Desafios para o Ensino da Teologia Latino-americana

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O tema central de uma Semana de Atualização Teológica em um Seminário Evangélico no ano de 2002 perguntava pelas atuais perspectivas do ensino de teologia latino-americana em seminários evangélicos. O presente texto tenta responder a essa preocupação, avaliando como se dá o desenvolvimento dessa disciplina, a suposta “crise da Teologia da Libertação”, as possibilidades de renovação para a mesma em diversos âmbitos, com destaque para o mundo ecumênico e terminando pistas e conselhos pastorais para jovens seminaristas. O autor defende que a Teologia da Libertação não se extinguiu, mas se ramificou, amadureceu e ainda tem muito a oferecer para as novas gerações de teólogos/as brasileiros/as.


Introdução

A Teologia da Libertação (TdL) é parte integrante de minha formação teológica. Fui muito enriquecido quando fazia o curso de graduação, sobretudo pela hermenêutica da suspeita e a interpretação bíblica na ótica dos pobres, dos oprimidos e dos que ficaram à margem da sociedade, tal como Jesus. Tive a oportunidade de lecionar a disciplina de Teologia da Libertação em alguns seminários, mas quando comecei minha carreira docente, a TdL estava exatamente iniciando sua fase de revisão, na época da queda do muro de Berlim e do fim dos modelos de governo socialistas e comunistas na Europa Oriental. Portanto, não falo a vocês propriamente como um teólogo da libertação, mas como alguém que reconhece seu valor em minha formação. Desse modo, pretendo desenvolver aqui algumas idéias reconhecendo a importância da TdL, mas ao mesmo tempo pontuando alguns desafios impostos pelo atual contexto.

A Teologia da Libertação não nasceu nos gabinetes das grandes faculdades teológicas européias ou norte-americanas, mas na experiência de luta pela sobrevivência na América Latina. Essa resistência, inspirada pela fé, levou algumas pessoas a tentar compreender a fonte dessa fé e a se identificar com processos semelhantes narrados nas escrituras sagradas cristãs. Desse modo, a TdL colocou no centro de suas preocupações a prática de libertação a partir da tradição do Êxodo, dos profetas populares e de Jesus, e não tanto a clareza nas definições dogmáticas. Assim, sempre deu mais importância à ortopraxia que à ortodoxia. Chamou a atenção dos cristãos do primeiro mundo para a miséria e exclusão sofridas pela maioria dos seres humanos e denunciou os pressupostos ideológicos de boa parte das teologias do primeiro mundo, não apenas as de nítida inspiração conservadora ou carismática, mas também as tidas como “liberais”. Preocupada com uma questão não prioritariamente doutrinária, mas prática - a própria vida – acabou se tornando a mais ecumênica de todas as teologias recentes. Católicos e protestantes de diferentes formações penduraram seus pressupostos e armaduras e puderam se encontrar e trabalhar juntos em torno de um ideal bem mais digno do que a defesa institucional. Acabou, por isso, incomodando setores do Vaticano e dos centros ideológicos protestantes. A partir daí, a TdL obrigou as demais correntes teológicas a questionarem sua relevância social. Ou seja, não basta que as teologias sejam ortodoxas, que seus argumentos internos sejam bem trabalhados ou sua relevância dialogal com a sociedade secular sejam firmes. As teologias devem estar a serviço do plano de Deus, e não do orgulho dogmático ou sistemático ou da legitimação institucional. Portanto, a Teologia da Libertação acabou revelando-se, primeiramente uma iniciativa com preocupações éticas e pastorais e só num segundo momento, se revelaram as preocupações ditas “dogmáticas” ou “sistemáticas”.

Apesar disso tudo, afirma-se atualmente que a Teologia da Libertação chegou ao fim ou que está em crise. De fato, por um lado, os ânimos se arrefeceram bastante. As Comunidades Eclesiais de Base se enfraqueceram e as utopias sociais, embora não tenham morrido, encontram-se em nítido estado de sonolência, adormecidas à espera de um beijo que as desperte. Porém, a libertação ainda não aconteceu e, ao contrário, a opressão econômica e a exclusão social aumentam na América Latina e em outros lugares. Desse modo, ao invés de dizer que a TdL chegou ao fim, é preferível dizer que aquele momento inicial da TdL passou e que agora ela amadureceu e se ramificou em vários desdobramentos que oferecem outras possibilidades de trabalho para os/as novos/as pastores/as e teólogos/as em nosso continente.

Naturalmente, como todo movimento vivo, a TdL tem se preocupado em identificar os novos desafios do momento em que vivemos e apresentar respostas teológicas e pastorais adequadas. No âmbito acadêmico, a partir dos anos oitenta alguns teólogos da libertação começaram a perceber que a opressão tem várias faces, e que a luta contra a opressão sócio-econômica era apenas uma delas. Essa percepção levou a uma ampliação do leque das preocupações da TdL, principalmente quando o conceito “excluídos” toma o lugar do conceito “pobre”. Nos primeiros vinte anos da TdL o lema era “opção preferencial pelos pobres”. De repente, no início dos anos noventa emerge o conceito de excluídos (que abrange as opressões culturais e levanta os direitos das mulheres, das culturas negras e indígenas, migrantes, dos grupos GLS etc). Essa ampliação das preocupações causou, ao mesmo tempo a primeira crise interna. Alguns dos que defendiam o conceito “excluídos” diziam que o conceito “pobre” era muito reducionista, uma vez que há opressões que não são apenas de natureza econômica. Porém, à medida que o conceito “excluídos” substituiu o conceito “pobre”, alguns teólogos da libertação mais antigos reagiram, alertando para uma infiltração burguesa na teologia da libertação que retirava a preocupação para com os pobres.

Essa tensão não foi negativa, pois proporcionou um amadurecimento na teologia da libertação, em pelo menos duas áreas. Por um lado, os teólogos mais preocupados com a dimensão econômica (Franz Hinkelammert, Hugo Assmann, Julio de Santa Ana e, mais recentemente, Jung Mo Sung) passaram a dedicar muita atenção a essa área e produziram obras preciosas e de qualidade que ainda são pouco conhecidas na maioria dos seminários evangélicos. Hoje percebe-se melhor os fatores que causam a pobreza e a importância de se pensar em soluções globais para problemas globais. Cada vez mais me convenço de que essa é uma área que merece muita atenção. Trata-se de um grande desafio a todos que se interessam por pensar os problemas econômicos e buscar alternativas solidárias capazes de enfrentar e exorcizar os principados e potestades que dominam a economia mundial. Por parte daqueles que insistiam no conceito de “excluídos” e que eram chamados “burguesia da libertação”, muita coisa boa também surgiu, especificamente no que se refere à pastoral libertadora da classe-média e à consciência de que a libertação deve alcançar todos, não apenas os oprimidos, mas também os opressores ou os que se beneficiam da opressão.

