Falar sobre a missão diaconal da Igreja é simplesmente tocar em um dos pontos mais fundamentais de sua própria existência. Se a Igreja não vive para ser-vir, ela não serve para viver. Lamentavelmente a Igreja tem negligenciado sua mis-são, deixando de se encarnar no mundo, de sofrer com e pelo mundo, e de diferen-ciar-se das demais sociedades do mundo. A base da missão diaconal da Igreja é obra que Cristo realizou, por meio de sua encarnação, morte e ressurreição. É fun-damental que ela encarne a condição de servo, que viva dentro desse ideal, para que se faça útil na construção de um mundo melhor e, ao mesmo tempo, seja agen-te de transformação histórica.A Igreja precisa assumir a forma de servo, devendo tudo o mais subordinar-se a tal propósito. A Igreja foi criada por Deus para servir. Ela é de Cristo e continua a ser a encarnação de Cristo no mundo, devendo, por isso mesmo, lembrar-se de que Ele não veio para ser servido, mas para servir. A Igreja corre o risco de buscar do-mínio ao invés de buscar a comunicação do poder do alto. O exemplo de Jesus é decisivo em tudo. Ao ser tentado no deserto, foi-lhe sugerido o uso do poder, poder econômico para matar a fome das multidões miseráveis, poder sensacionalista para impressionar as massas, poder político para dominar, no tempo, os reinos do mun-do. Mais tarde Ele mesmo declara que poderia dispor de poderes tremendos para fazer o que a espada dos homens têm feito. Entretanto, não viera Ele para dominar, pela força, mas conquistá-los pelo amor. O ideal da Igreja não é servir os homens dominando, mas servir sofrendo, como o próprio Cristo (Jo. 13.1ss; Fip.2.5-11; Is. 53). O poder da Igreja tem que ser o poder de servir, dado pelo poder do Espírito Santo.
Eis algumas marcas de uma igreja que vive a integralidade do ministério dia-conal:
1 - SUA BASE É BÍBLICA
Era muito comum considerar a Igreja como uma organização meramente hu-mana, temporal, explicável pela sociologia, não obstante ser agremiação religiosa. Temos que admitir que há tipos defeituosos de comunidades cristãs, tais como o monástico e o sectário, representando os extremos tangenciais católico e protestan-te. A Igreja não é e não pode ser mera sociedade civil e muito menos simples clube de homens bem intencionados ou bem sucedidos. A Igreja pode ser estudada socio-logicamente, mas de modo algum existem nela apenas categorias sociológicas. Há nela o elemento sobrenatural de Cristo e seu Espírito Santo. Por isso ela continua a obra de Cristo e deve ser o que Cristo foi. Ele, como o Servo de Jeová, criou uma Igreja cujo objetivo neste mundo é servir os propósitos de Deus, de redenção para a humanidade. Portanto, para a Igreja realizar o ideal de ser serva de Cristo, ela pre-cisa aprofundar suas raízes no Antigo e no Novo Testamento, enchendo-se do ver-dadeiro conteúdo bíblico, porque de outra forma será mera coletividade religiosa e não o órgão divino de ação redentora no mundo.
2 - SUA AÇÃO É PRÁTICA E DINÂMICA
Em Atos 1.8 Jesus Cristo afirmou que a Igreja receberia o poder do Espírito Santo e que, portanto, sua ação seria altamente dinâmica, poderosa e repleta de autoridade espiritual. Ou seja, a força vital que comunica energia à Igreja é o Espíri-to Santo.
É inegável que a igreja precisa de organização. Ela tem se beneficiado muito com as novas técnicas desse novo tempo. Contudo, ela pode chegar ao ponto de ser sutilmente desviada de sua finalidade vital, prejudicando-se irreparavelmente na sua essência de valor fundamental. Não é a organização que faz a Igreja, mas a vi-da de Deus pulsando nela. Sempre que a organização se torna um fim em si mesmo a ação da Igreja deixa de ser dinâmica para ser mecânica, e, funciona, em grande parte, como outras comunidades de estrutura sociológica. Muitas vezes, por amor à forma, sacrifica-se a essência, a vida, o poder. A Igreja, serva de Cristo, busca em primeiro lugar os recursos próprios e indispensáveis ao seu dinamismo. Esses não se encontram exclusivamente nos recursos humanos e temporais, mas em Deus, em Sua Palavra, em Cristo e no Espírito, sem os quais a Igreja não será a Igreja de Cristo, instrumento de sua ação e do seu serviço no mundo.
Romanos 12.2 nos fala do equilíbrio próprio e necessário entre o mundo tem-poral e o espiritual. A igreja tem de estar no mundo, contudo, ela não é do mundo. Uma Igreja separada do mundo esqueceu-se da realidade da encarnação. Por outro lado, uma Igreja só do mundo ignora que nossa ?pátria está nos céus?. Temos de vi-ver a nova vida de Cristo, mas, à sua semelhança, devemos nos encarnar no mun-do, para sermos úteis, servindo como sal da terra e luz do mundo.
Ter tabernáculos no alto da montanha pode ser agradável, mas é na planície que estão os necessitados à espera do auxílio da Igreja.
Devemos compreender que a Igreja não pode ser do mundo. A identificação com o mundo não pode ser para considerá-lo o ideal último, copiando os seus pro-cessos e valores. A fé não pode ser simples expediente utilitário e egoísta, com a qual se procura vantagem imediata.
