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As Idéias Religiosas e a Guerra Santa de Bush

ImageOcasionalmente navegando pela internet, deparei-me com um texto muito interessante do jornal La Jornada, na coluna semanal de Jaime Avilés, com o título ?Desfiladero?, na qual discorre sobre o fundo donde brotam as idéias políticas de desestabilização global originárias da Casa Branca. Segundo Avilés, estamos diante da demência apocalíptica dos Cristãos Renascidos. Melhor ainda: As idéias de Bush são as idéias fundamentalistas dos cristãos renascidos. Vamos tentar algumas transcrições.

Os antigos presidentes norte-americanos, por muitas vezes, cometeram as maiores atrocidades em nome da democracia e com a suposta bênção de Deus. A guerra atual, que resultou numa ocupação arbitrária, contrariando a OEA, ignorando a ONU e todas as nações do mundo, exceto 4 ou 5 que se posicionaram a favor da coalizão anglo-americana, é um ato unilateral contra o mundo todo, declaradamente ?em nome de Deus?. Na ironia cortante de Eduardo Galeano, João Paulo II, como ?máximo representante de Deus na terra?, foi desbancado, quando conclamou Bush, em nome de Deus, a poupar o povo iraquiano, os inocentes, as crianças, de uma guerra injustificável, e não obteve qualquer resposta. E Galeano pergunta: ?Por que Deus daria ordens tão contraditórias?? Há uma resposta possível.

Há coisas significativas formando o cenário preparatório dessa guerra. Quando Mônica Lewinsky inaugurava o teledrama oral com Clinton, a Igreja Católica dos Estados Unidos ardia na fogueira dos escândalos sexuais pedófilos, enquanto choviam críticas e queixas que acusavam os sacerdotes envolvidos. Todos sabemos que o Vaticano silenciou-se por muito tempo sobre os abusos que finalmente vieram a público. Foi um erro muito grave que comprometeu o conceito que têm os milhares de padres que jamais se envolveram ou se evolveriam em questões semelhantes. Um número insignificante, claro que estatisticamente falando, fez o estrago, foi gigantesco, prejudicou a esmagadora maioria obediente aos votos e vocacionada de sacerdotes católicos a que se impõe um celibato quase insustentável, que por sinal nada tem a ver com a pedofilia, que existe abundantemente no laicato geral, protestante ou católico. Poucos admitem isso, então...

Nos Estados Unidos, a Igreja de João Paulo II não é predominante. Além do mais, é odiado pelo fundamentalismo evangélico. Seus adeptos são latino-americanos, italianos e irlandeses. Estes formam uma maioria que se estende pela costa do Atlântico e do Pacífico. No Centro e no Sul, não são muitos os católicos, e aí predominam os ?evangélicos? de várias seitas. O protestantismo de Lutero e Calvino também perdeu terreno, de modo considerável. Nos últimos 30 anos, dividindo e subdividindo o protestantismo, o movimento religioso dos Again Christians (cristãos renascidos) se nutre desse enfraquecimento. Nem mesmo os escândalos que atingiram vários nomes desse movimento, também de ordem sexual, impediu seu crescimento. Pois bem, diante de Mônica Lewinsky e suas acrobacias orais, e dos padres pedófilos com seus atropelos carnais levados à justiça e ao público mundial, podem ser responsabilizados por uma parte do que vem acontecendo, mas só na base do pretexto. É claro que eles influenciaram os milhares de católicos que optaram, juntamente com o bom número de judeus, por esse movimento espiritual. Trata-se de uma cristalização. Apenas, por decantação, fez aflorar o que vem acontecendo com o povo americano nas últimas décadas, no que se refere a seus ideais e suas crenças. Por volta de janeiro de 2000, o Instituto Gallup empreendeu uma pesquisa sobre este assunto e constatou que 41 por cento da população americana aderira às idéias desse movimento. Constituem os devotos e os fiéis do Renascimento Cristão, entre os quais o mais ilustre: George Walker Bush. Será que uma casualidade explicaria a sua eleição com 47 por cento dos votos daquela eleição que se arrastou por 4 semanas para se anunciar que o candidato democrata com a maioria dos votos perdera para o atual presidente?