Diante dessa situação, meu objetivo nesta palestra é bastante simples. Pensando no tema que vocês me propuseram: “Desafios da teologia latino-americana para nossos dias”, pretendo esboçar um panorama de como vejo a situação do estudo da teologia, particularmente no Brasil. Não pretendo falar em termos de toda a América Latina, porque o tempo não nos permitiria. Além disso, não vou lhes propor um roteiro, mas apenas compartilhar o modo como eu mesmo encaro os desafios teológicos para nosso tempo. Ao esboçar esse panorama estarei também apontando para as fontes onde percebo sinais renovadores para a teologia em nosso país. Também quero propor algumas possíveis pontes entre a teologia latino-americana, que não pode perder de vistas nossas preocupações imediatas, mas também não pode se isolar num provincianismo e fechar as costas para tudo o que acontece de positivo no hemisfério norte. Ou seja, para mim, o grande desafio atual é estabelecer pontes entre o contexto da pós-modernidade e a teologia da libertação.


I - A situação da teologia no Brasil

1. No âmbito católico-romano

Após o Concílio Vaticano I houve uma grande efervescência na teologia católica brasileira. Porém, a partir do papado de João Paulo II em 1978, gradativamente essa teologia começou a ser vigiada e seus representantes, perseguidos. O símbolo maior disso se deu quando no início dos anos oitenta, Leonardo Boff foi condenado a um tempo de silêncio obsequioso por causa do livro “Igreja, Carisma e Poder”, uma avaliação crítica da estrutura eclesiástica Católica Romana. Aos poucos, as instâncias de poder do Vaticano conseguiram minar também o trabalho das Comunidades Eclesiais de Base, fechar ou “reorganizar” seminários, dividir dioceses a fim de enfraquecer os movimentos mais críticos (como aconteceu na Arquidiocese de São Paulo) e silenciar teólogos. Em contrapartida, o Vaticano apoiou movimentos mais conservadores e pouco-críticos, destinados a atrair pessoas de volta à Igreja, o que tem conseguido com relativo sucesso através das missas-shows do Padre Marcelo, dos movimentos de renovação carismática e de pastorais ou movimentos voltados para a classe-média, como é o caso dos Focolares, Encontros de Casais com Cristo, etc. Alguns desses movimentos são apoiados financeiramente por grupos católicos extremamente conservadores. Atualmente, predomina nos principais centros de formação, uma orientação teológica atrelada às linhas atuais do Vaticano, estabelecidas no papado de João Paulo II. Boa parte dos atuais seminaristas e futuros padres da Igreja Católica Romana pouco conhecem dos fundamentos teóricos e metodológicos da TdL.

Sinais de renovação teológica no âmbito do catolicismo romano só são vistos em cursos organizados por ONGs e movimentos internos ainda pouco expressivos ou grupos ecumênicos como o CESEP e CEBI que, por não estarem atrelados diretamente à hierarquia romana, têm um pouco mais de liberdade de ação, embora lhe faltem recursos financeiros e pontes de acesso ao povo. Não vejo, atualmente no catolicismo romano (ao menos em suas estruturas), sinais muito visíveis de fortalecimento de uma teologia crítica e diferente da que aí está, pois toda orientação teológica do Vaticano atualmente visa o fortalecimento da Igreja Católica Romana enquanto instituição. É claro que isso tudo pode mudar, de acordo com as orientações que emanarão do Vaticano após a eleição do sucessor de João Paulo II.


2. No âmbito protestante tradicional

A teologia feita nas Igrejas protestantes tradicionais do Brasil continua sendo herdeira da teologia dos missionários que trouxeram o protestantismo ao nosso país. Trata-se de uma teologia pouco aberta às relações ecumênicas, centrada no fortalecimento da instituição eclesiástica, de forte ênfase conversionista recheada por uma densa camada de pietismo. Essa teologia sempre foi marcada muito mais pela repetição dos grandes manuais interpretativos dos líderes da Reforma (sobretudo aqueles surgidos nos seminários norte-americanos conservadores). Nos anos 60 e 70 surgiu um bom grupo de teólogos dispostos a sacudir um pouco as igrejas protestantes tradicionais de sua letargia. Porém, tal como aconteceu no catolicismo romano, as igrejas protestantes tradicionais, conseguiram afastar essas vozes mais críticas e progressistas, que acabaram se refugiando em universidades ou migrando para outras atividades. Ocorre, porém, que os anos 80 e 90 trouxeram às igrejas protestantes tradicionais o impacto do movimento carismático, especialmente em sua capacidade para manter na igreja as gerações mais jovens, devidamente domesticadas através dos mantras religiosos entoados nos chamados “momentos de louvor”. Essa nova situação, ao mesmo tempo em que proporcionou às igrejas protestantes tradicionais uma sobrevida, também levou-as a uma série crise de identidade.

Ultimamente, a crise financeira da maioria das igrejas tem levado seus líderes a considerar desperdício, o investimento feito em seminários e centros teológicos de pesquisa. E a lógica da maioria das instituições nessas horas é sempre a mesma: ao invés de investir na formação teológica, é “mais sensato” reduzir gradativamente os investimentos em seminários e direcionar maior aporte financeiro a centros de formação missionária, onde os resultados são mais imediatos - num tempo mais curto, treina-se um missionário ou evangelista e passa-se sobre ele um verniz teológico, evitado-se de preferência que essa formação seja muito crítica. Semelhantemente ao que acontece no âmbito romano, os programas teológicos das igrejas protestantes também visam em primeiro lugar o fortalecimento da instituição e a garantia de sua continuidade, a partir da formação de lideranças que garantirão a reprodução da instituição. Por isso, no momento, não vejo nas instâncias institucionais das Igrejas Protestantes muitas possibilidades de renovação da teologia.