3 - ÊNFASE NO MINISTÉRIO LAICAL DA IGREJA
A ação da Igreja não pode estar na dependência exclusiva do trabalho do mi-nistério regular. Ela depende muito do ministério leigo. Cada vez mais devemos destacar o ministério laical do Corpo de Cristo. Em 1948 a Assembléia de Amsterdã declarava: ?Somente pelo testemunho dos leigos ativos e espiritualmente inte-ligentes pode a Igreja enfrentar o moderno mundo em suas perplexidades e situações vitais. Desde que um dos fatos mais impressionantes dos tempos modernos é que milhões de pessoas consideram a Igreja como flutuando aci-ma do mundo moderno e inteiramente fora de contacto com ele, a importância deste simples pronunciamento não pode ser facilmente sobrestimado?.
Temos de reconhecer que os movimentos pentecostal e neopentecostal têm usado com muita intensidade a força leiga no trabalho de expansão do Reino de Deus. Essa experiência, ainda que não suficientemente desenvolvida, é notável.
Pensando na força leiga da Igreja, podemos citar Amós, por exemplo, que não era profeta, nem filho de profeta. Ele foi um grande leigo.
Emil Brunner afirma que ?uma religião do clero é sempre uma heresia?. Para ele ?o bom ministro não é aquele que deseja ser o centro da atenção e realizador de tudo. Sua preocupação será, antes de tudo, a de ser agente catalítico, estimulan-do os leigos para a atividade, ficando perfeitamente satisfeito se sua contribuição não for percebida ou conhecida. O melhor ministro ou líder faz-se a si mesmo pro-gressivamente desnecessário?.
Kierkegaard dizia que uma Igreja que presta culto a Deus não pode considerar o ministro como ator e o auditório como espectador. Deus é o espectador, os mem-bros da Igreja são os atores e o ministro é aquele que estimula e, num certo sentido, dirige a ação de todos.
Na Igreja do Senhor Jesus inexiste divisão entre os ativos e passivos, atuantes e não atuantes. A ação é da Igreja toda. Todos devem estar agindo, cumprindo a parte que lhe cabe no Corpo de Cristo (I Cor. 12). Falta qualquer base bíblica para distinguir entre clero e leigo, vocação religiosa e secular. No Novo Testamento a pa-lavra CLERO, em vez de referir-se a uma ordem especial, dirige-se a todos os cris-tãos, podendo dizer-se o mesmo a respeito da palavra leigo (I Pe. 2.9).
Lamentavelmente o homem foi criando hierarquias eclesiásticas, onde, ante a suspeita de que algumas coisas eram demasiadamente santas, alguns conhecimen-tos demasiado altos, alguns serviços demasiado espirituais para estarem aos cui-dados de qualquer pessoa, surgiu a ordem especial, o clero, o sacerdócio, em dis-tinção dos demais, os leigos, estes como cristãos de segunda categoria. Daí resul-tou separar-se a vocação religiosa das demais. Os reformadores reagiram fortemen-te contra isso, surgindo a importante afirmação do sacerdócio universal de todos os crentes. Ou seja, o acesso a Deus é direto, pelo único Mediador, sendo a responsa-bilidade ética uma só para todos, com a impossibilidade de padrões duplos de mo-ral. Sendo assim, a Comunidade dos salvos, dentro da liberdade do Espírito, age sempre sem desfalecimento, para servir o mundo em nome de Deus e com os re-cursos inspirados por Ele e postos à nossa disposição.
4 - SUA DIMENSÃO DIACONAL IMPLICA EM SUBMISSÃO AO SEU SE-NHOR
Todas as figuras usadas pelo N.T. nos indicam tal condição da Igreja. A Igreja é o Corpo, Cristo é a cabeça. É a cabeça que dirige o Corpo e todas as suas fun-ções. A figura do edifício, do templo e do seu fundamento não deixa de sugerir a mesma coisa. É impossível edificar-se um templo no ar, à parte de sólidas funda-ções. O edifício do templo se firma nos alicerces e deles depende para sua perma-nência. Se a Igreja, por outro lado, é a noiva de Cristo, novamente esta figura nos fala de subordinação, pois o cabeça do lar é a parte ativa, deliberativa.
A Igreja existe como criação divina. Deus é que lhe dá existência real. Ela re-sulta da obra completa de Deus em Cristo e existe como o domínio de Cristo na ter-ra e a comunhão criada pelo Espírito Santo.
Quando falamos de uma Igreja submissa e não independente, queremos dizer que tal Igreja procura conhecer a vontade de seu Senhor para depois procurar pô-la em prática. Que é, então, o que Cristo quer? É razoável dizer-se que Ele quer, pri-meiramente, COMUNHÃO, vertical e horizontal, com Deus e com os homens. Ver-dadeira submissão a Cristo significa incondicional relação de amor a Deus e amor ao próximo. Cristo quer que a Sua Igreja seja também DIACONAL. Cristo quer tam-bém SANTIDADE. Ele também quer FIDELIDADE.
Rev. Marcos A. F. de Azevedo é pastor da Igreja Presbiteriana em Mata da Praia-ES,Doutor em Teologia e professor de Ética Cristã e Teologia Sistemática na Faculdade Unida de Vitória-ES .