas e contemplar a transformação que Deus está operando em nós e em sua criação. Por isso ousamos repetir em nossas celebrações que, durante aquele momento, por menor que seja nossa capela e o número de participantes, estamos reunidos “com os anjos, arcanjos e com toda a multidão celestial que não cessam de proclamar tua Glória”. Para a pessoa que não crê isso pode parecer loucura. De fato, é a loucura de Deus, só visível quando cai o véu que nos cega e nos impede de contemplar a grandeza do seu amor e a efetividade de suas obras.
Boa parte das divisões teológicas em torno da eucaristia aconteceram porque os teólogos tentaram compreendê-la apenas com os olhos do intelecto e não com os olhos da fé. O olhar estava fixado no que é visível e passageiro e não no que é invisível e eterno. Por isso muito papel foi gasto falando sobre transubstanciação, consubstanciação, memorial, concomitância, etc. Se é assim que olhamos a eucaristia, não estamos vendo o invisível. Daí a pertinência de nossa súplica na oração eucarística A: “Abre os nossos olhos para que vejamos tua mão agindo no mundo que nos cerca”.
Os elementos eucarísticos consagrados pelo Espírito revelam que o mesmo Espírito está preservando e transformando sua criação rumo à plenitude, em Cristo. Está transformando a nós mesmos pelo sacrifício de Cristo. Por isso a eucaristia é oferta de nós mesmos no altar. A oferenda do pão e do vinho é sinal da oferenda de todos nós que ali estamos, de tudo o que somos, porque sabemos que nós, corpo de Cristo, ainda estamos sendo formados e transformados. A Igreja não está pronta e acabada. Ela está se transformando no corpo glorioso e sem mácula, que é seu destino final.
Quisera Deus que as pessoas ordenadas ao Sagrado ministério e responsáveis por comunidades sejam elas grandes ou pequenas, possam edificar o povo que se reúne em torno do altar para que compreendam a profundidade desses santos mistérios. Desse modo, certamente a celebração eucarística em nossas comunidades seria muito revitalizada.