3. No âmbito evangélico-carismático-pentecostal

Reuni essas três palavras num mesmo “tipo ideal” talvez de modo prematuro. Em todo caso, penso que as bases teológicas dessas três expressões religiosas são muito semelhantes. As igrejas pentecostais são herdeiras do movimento pietista-wesleyano. Durante boa parte do século XX, algumas igrejas pentecostais no Brasil consideravam “teologia”, coisa do demônio sem perceber que todos os seus discursos, sermões, pregações, etc, eram herdeiros de uma determinada teologia. Quando abandonaram essa ingenuidade inicial, alguns grupos pentecostais começaram a criar cursos, geralmente com o nome de “institutos bíblicos”, “cursos de formação de obreiros ou evangelistas”, etc. O objetivo principal era semelhante aos centros de formação missionária das igrejas protestantes tradicionais – oferecer aos futuros reprodutores do discurso institucional um conhecimento bíblico mínimo e, desse modo, garantir a reprodução da instituição. Geralmente nesses institutos bíblicos, a formação teológica é bastante rasa e introdutória, mas transmitida de modo a fazer com que os receptores acreditem que tudo o que precisam saber ou conhecer está ali e que tudo o que vier além daquilo, “é coisa do diabo”. Na minha experiência como professor de teologia, posso testemunhar de diversos alunos que tive oriundos de seminários ou institutos bíblicos dessa natureza, que chegaram ao curso de teologia apenas para cumprir a obrigação de estudar para conseguir um diploma. Mas vinham todos já com certezas absolutas. E ao final do primeiro ano, ou mesmo do primeiro semestre de estudo, descobriam que, até então, estavam se alimentando apenas de leite. Por ser um ensino reprodutivo, pouco aberto às pesquisas mais atuais da teologia e pouco aberto ao diálogo ecumênico, também não vejo nenhum sinal de que a renovação da teologia no Brasil possa vir desses grupos.


4. No âmbito ecumênico

A partir dos anos sessenta começou a se desenvolver no Brasil o movimento ecumênico de modo mais intenso. Diversos organismos e institutos ecumênicos foram criados nos bons tempos em que ainda havia muitas verbas para tanto. Apesar de alguns percalços, o movimento ecumênico só trouxe benefícios para a teologia no Brasil. A ASTE é um desses frutos, bem como organismos aqui já citados, como o CESEP e CEBI, além do CLAI, CEBEP, CONIC, o antigo CEDI, agora Koinonia e o Instituto Ecumênico de Pós-graduação em Ciências da Religião de São Bernardo do Campo, que, embora hospedado numa instituição confessional (Universidade Metodista), trabalha com bastante autonomia e liberdade. Fazendo um retrospecto dos últimos vinte ou trinta anos de produção teológica no Brasil, observo que tudo o que houve de novidade, de acréscimo, tudo o que não era mera repetição, surgiu nesses ambientes ecumênicos mais arejados. O método popular de leitura da Bíblia, as articulações pastorais, a renovação litúrgica (ainda não encampada pelas Igrejas), a nova hinologia latino-americana, em geral foram produzidas por pessoas e grupos envolvidos no movimento ecumênico e não por iniciativas confessionais isoladas. Apesar de as igrejas protestantes tradicionais atualmente darem pouca atenção ao movimento ecumênico, esse é um dos poucos espaços onde vislumbro humanamente alguma esperança concreta para a renovação da teologia no Brasil. Se há algum conselho que eu possa dar aos meus alunos de teologia é esse: invistam seu tempo de férias, seus fins de semana livres, feriados, etc, na participação de encontros ecumênicos que estão sempre acontecendo pelo Brasil. Muita gente diz que não participa porque não são divulgados. Isso é preguiça de buscar informações. Procurem na internet os endereços de sites ecumênicos no Brasil (geralmente todos têm algum boletim informativo, ou pelo menos, o número do telefone).


5. No âmbito acadêmico

Boa parte dos movimentos de renovação teológica não surgiu por esforços institucionais de igrejas estabelecidas. A história tem mostrado que todas as instituições tendem a se tornar conservadoras e a inibir a criatividade. Isso acontece também com as igrejas estabelecidas e com grupos paraeclesiásticos institucionalizados. Se fizermos uma retrospectiva de tudo o que surgiu na teologia do século XX, por exemplo, veremos que as grandes pesquisas bíblicas no AT e NT, a aplicação da sociologia e da historiografia crítica aos textos bíblicos, a nova hermenêutica e as mais ousadas novidades teológicas sempre surgem primeiro em âmbitos acadêmicos – universidades e centros de pesquisa. Elas sempre estão à frente das Igrejas, e as igrejas só aos poucos vão assimilando, geralmente com bastante atraso, os resultados das novas pesquisas teológicas.

Apenas alguns exemplos: Paul Tillich é um dos teólogos mais influentes do século XX. Nos anos 80 e 90 surgiram diversos grupos de estudo sobre o pensamento de Tillich em várias partes do mundo. Hoje há bem organizadas sociedades de estudo da teologia de Tillich nos EUA, Canadá, em vários países da Europa e uma aqui no Brasil. Porém, a recepção do pensamento de Tillich por parte das igrejas no Brasil ainda é mínima. O mesmo pode ser dito na área de estudos bíblicos. O estudo de Gerd Theissen, Meeks, Ched Myers, Andrew Overman, o Context Group, etc, ainda é privilégio de poucos interessados em comprar algumas dessas obras já traduzidas ou pesquisar sobre elas na internet.

Se me perguntarem pelos sinais de renovação teológica atualmente no mundo, eu lhes apontarei essas duas fontes: o mundo ecumênico e os centros de pesquisa acadêmicos. Se vocês não quiserem ser meros estudantes que reproduzirão a teologia já feita por outros, procurem se interar com os centros de pesquisa teológica nas universidades e em grupos de estudo. Ali se faz pesquisa de ponta e muito do que é discutido hoje, só será assimilado pelas igrejas dentro de 15 ou 20 anos, pois, na maioria dos casos, a Igreja está sempre atrasada em relação aos movimentos históricos. Conversando com alguns colegas que lecionam Teologia Contemporânea em diversos seminários, percebo que, para eles, teologia contemporânea anda significa estudar Barth, Bultmann e Tillich, que nem são mais “contemporâneos”, pois estão todos mortos. É claro, que boa parte dos novos estudantes precisa pelo menos ser iniciada nesses grandes nomes. Mas eu, particularmente, acho que Teologia Contemporânea diz respeito àquilo que está sendo produzido por gente viva, ativa e pouco conhecida.

É claro que essa interação com a vida acadêmica não pode ser feita como um mero exercício de masturbação intelectual. Naturalmente, é imprescindível associar essa interação com a vida acadêmica à participação na comunhão da Igreja. A teologia deve ser serva da Igreja – uma instância crítica inseparável da comunhão, como a consciência, que não existe fora do ser ou do corpo.


II. A situação do ensino de teologia no Brasil hoje

Na condição de professor de teologia já há um bom tempo, confesso-lhes que às vezes me sinto extremamente frustrado com a falta de interesse de nossos atuais estudantes em pesquisar com avidez o que há de mais recente na teologia. Tenho trabalhado como professor em Seminários Evangélicos presbiterianos, batistas, da Assembléia de Deus e interdenominacionais em diversos lugares e, tristemente, observo que nunca houve safras tão fracas de estudantes como nos últimos anos. No início de meu ministério docente, recordo-me que os alunos chegavam aos seminários bastante preparados biblicamente, com uma visão teológica razoavelmente ampla, com conhecimentos mínimos de história do cristianismo e com uma sede intelectual muito grande por penetrar no fascinante mundo da teologia cristã. Ultimamente, porém, aqueles que se matriculam em Seminários refletem a pobreza e mediocridade teológica que tomaram conta das igrejas evangélicas.