Em que se inspiram os cristãos fundamentalistas renascidos? Na Bíblia, claro. E o livro do Apocalipse, interpretado ao jeito literalista daqueles evangelicalistas. Ele prediz que o fim da humanidade quando o Anticristo originário da Babilônia (exatamente onde está o Iraque), a ?grande meretriz? será derrotada. Será devastada pela ?morte destruição e fome, e será queimada pelo fogo?. Então Cristo voltará pela segunda vez e destruirá seu adversário num terreno descrito como Armagedon, no alto da colina de Megido, ao norte de Israel. A profecia bíblica, como aceitam fundamentalistas de um modo geral, assegura uma ampla batalha de ?relâmpagos?, ?vozes? e ?tronos?, bem como um terremoto de grandes proporções, como nunca se viu. Mas há um porém, nem todos serão destruídos, Cristo salvará as almas dos que lhes forem leais. Para os ?cristãos renascidos?, contudo, essa interpretação está incompleta e errada: Só eles serão levados ao Paraíso, e os seguidores do Papa, como os budistas e muçulmanos, serão condenados ao inferno. Em algumas notas que se seguem poderemos ver os indícios de que o chefe da Casa Branca está provocando deliberadamente o caos mundial para ?acelerar? (lembram-se de Francis Fukoyama: O Fim da História? O neoliberalismo é o Reino...) o retorno do Messias. Tomamos algumas notas elaboradas e divulgadas pela agência independente Incision Research:

?Apocalypsis right now? (Certamente o apocalypse é agora, parece...). Nas rodovias que se chamam atualmente de Bible Belt (Cinturão Bíblico) dos EUA, os anúncios nas rodovias invocam cenas terríveis do Apocalipse. Com frases ameaçadoras, os americanos não convertidos ao ?cristianismo dos renascidos? deparam-se com uma proclamação bíblica: ?Arrependam-se, Jesus Cristo já está chegando! Jesus Cristo voltará outra vez! O dia do juízo final está próximo! Só os renascidos se salvarão!? Esta é também a situação dos evangélicos comuns, em sua casa existem somente 2 livros: A Bíblia e um exemplar da obra de Tim LaHaye e Jerri Jenkins: Left Behind (Os que ficarão para trás ? e é muita gente!). Ali, os autores contam a história do fim do mundo e do Anticristo, que se apodera da Organização das Nações Unidas e a transporta para a Babilônia reconstruída. De uns anos para cá, os fans desse livro tomaram muito a sério suas palavras e seu conteúdo como um fato histórico. ?Quando Saddan Hussein assumiu o poder no Iraque, iniciou-se a reconstrução da Babilônia?. O ex-presidente da maior união batista do mundo, a Convenção Batista do Sul, com 15 milhões de membros filiados, segundo eles mesmos afirmam, Jerry Falwell (aquele mesmo, do ?Larry Flynt?), assessor de Ronald Reagan, que havia feito sua filiação aos ?cristãos renascidos? em 1971, -?o Anticristo já se encontra entre nós, trata-se de um muçulmano que porá à frente dos povos árabes para invadir Israel?.

Há alguns meses, em um discurso difundido pela televisão nacional dos EUA, portanto recentemente, Falwell volta ao cenário de ataques ao Iraque afirmando que Maomé foi ?terrorista? e que era uma blasfêmia o que se atribuia a Bush:?Nosso presidente não esta interessado no petróleo do Iraque?. Defensor da política segregacionista do racismo judeu, a favor do genocídio proposto por Ariel Sharon, Falwell chegou a afirmar por várias vezes que ?as terras de Israel deverão ser reunificadas para que se cumpra a profecia do Apocalipse e se dê a última batalha entre o bem e o mal?.

Num culto público realizado no Tenessee, dia 9 de setembro de 2001, precisamente em Chesnut Valley, uma cidadezinha rural, num templo batista da Convenção do Sul, o pregador falou com veemência sobre a necessidade moral de fazer-se a guerra contra os muçulmanos, em particular a guerra contra o Afeganistão. A encomenda do sermão, por fax, teria sido gerada no Salão Oval da Casa Branca e encaminhada a milhares de igrejas e seus líderes. Katherine Austin Fits, ex-subsecretária de Habitação do governo Bush, que participara da celebração, voltou para casa perturbada, chamou um amigo e lhe disse: ?Não sei o que está se passando, mas creio que vamos à guerra com o Afeganistão?... Exatamente dois dias depois, 11 de setembro, as torres gêmeas do World Trade Center vinham abaixo.

