Esta afirmação se encontra no Credo dos Apóstolos, que integra os Escritos Confessionais das igrejas reformadas.Com esta afirmação, os primeiros cristãos quiseram enfatizar o poder ilimitado da morte de Cristo. Entre a sua morte como ser humano e a sua ressurreição ?no espírito?, Jesus Cristo desceu ao Hades. Este termo, transliterado do grego, significa mundo dos mortos. Algumas versões do Credo dos Apóstolos falam em mansão dos mortos e até em infernos. Seja como for, Cristo esteve no reino da morte.
Isto significa que o próprio Deus experienciou a existência humana em toda sua dimensão, inclusive a finitude e a morte. Calvino declarou que Jesus experimentou a morte em toda sua crueldade; ele sofreu os tormentos de uma pessoa condenada e perdida. Observemos Mateus 27:46. Com esta interpretação, a descida ao hades representa o sofrimento em grau extremo. Já os luteranos vêem na descida ao hades a vitória de Cristo sobre o inferno e o diabo. Salientam que Cristo desceu ao inferno para anunciar sua vitória. As duas interpretações se complementam e são sustentadas pela Escritura Sagrada.
Ao analisarmos 1 Pedro 3:18-19 ao lado de Mateus 27:52-53, concluímos ?que Jesus, após a sua morte, desceu ao inferno, salvou os santos presos na morte e os ressuscitou para a vida. (Gerhard Barth) Em sua dimensão celestial, Cristo pregou aos ?espíritos na prisão.?
Quem são os espíritos na prisão?
Em 1 Pedro 3:20 há uma referência ao dilúvio. Na época de Jesus era comum a idéia de que não há perdão para as pessoas que morreram no dilúvio. Sua desobediência merece uma punição exemplar. Os rabinos declaravam: ?A geração do dilúvio não participa do mundo vindouro.?
O texto bíblico quer testemunhar o poder salvífico da morte de Cristo: ele anunciou a libertação aos espíritos caídos e encarcerados. A possibilidade de perdão é oferecida ali onde não há mais esperança. A obra de Cristo tem um caráter absoluto.
Os primeiros cristãos se preocuparam com o destino das pessoas piedosas que viveram e morreram antes da vinda de Cristo. Os profetas do Antigo Testamento, que anunciaram a vinda do Salvador, também devem Ter participação na salvação que ele traz.
A 1ª Carta de Pedro contém os dois textos mais antigos (3:19 e 4:6) que falam expressamente da atividade evangelizadora de Cristo no inferno.
Implícita está também a preocupação por uma oportunidade de perdão aos anjos caídos e encarcerados, que são mencionados em Gn 6.
A morte salvífica de Cristo vale para todas as gerações, inclusive as do passado.
O Corpo de Cristo tem a incumbência de anunciar, em todas as épocas, que Jesus Cristo é Senhor sobre vivos e mortos. Em verdade, a Igreja deve sentir o desafio da evangelização, para que ninguém fique sem a mensagem salvífica de Cristo. Mas aqueles que não foram confrontados com Cristo nesta vida, terão uma segunda chance no reino dos mortos.
Observemos bem que esta segunda chance vale para quem não teve oportunidade de se confrontar com Jesus Crista nesta vida.
A Carta aos Hebreus nos ensina a encarar com seriedade a nossa existência aqui na terra. Não sejamos levianos, esperando oportunidades no purgatório, ou transferindo decisões e responsabilidades para outras encarnações. O momento decisivo é hoje, aqui mesmo.
Precisamos aprender a deixar a Bíblia falar a respeito dos mortos. A teologia protestante nega o purgatório e o limbo, mas não tem oferecido maior reflexão sobre o que acontece entre a morte de cada indivíduo e a ressurreição de todos os mortos.