Sempre pergunto aos calouros a respeito de suas convicções em relação ao chamado e à vocação. Pois outro dia, um calouro saiu-se com a brilhante resposta: “não passei em nenhum vestibular e comecei a sentir que Deus impedira meu acesso à universidade a fim de que eu me dedicasse ao ministério”. Trata-se do mais típico caso de “certeza da vocação” adquirida na incapacidade intelectual de competir com candidatos ao vestibular em outras áreas do saber. E, invariavelmente, esses são os alunos que mais transpiram preguiça intelectual.

A grande maioria dos novos vocacionados chega aos seminários influenciada pelos modismos que grassam no mundo evangélico. Alguns se autodenominam “levitas”. Outros, dizem que estão ali porque são vocacionados a serem “apóstolos”. Ultimamente qualquer pessoa que canta ou toca algum instrumento na Igreja, se autodenomina “levita”. Tento fazê-los compreender que os levitas, na antiga aliança, não apenas cantavam e tocavam instrumentos no Templo, como também cuidavam da higiene e limpeza do altar dos sacrifícios (afinal, muito sangue era derramado várias vezes por dia), além de constituírem até mesmo uma espécie de “força policial” para manter a ordem nas celebrações. Porém, hoje em dia, para os “novos levitas” basta saber tocar três acordes e fazer algumas coreografias aeróbicas durante os cânticos para se sentirem com autoridade até mesmo para mudar a ordem dos cultos. Outros há, que se auto-intitulam “apóstolos”. Dentro de alguns dias teremos também “anjos”, “arcanjos”, “querubins” e “serafins”. No dia em que inventarem o ministério de “semi-deus” já não precisaremos mais sequer da Bíblia.

Nunca pensei que fosse dizer isso, pois as pessoas que me conhecem geralmente me chamam de “progressista”. Entretanto, ultimamente, ando muito “saudosista” ou “nostálgico”. Tenho saudades de um tempo em que havia certa ordem nos cultos evangélicos, em que os cânticos e hinos estavam distribuídos equilibradamente na liturgia. Atualmente os chamados “momentos de louvor” mais se assemelham a show ensurdecedores prejudiciais à saúde ou de um sentimentalismo meloso. Muitas pessoas vão à Igreja muito mais por causa do “louvor” do que para ouvir a Palavra que regenera, orienta e exige de nós obediência.

Certa ocasião convidei um aluno a participar de um culto contemplativo na minha Igreja, que seria dirigido por um colega que estava nos visitando. Colocamos o altar no centro do templo, apagamos as luzes e acendemos as velas, sentamo-nos todos em círculo e utilizamos um incenso bem suave para tornar o ambiente mais agradável e foi um lido um texto bíblico. Na liturgia anglicana, o sinal de que a liturgia está começando é o toque do sino e o acender das velas. Ficamos ali, algum tempo em silêncio, em oração, em meditação sobre o texto lido. Após algum tempo, esse aluno me cutucou e perguntou: “quando é que o culto vai começar? Estão esperando alguém?” E eu lhe respondi: “infelizmente, você já desperdiçou dez minutos de culto”. Esse é talvez o mais pernicioso efeito da cultura pop e da massificação musical em nossos dias. Perdemos a capacidade de rezar e celebrar no silêncio e na serenidade. Outro aluno, recentemente me disse: “se não houver música, não há culto”. Creio que, em parte, isso é reflexo da cultura pop, da influência da “Geração MTV”, que privilegia o som e o movimento e que é incapaz de perceber que Deus pode ser encontrado também na contemplação, meditação e no silêncio.

Jaci Maraschin tem um artigo intitulado “Meia hora de silêncio”, baseado no texto de Apocalipse 8.1: “Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve no céu um silêncio de meia hora...”. Que lindo isso: meia hora de silêncio. Hoje não conseguimos um minuto sequer. Quando pedimos um minuto de oração silenciosa na igreja, as pessoas ficam impacientes, tossem, batem os pés, tamburilam os dedos nos bancos, folheiam aleatoriamente a Bíblia, etc. A conseqüência desse mundo que privilegia o som, a rapidez, e o movimento é a superficialidade também nos estudos teológicos. Seria muito bom se conseguíssemos em nossas disciplinas de liturgia fazer esse exercício espiritual: começar o culto com meia hora de silêncio preparatório para um grande evento, pois na seqüência do texto do Apocalipse, um anjo pega um grande turíbulo cheio de incenso que simbolizam as orações da Igreja, enche-o com o fogo do altar e o despeja sobre a terra, causando trovões e terremoto como um sinal para que sete anjos toquem as sete trombetas anunciando a renovação do mundo...

Mas no mundo pós-moderno não é isso que os jovens desejam. O que vocês desejam é rapidez, movimento e pouca concentração. Há, porém, uma diferença entre desejo e necessidade. Nem sempre o que se deseja é o que se necessita. Eu creio que os jovens de nosso tempo, a começar de vocês que estão estudando teologia, precisam aprender a valorizar os ritmos pausados e lentos das liturgias meditativas e contemplativas. Nada mais prejudicial ao estudo da teologia do que os cursos de leitura dinâmica. Teologia e filosofia se aprendem de modo oposto – com leitura calma, pausada, refletida e reflexiva.

Percebo também que alguns colegas pastores de outras igrejas freqüentemente manifestam a sensação de sentirem-se tolhidos e pressionados pelos diversos grupos de louvor. O mercado gospel cresceu muito em nosso país e, além de enriquecer os “artistas” e insuflar seus egos, passou a determinar até mesmo a “identidade” das igrejas evangélicas. Houve tempo em que um presbiteriano ou um batista sabiam dar razão de suas crenças. Atualmente, tudo parece estar se diluindo numa massa disforme. Trata-se da “xuxização” (“todo mundo batendo palma agora... todo mundo tá feliz? tá feliz!”) do mundo evangélico, liderada pelos “levitas” que aprisionam ideologicamente os ministros da Palavra. O apóstolo Paulo dizia que a Palavra não está aprisionada. Mas, em nossos dias, os ministros da Palavra, estão – cativos da cultura gospel.