No mesmo púlpito fundamentalista, em 1987, o evangelista Billy Grahan, amigo de Bush, o pai, famoso por suas pregações na televisão, convencia Bush filho a deixar a cocaína e a bebida, converteu-o a um ?cristão renascido?. WC escreveu um livro relatando a sua conversão, ?A Charge to Keep? (Uma Missão a Cumprir). Relatou: ?Em 1999, ao ouvir um sermão do reverendo Mark Craig, compreendi que Deus me chamara para ser presidente dos Estados Unidos?. Dois anos depois declarava ao Time Magazine, quando eram derrubadas as torres gêmeas : ?Graças a Deus estou governando este país neste momento?. Nessa ocasião, o subdiretor de relações públicas da Casa Branca, Tim Goeglein, afirmou: ?O presidente Bush é o eleito de Deus para este tempo, e o digo com muita humildade?... A esta altura parece que Bush estava bem acompanhado com sua ?comunidade de eleitos? (World Magazine). Em outra parte de sua biografia espiritual Bush relatou sua peregrinação à Terra Santa. Recorda que um dia, em 1998, depois de cear em companhia de mórmons, metodistas, batistas e judeus, ele e Laura, sua esposa, dispuseram-se a orar dentro d?água. Meteram-se no mar da Galiléia, próximo de Megido, e de mãos entrelaçadas começaram a orar. Prontamente, ?uma voz interior me disse as seguintes palavras: O tempo se aproxima, agora / Nomeado pelos profetas de todos os tempos/ Quando todos conviveremos juntos / Um só pastor e um só rebanho/ Judeus e gentílicos se encontram / De muitas terras distantes / Ajoelhados diante do mesmo altar / Adorando o mesmo Senhor? (The Guardian, 26/01/2003).

Cada manhã, ao saltar da cama, a primeira coisa que George C. Bush faz é ler a Bíblia, a quem chama de ?um bom manual político?. Depois, do mesmo modo que fazia Reagan, chega ao Salão Oval e preside uma sessão de orações conduzida por um pregador. Dela participam católicos, judeus e ?evangélicos?, na condição de convertidos, Nascidos Novamente. Um judeu que inventou o termo ?eixo do mal?, em seu livro ?The Right Man? (O Homem Correto), descreve o clima que impera nessas ?correntes de oração?, espirituais, e lembra o dia em que um colega faltou a uma delas, Michael Gerson. Bush repreendeu-o com severidade, lembrando-o que sua assistência ao ritual matutino é ?voluntariamente? obrigatória.

Os conselheiros religiosos de Geobe C. Bush são os pregadores Billy Grahan e Júnior, seu filho, com mesmo nome, Jim Robson e Tony Evans. Michael Gerson, também pastor evangelista, é quem escreve as mensagens do presidente. Para uma população convencida de que deve ir à guerra é a melhor maneira de convocar o Messias, Gerson utiliza uma linguagem codificada de textos fundamentalistas para animar a retórica bélica de Bush. Paul Boyer, professor emérito da Universidade de Wisconsin, anotou no periódico ?Cronicle of Higher Education? que Bush, quando fez um discurso à nação lembrando que Hussein ?poderia desencadear um dia de horror como nunca antes se viu?, invoca um antigo e poderoso vocabulário que comunica a milhões de cristãos um espécie de mensagem específica e emocionante de que o fim se aproxima, não só o de Saddam, mas de toda a espécie humana em conjunto?.

Bush foi preparado por Tony Evans para o ?tempo em que o povo de Deus vai tomar o poder terreal?. Esta tarefa George C. Bush definiu como ?sua grande missão?, nos documentos oficiais de segurança nacional. Interpretando o pensamento do presidente americano, o jornalista Bob Woodward conclui que ?o presidente supõe que sua missão, juntamente com todo o país, responde ao Plano de Deus para a humanidade, e assim o projeta em seu próprio plano?. Outro analista, Michael Ortiz Hill, fez uma advertência: ?Bush atacou tantos sistemas vitais, em tantas frentes, da política externa à política do meio-ambiente, que a ótica da ?realpolitic? pode ser ofuscada, causando confusão. Porém, o resultado que transparece nos termos de uma visão apocalíptica é claro, embora intencionalmente mal delineado: todos os sistemas falam de condições para que o Messias regresse. E parece que Bush faz tudo para trazê-lo?.

O leitor pode ficar intrigado com a veracidade de todos este dados. Mas a internet está aí para isso: Busca>Google>, etc, (clique aqui), levam o navegador aos sites dos nomes aqui citados e todas as fontes indicadas. As proporções são assustadoras, mas se observarmos o quanto a intervenção no Iraque é rejeitada, e como declarações sobre a Síria (o caminho de Damasco) complementam as intenções da coalizão, ouviremos mais sobre a Coréia do Norte, sobre o Paquistão e a Índia, a Líbia, e outras nações, brevemente. Então poderemos compreender porque os fundamentalistas da Casa Branca, a corrente de oração do Salão Oval, acreditam estar realizando a ?obra de Deus através de uma guerra santa?. Que podemos esperar? Amém? De jeito nenhum, Deus nos livre!

Pr. Derval Dasilio é ministro da Igreja Presbiteriana Unida (IPU) é atual Diretor da Faculdade Teológica Richard Shaull da IPU.
 
 
 
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