Tenho a impressão de que isso tudo é, em parte, reflexo de um antigo problema: o relacionamento do mundo evangélico com a cultura chamada “secular”. Amedrontados com as muitas opções que o “mundo” oferece, os pais preferem ter os filhos constantemente sob a mira dos olhos aos domingos, ainda que isso implique em modificar a identidade das Igrejas. E os pastores, reféns que são dos dízimos de onde retiram seus salários, rendem-se às conveniências, no estilo dos sacerdotes do Antigo Testamento. Um aluno disse-me que, no dia em que os evangélicos tomarem o poder no Brasil acabarão com o carnaval, as “folias de rei”, os cinemas, bares, danceterias etc. Assusta-me o fato de que o desenvolvimento dessa sub-cultura “gospel” torne o mundo evangélico tão guetizado que, se um dia, realmente os evangélicos tomarem o poder na sociedade, venham a desenvolver uma espécie de “Talibã evangélico”. Tal como as estátuas do Buda no Afeganistão, o “Cristo Redentor” estará com os dias contados.

Esses jovens que passam o dia ouvindo rádios gospel e lendo textos de duvidosa qualidade teológica, de repente vêm nos Seminários uma grande oportunidade de ascensão profissional e buscam em massa os mesmos. Nunca houve tanta afluência de jovens nos seminários como nos últimos anos. Quando eu lecionava aqui nesse seminário (STAGS), lembro-me que os colegas diziam que a Igreja, em breve teria problemas, pois o crescimento da Igreja não era proporcional ao número de jovens que todos os anos saíam dos Seminários como bacharéis em teologia, aptos para o exercício do ministério. A preocupação dos colegas era: onde colocar todos esses novos pastores? Na minha ingenuidade, sugeri que seria uma grande oportunidade missionária: enviá-los para iniciarem novas comunidades em zonas rurais e na periferia das cidades. Foi então que um colega, bastante sábio, retrucou: “Eles não querem. Recusam-se! Querem as Igrejas grandes, já formadas e estabelecidas, sem problemas financeiros”. De fato, percebi que alguns realmente se mostravam decepcionados ao saberem que teriam que começar seu ministério em um lugar pequeno, numa comunidade pobre, fazendo cultos nos lares, cantando às vezes “à capella” e sem o apoio dos amplificadores e mesas-de-som.

Na maioria dos Seminários hoje, os alunos sabem o nome de todas as bandas gospel, mas não sabem quem foi Wesley, Lutero ou Calvino. Talvez até já tenham ouvido falar desses nomes, mas são para eles, como que personagens de um passado sem-importância e sobre o qual não vale a pena ler ou estudar. Talvez por isso eu e outros colegas professores nos sintamos hoje em dia como que “falando para as paredes”. Nem dá gosto mais preparar uma aula decente, pois na maioria das vezes temos sempre que “voltar aos rudimentos da fé” e dar aos vocacionados o leite que não recebem nas Igrejas. Várias vezes tive que mudar o rumo das aulas preparadas para falar de assuntos que antes discutíamos nas Escolas Dominicais. Não sei se isso acontece em todos os Seminários, mas em muitos lugares, o conteúdo e a profundidade dos temas discutidos pouco difere das aulas que ministrávamos na Escola Dominical para neófitos.


III – DESAFIOS PARA A TEOLOGIA LATINO-AMERICANA

Quero finalizar apontando-lhes alguns desafios para a teologia que fazemos no Brasil. O primeiro diz respeito à necessária ponte que devemos estabelecer hoje entre o depósito de saber acumulado pela teologia da libertação, a reserva de sentido libertador ainda existente em nossas igrejas e o contexto de pós-modernidade em que vivemos.

a) O desafio de viver religiosamente a pós-modernidade

Para quem não está muito informado sobre o que significa pós-modernidade, basta lembrar-se das excelentes avaliações feitas pelos colegas que me precederam nessa jornada de palestras. Não pretendo repetir tudo o que tem sido dito sobre a pós-modernidade. Nos anos 50, Paul Tillich escreveu um artigo com o título: “O fim da era protestante”, no qual sugeria que o protestantismo tradicional estava vivendo seu ocaso. Ele estava se referindo às igrejas que insistiam em se apegar aos modelos nascidos na época da Reforma. Tillich, porém, termina o artigo dizendo que, se a “era protestante” está chegando ao fim, isso não acontece com o “princípio protestante”. Sugiro a vocês lerem um pouco sobre o significado desse conceito “princípio protestante”, a respeito do qual também não temos tempo de comentar agora.

De fato, não há como negar que o protestantismo tradicional está em crise porque nunca se renovou. O lema “Igreja reformada sempre se reformando” é muito bonito, mas muito perigoso, porque ele impede toda e qualquer institucionalização, que foi exatamente o que aconteceu com o protestantismo clássico, que nunca mais se reformou, apesar de todos os anos ouvirmos essa frase na semana da reforma.

O protestantismo que herdamos é fruto da modernidade. A Reforma foi um movimento moderno. Nasceu com a modernidade, legitimou a modernidade e cresceu com a modernidade. Hoje, porém, sua crise e seu declínio correspondem também à crise da modernidade e ao advento da pós-modernidade. Em linhas gerais, o que se convencionou chamar “pós-modernidade” refere-se à constatação de que os grandes discursos de referência capazes de explicar o mundo (marxismo, capitalismo, psicanálise, freudianismo, positivismo, a ciência e a razão técnica, e até mesmo a teologia cristã tradicional) saturaram-se e já não são capazes de oferecer respostas significativas aos novos tempos. Respira-se um clima de “morte das utopias”, fim dos grandes objetivos de transformação social e progresso e muita fragilidade e superficialidade nas relações interpessoais. A condição pós-moderna caracteriza-se pela desconstrução dos discursos e estatutos científicos e institucionais clássicos e, por conseguinte, por uma intensa fragmentação, dissolução de laços e fidelidades institucionais.

Diante disso, sempre surgem vozes dizendo que a raiz dessa crise está no abandono da teologia da Reforma Protestante, que precisamos voltar a ela e que essa volta representaria a única esperança para o futuro do protestantismo clássico. Creio que isso é impossível. Hoje todos os sistemas estão caindo em ruínas e não devemos gastar energias em tentar segurá-los ou reeguê-los, mas procurar nas ruínas, pedaços que nos ajudem a construir pequenos abrigos.

Ao meu ver, o que precisamos é perceber como os reformadores fizeram o que fizeram e não tanto nos apegar às doutrinas a que chegaram ou às instituições que criaram. Se hoje, não há muitas perspectivas visíveis de libertação e mudanças sociais no Brasil e na América Latina, é preciso considerar que no século XVI também não havia. Mas os reformadores criaram esses espaços com coragem e ousadia, atentos aos movimentos que na época eram vistos com maus-olhos (o humanismo, o renascimento, a descoberta das artes clássicas, etc). Os reformadores, não esperaram que a iniciativa da reforma partisse da instituição eclesiástica ou dos poderes seculares. E perceberam a necessidade de fazer certas alianças co-beligerantes para construir uma nova Europa. Os humanistas, sozinhos, não conseguiriam mudar a Europa; os movimentos míticos medievais da pré-reforma e os contestatórios de Wycliff e Huss também não conseguiram reformar a Igreja. O que precisamos perceber é que os reformadores reinventaram o cristianismo para aqueles tempos.

Não conseguiremos enfrentar os desafios da pós-modernidade tentando reconstruir espaços eclesiásticos que são tipicamente modernos nem voltando a uma teologia que era moderna e que pouco tem a dizer a nosso mundo, mas identificando com clareza nossa situação e buscando respostas teológicas novas aos novos momentos, e não apenas traduzir em palavras novas as respostas antigas. Não se põe remendo novo em pano velho.

b) O desafio de construir um novo conceito de verdade e ortodoxia

A pós-modernidade questiona todas os discursos explicativos que se anunciaram como verdades absolutas e o próprio conceito de verdade. Percebo que essa é uma grande preocupação de muitos alunos atualmente. Onde está a verdade? Qual a verdade teológica sobre um tema? Todos são como Pilatos perante Jesus: “verdade? Que é a verdade?”

Bem, teologia é um discurso produzido numa comunidade de fé por pessoas que passaram por experiências marcantes com o sagrado e com a vida. A primeira confissão de fé credal que encontramos na Bíblia (Dt 26.5-9) não traz definições dogmáticas, mas simplesmente relata a experiência de libertação proporcionada por Javé a um povo. A teologia nasceu assim - como um testemunho de fé sem qualquer pretensão de tornar-se um discurso científico, no moderno sentido dessa palavra. O problema é que, quando o pensamento grego se tornou o paradigma do fazer teológico, começou-se a pensar que essa palavra – “verdade” – diz respeito a alguma coisa objetiva (uma idéia) que pode ser alcançada pelo pensamento ou recebida através de revelação.

A origem das divisões do protestantismo reside nessa obsessão pela busca da verdade. Eu que leciono História da Igreja e do Pensamento Cristão, quando falo sobre o século XVI sempre digo que o que houve na época não foi uma Reforma, mas várias reformas diferentes, inclusive no catolicismo. Ou seja, não se pode tomar a Reforma como um movimento monolítico. E todos os movimentos reformadores e seus teólogos estavam interessados em encontrar a verdade sobre Deus, a salvação, a Igreja, a eucaristia, etc. E hoje nós sabemos muito bem que surgiram tantas igrejas diferentes, porque cada grupo se fixava no que entendia ser a verdade. Em suma, havia várias verdades explicitadas nas diversas confissões de fé daquele período. Mas quando há muitas “verdades”, não há nenhuma.

Voltando às experiências iniciais do povo de Deus no Antigo Testamento, a teologia ali não era um exercício de definição de conceitos verdadeiros, mas um discurso de fé composto a partir de mitos, sagas, oráculos e narrativas destinadas a provocar a fé e a ação. O verbo “definir” vem do latim “de finere”, pôr um fim, delimitar. Essa sempre foi a maior tentação da teologia: oferecer a última palavra, a “definitiva” (também de “definir”) sobre Deus, Cristo, a fé, etc. Mas o ambiente lingüístico próprio da teologia é a metáfora: “Iahweh é meu pastor...”, “Israel é a esposa adúltera” (Oséias). Metáfora não é definição. É uma espécie de analogia, comparação com algo que se experimenta no cotidiano. Ao ver as corças sedentas procurando um ribeiro de água numa tarde quente, o salmista dizia: “assim como a corça busca os ribeiros de água, assim também a minha vida suspira por ti, ó Deus”.

A apropriação de categorias gregas no início do cristianismo, ao mesmo tempo em que dotou a teologia de uma linguagem técnica capaz de dialogar com a sabedoria grega, também prendeu-a na camisa de força da filosofia da identidade (a verdade é a correspondência, ou a adequação entre a palavra e a coisa). A partir de então, a linguagem metafórica passou a ser interpretada literalmente... (os seis dias da criação... a serpente no paraíso..., a mula que conversava com o profeta, etc). Assim, a teologia experimentou seu equívoco básico: a transformação da linguagem metafórica em linguagem metafísica. Tal mudança favoreceu a manipulação ideológica e foi fonte para todo dogmatismo e autoritarismo dos grupos que acham que já alcançaram essa verdade.

A pós-modernidade questiona esse conceito metafísico, abstrato e essencialista de verdade. Atualmente, o encontro com a verdade não é pensado como uma adesão intelectual a um dogma ou a uma definição doutrinária, ou à conformidade com algumas frases chavão. A partir da modernidade e principalmente no século XX, a teologia cristã clássica esgotou suas possibilidades interpretativas e os teólogos tiveram que buscar novas orientações, fugindo da dogmática para a pastoral e tentando reinterpretar os grandes temas da tradição cristã. Isso é bastante desafiador para a teologia latino-americana onde a verdade é uma prática eficaz de libertação que tem como seu paradigma a pessoa e o ministério de Jesus Cristo (“Eu sou a verdade – a verdade vos libertará”). A verdade não é uma idéia que exista em si mesma, num âmbito independente, numa esfera metafísica. É, antes, uma prática de libertação, de favorecimento da vida, de inclusão do diferente, de sensibilidade, solidariedade e alegria. A verdade é para ser vivida e contemplada em sua beleza. O que chamamos “verdade” tem mais a ver com uma experiência estética de revelação que propriamente com a apreensão intelectual de alguma idéia. Contrariando o moderno e melancólico Kierkegaard, não creio que o desafio seja dar um salto do estético para o ético, mas incorporar o ético ao estético porque a beleza/verdade sempre nos libertará. A beleza salvará o mundo.

Um exemplo: estamos acostumados na teologia a discutirmos bastante sobre as definições dogmáticas a respeito de Deus ou da pessoa teantrópica de Jesus. Desde a patrística já se discutia isso, e o resultado das discussões foi o surgimento dos dogmas estampados nos Credos Apostólico e Niceno. No Niceno-Constantinopolitano se diz, por exemplo, que Cristo era “consubstancial” com o Pai. Na disciplina de História da Igreja e do Pensamento Cristão, a gente tem que, naturalmente, explicar o sentido dessa expressão em grego e sua importância para as discussões teológicas daquela época. Por isso, eu sempre reservo uma aula, pelo menos, para explicar aos alunos o significado da expressão “homoousios” e de outros conceitos gregos importantes para a compreensão do desenvolvimento da teologia. Na liturgia dominical anglicana, costumamos repetir o Credo Niceno-Constantinopolitano, onde o conceito grego “homoousios” aparece na tradução “consubstancial”. Mas se alguém sem treinamento no hermético vocabulário teológico perguntar o significado dessa expressão, talvez a melhor resposta seja dizer que não significa nada de muito importante, mas que é belo e preserva o caráter misterioso de Jesus Cristo. Esse é seu valor – estético.

c) O desafio da abertura às artes e à cultura popular.

Tenho escrito e pesquisado um pouco sobre artes e cultura popular. Quero reforçar aqui algumas idéias que expus no meu livro sobre Teologia e Música Popular Brasileira. O interesse pela cultura nos círculos teológicos tem aumentado consideravelmente nos últimos anos. Houve época em que as únicas áreas do conhecimento a se interessar pela reflexão sobre culturas eram as de antropologia e sociologia. Curiosamente, nos tempos atuais, ao mesmo tempo em que se fala de globalização, mundialização e internacionalização com todas as conseqüências daí advindas, também são exaltadas as características particulares, específicas e locais de grupos humanos. Parece haver um certo medo de que a globalização se revele como um fenômeno descaracterizante, encaminhando os povos a um “admirável mundo novo” de tipo huxleyano, robotizado, massificante e minimizador de diferenças. Um dos refúgios encontrados para fazer frente a essa ameaça é exatamente a valorização do ethos de cada povo: seus hábitos, costumes, estilos de comportamento e expressões religiosas. Um dos grandes desafios para a renovação da teologia na América Latina reside em tomar radicalmente a cultura - especificamente as formas artísticas - como fonte de saber teológico.

Estudando o desenvolvimento da Teologia da Libertação, Jung Mo Sung constatou uma “anomalia” evidenciada pelo fato de o tema da economia ter recebido pouca atenção durante a década de setenta e parte da década de oitenta. “Mutatis mutandis”, o tema da cultura também nunca chegou a ser predominante na Teologia da Libertação, apesar de essa anunciar-se como “teologia do povo”. A grande quantidade de livros escritos por teólogos da libertação tratando de temas doutrinários indica a tentativa de dar um caráter de respeitabilidade ao pensamento que se desenvolvia na América Latina, perante o mundo acadêmico do Atlântico Norte. Nenhum problema maior quanto a isso, exceto a presença pouco visível do “povo” na determinação da pauta teológica. Quem fazia a “teologia do povo”, muitas vezes era o teólogo profissional e nos seus livros pouco se via das manifestações artísticas e culturais populares. Essa foi minha principal crítica à TdL no livro: essa sempre foi dominada por intelectuais. O povo estava muito ocupado tentando sobreviver e nos seus poucos momentos lúdicos buscava refrigério em manifestações populares diversas. Mas freqüentemente o(a) teólogo (a) adotava um conceito de “povo” em que seus pressupostos se encaixavam e passava a escrever a respeito desse ‘povo” que geralmente era apenas um “tipo ideal”, cuja produção artística era desconhecida. Apesar do impacto dessa frase de efeito - “a teologia nasce do povo”, não foram muitos os que, num primeiro momento, se interessaram em pesquisar as manifestações culturais que circulavam na mídia ou fora dela a fim de captar, por exemplo, a experiência cantada por certos setores da população brasileira.

Essa constatação, porém, não chega a espantar, pois tradicionalmente as artes sempre foram vistas com certa desconfiança e preconceito por parte dos acadêmicos. Na filosofia, por exemplo, o capítulo dedicado à estética é invariavelmente um dos mais pobres se comparado à metafísica, epistemologia ou à ética. Muitas pessoas - e não poucos acadêmicos - ainda a vêem como uma espécie de hobby destinado a preencher horas vagas, feriados, férias, finais-de-semana ou a aliviar as tensões do cotidiano após um exaustivo dia de trabalho. É a redução da arte a mero entretenimento. No campo da teologia não é diferente, pois foram raros os teólogos que se interessaram pelo diálogo com alguma forma de arte e principalmente com a música popular. Relacionar a teologia à sociologia, economia, política, ou filosofia sempre parece mais nobre que relacioná-la a alguma forma de arte. Isso talvez se dê pelo fato de os artistas nem sempre respeitarem rigorosamente certos padrões e estilos e estarem sempre em busca de inovações. Essa falta de continuidade estilística aponta para um tipo de “incoerência” insuportável aos acadêmicos que nem sempre conseguem criar tipos e classificações precisas para nelas encaixar toda a diversidade de manifestações culturais à sua volta.

Apesar de tudo, os anos noventa despertaram um certo interesse de teólogos brasileiros pelas manifestações culturais enquanto fontes de conhecimento. A arte não nos separa do mundo, mas coloca-nos em relação mais direta com ele na medida em que refere-se ao mesmo mundo que as ciências tentam explicar, mas através de imagens e símbolos. Se a teologia e a arte têm limites, as ciências também têm os seus. Elas não são capazes de tudo ver. Seus limites são os da racionalidade moderna que não é capaz de captar nuances que somente a experiência artística pode perceber. Existem, pois, esferas do real que escapam à análise das ciências. Nesse caso, a arte entra como complementaridade indispensável ao conhecimento e à autointerpretação humana.

d) O desafio da abertura ecumênica

Se as possibilidades de renovação da teologia no Brasil e na América Latina passam pela inserção nos movimentos ecumênicos, impõe-se cada vez mais a nós que vivemos nesses tempos de reconstrução, investirmos na teologia ecumênica. Isso significa relativizar os absolutos erigidos pelas instituições eclesiásticas e não comprarmos brigas teológicas que nasceram na Europa, num contexto diferente do nosso. Nós, no Brasil, temos a mania de importar até mesmo as brigas de outras regiões. Nas aulas de Teologia Contemporânea costumo dizer que temos duas possibilidades de fazer teologia, conforme Tillich: a teologia da Igreja e a teologia da cultura. A primeira é restritiva, pois sempre será feito dentro dos limites institucionais. Se optarmos por fazer somente teologia da igreja, passaremos o resto da vida pesquisando e ensinando sobre doutrinas, dogmas e questões intra-eclesiásticas. Mas o mundo não está muito interessado nisso. Até mesmo dentro das igrejas é difícil encontrar hoje quem se interesse pela discussão de termos como “transubstanciação” ou “consubstanciação”, “predestinação infra ou supralapsária”, “pessoa teantrópica de Jesus”, etc, quanto mais fora da Igreja... Estaremos sempre falando para nós mesmos. Mas a teologia da cultura em perspectiva ecumênica nos abre a possibilidade de dialogarmos com o mundo das artes, da economia, da política, com os discursos científicos universitários e com as demais religiões.

O mundo vive uma nova fase de pluralismo teológico. O grande desafio de ordem epistemológica é a construção de campos de sentido mais abertos e inclusivos, ou seja, aprender a construir mundos onde caibam todos, mundo onde caibam outros mundos. Entre desdobramentos e deslocamentos volto a mencionar a passagem da opção pelos pobres à opção pelo outro empobrecido; na área das mediações, a transição das ciências sociais à interdisciplinaridade; no horizonte utópico, o olhar da libertação às pequenas libertações cotidianas. Nesse novo cenário, a Teologia da Libertação foi ampliando, necessariamente, o foco da sua reflexão de uma perspectiva mais regional para uma perspectiva global. A realidade e a consciência da globalização exigem uma crescente mundialização da própria teologia. Diante de um crescente pluralismo cultural, a teologia latino-americana também assume um perfil marcadamente plural. Em meio à pluralidade se conservam, entretanto, elementos de unidade, assim que é possível falar de uma unidade na pluralidade. Neste contexto, se pode afirmar que a teologia hoje deve ser necessariamente ecumênica, isto é, mesmo as teologias particulares devem estar inseridas num paradigma ecumênico.

e) O desafio do equilíbrio entre a linguagem acadêmica e a linguagem da fé

É comum ouvirmos de seminaristas e mesmo de pastores/as, a frase: “eu sou pastor/a, e não teólogo/a”, ou vice-versa. Essa infeliz dicotomia precisa acabar. Não há discurso teológico, ensino, pregação ou aconselhamento que não esteja embasado em alguma teologia. Sempre que falamos algo a respeito de Deus, da fé, de Cristo ou da Igreja, o fazemos a partir de algum pressuposto teológico. As pessoas que imaginam que seus discursos são “puros” porque baseados “exclusivamente na Bíblia” precisam compreender que qualquer leitura bíblica está cercada por pressupostos que nos foram transmitidos por nossos pais, pela igreja ou por algum grupo religioso. Não há pretensão maior, nesse caso, do que a pretensão da “pureza no discurso”.

Quando as pessoas estabelecem essa dicotomia, geralmente o fazem para defender um posicionamento particular. Há aqueles/as que sofrem de “preguiça intelectual”. São seminaristas e pastores/as contentes e satisfeitos com o pouco que sabem e que são preguiçosos/as demais para se debruçar em livros de teologia ou passar algumas horas se debatendo com o vocabulário grego e hebraico para realizarem uma exegese. Usam, então, a dicotomia “pastor x teólogo” para legitimar sua preguiça; de outro lado, há aqueles/as teólogos/as ocupados demais em seus gabinetes, sempre às voltas com leituras e livros e que nunca encontram tempo para se envolverem nos trabalhos práticos da vida da igreja. Nesse caso, padecem do mal oposto: “orgulho intelectual” e usam também a dicotomia para justificar seu desinteresse pelos assuntos práticos da Igreja.

Essa discussão nunca fez parte das preocupações da Igreja durante boa parte de sua história. Paulo era pastor, missionário e um excelente teólogo. Os pais da Igreja desenvolveram sua teologia no contexto das perseguições e na atmosfera espiritual proporcionada pela celebração litúrgica. Agostinho fazia teologia em diálogo com Deus, através de textos permeados de confissões e orações. “O Pastor de Hermas” fez teologia a partir de suas visões místicas. Podemos citar ainda Crisóstomo, Orígenes, São Francisco, Boaventura, Evelyn Underhill e tantos outros/as. O locus privilegiado para o nascimento de textos teológicos tão ricos e profundos era a prática na adoração litúrgica. O interlocutor privilegiado era o próprio povo de Deus.

O marco inicial dessa dicotomia acontece durante a Escolástica. Quando Carlos Magno organizou as escolas do saber na Idade Média começaram a surgir as Universidades. A teologia que até então era desenvolvida no contexto eclesial passou a ter um novo locus: a academia. As controvérsias filosóficas dos ambientes universitários encantaram alguns teólogos que passaram a desenvolver uma teologia especulativa e o interlocutor privilegiado deixou de ser o povo de Deus e passou a ser o mundo acadêmico. Essa tendência tem acompanhado a vida da Igreja até hoje e mesmo a Reforma não foi capaz de suprimi-la.

Essa dicotomia ainda existe hoje. Está presente na concepção de seminaristas e pastores/as que recusam um aprofundamento maior na pesquisa bíblica e teológica, mas também em ambientes acadêmicos. É um dos problemas mais graves de nossa formação teológica. Muitos jovens seminaristas quando visitam igrejas nas férias ou finais-de-semana ou quando terminam seus cursos e assumem um trabalho pastoral, continuam a perpetuar uma linguagem acadêmica que pouca ressonância encontra nas pessoas não habituadas a esse tipo de discurso. O choque é inevitável e as conseqüências pastorais, desastrosas. O mesmo acontece em ambientes acadêmicos contaminados por um racionalismo estéril e deturpado que menospreza a linguagem da religiosidade popular.

O que precisamos é desenvolver um processo de formação teológica capaz de dialogar não somente com o mundo universitário, mas com todo o povo de Deus. O locus privilegiado da teologia é a vida da comunidade e a experiência litúrgica. Sua linguagem privilegiada é a dos símbolos e mitos. Mas isso não nos afasta do rigor acadêmico.


Conclusão

Tentei aqui expor algumas impressões a respeito do atual estágio do estudo da teologia no Brasil. Naturalmente trata-se sempre de um ponto de vista particular. Tudo o que eu disse aqui diz respeito às minhas opções particulares e por onde eu tenho caminhado em três áreas da minha trajetória teológica: o mundo ecumênico, a participação em uma comunidade de fé e o âmbito acadêmico-universitário. Se eu pudesse lhes dar ao menos um conselho a fim de que vocês desenvolvam uma carreira teológica realmente relevante, eu lhes diria para trabalharem sempre no sentido de se integrar nesses três âmbitos. A tentação maior será a de ficar trabalhando somente como teólogo/a da igreja e limitar-se ao âmbito eclesiástico. Tenho sérias desconfianças quanto à relevância daqueles que se afastam da participação comunitária (seja ela de qual tipo for) e só sabem falar de livros, mas não da vida ou da arte. Não devemos nos afastar das comunidades-de-fé, mas devemos manter a consciência de que este é um espaço limitado e que há outros espaços, principalmente no mundo ecumênico, vida acadêmica e nas esferas culturais.

Se no labor teológico não tivemos paixão pelo que fazemos, nossa teologia sempre será medíocre e pouco relevante. Quem faz teologia com paixão e amor, acaba encontrando grande prazer em passar horas estudando e ensinando. Isso nunca é cansativo. Porém, não devemos nos esquecer de que essa paixão pelo estudo teológico deve desembocar no serviço aos outros e na libertação das pessoas a quem Deus tanto ama e por quem o Cristo se entregou.
 
 
 
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