Afetividade e Sexualidade

AFETIVIDADE E SEXUALIDADE:

UMA BÊNÇÃO INTEGRAL DE DEUS

Diante do tema, a grande pergunta que devemos fazer de fundo é como caracterizam-se a afetividade e sexualidade na Igreja em uma perspectiva dicotômica e integrada. Desde as culturas mais remotas, sempre houve uma tensão entre o profano e o sagrado, entre o espiritual e o material, entre a razão e o corpo, etc. O platonismo influenciou demasiadamente o mundo europeu, valorizando a razão em detrimento do corpo. No entanto, o que  mais influenciou e tem influenciado as nossas culturas, e particularmente o cristianismo, tem sido o estoicismo, ainda que nos últimos tempos com outras capas, com outras roupas, mas o seu fundamento é o mesmo. O estoicismo vê o ser humano ou define o ser humano pôr logos (razão), satelizando com isso a dimensão do corpo, que é visto sempre como prisão do logos-razão. Ora, toda a questão da afetividade e corporeidade, envolvendo a própria sexualidade é absolutamente repugnada.

Lamentavelmente nossas Comunidades Cristãs têm sido sufocadas por esse pensamento avassalador, que destrói, inclusive, toda perspectiva teológica da teologia cristã da criação.

De um modo geral verificamos em nossas Igrejas a ênfase acentuada no espiritual em detrimento do material, do corpo. Freqüentemente ouço frases do tipo: “O importante é salvar a alma, o corpo não tem qualquer valor”. “Senhor, salva nesta noite muitas almas”. O povo reflete inconscientemente todo um condicionamento cultural, marcadamente por uma filosofia dualista, dicotômica.

No campo da afetividade e da sexualidade temos alguns grandes inimigos que precisam ser superados sob risco de perdermos o caminho do verdadeiro encontro com Deus, com o outro e com o meio ambiente. São eles:


O racionalismo

O racionalismo destrói qualquer relação afetiva com o outro, visto que o outro nunca é visto numa perspectiva bíblico-cristã. É fundamental superar a racionalidade em detrimento da afetividade, em todos os seus níveis. Nas nossas Igrejas o que mais aparece é o bem estar pessoal, fruto da influência platônica, neoplatônica e estóica, onde aparece muito o indivíduo egoísta, que não olha o outro e não busca a felicidade do outro. Nessa perspectiva temos uma comunidade enferma, fechada, insensível, pois os seus próprios membros não conseguem superar essa drama existencial.

Na relação marido-mulher o homem não pode ceder às paixões, onde o homem sábio é aquele guiado pela insensibilidade e pela ausência de prazer.


Patriarcalismo

Temos ainda outro grande inimigo a ser vencido em nossa cultura e particularmente em nossas Igrejas, que é o patriarcalismo. O mundo moderno é masculino e dominador. Percebemos uma luta na tentativa de mudar o quadro através de movimentos religiosos que buscam resgatar a afetividade corporal e emocional. O problema é que temos que ter cuidado para não sairmos de um extremo e cairmos em outro.


Medo

Em função dos dois itens acima, surge um grande medo pela descoberta do corpo, fato que precisa ser superado sem qualquer banalização do mesmo. Valorizar o corpo em todas as suas dimensões exige cuidado, limites, etc.

O grande desafio, portanto, é articular razão-afetividade-sexualidade, num processo contínuo que visa exatamente a humanização do homem pelos canais de observância dos padrões bíblico-cristãos. O desafio é articular uma visão integrada do ser humano dentro das nossas Igrejas.


Em primeiro lugar a questão da superação do problema da afetividade e da sexualidade está na compreensão de que o corpo é veículo de ralações.

Conhecer o corpo é pressuposto para o amadurecimento da afetividade e da sexualidade. Desvalorizar o corpo é mutilar as relações. Quando as relações entre marido e mulher, na perspectiva da afetividade e da sexualidade, são dicotômicas, o sexo, por exemplo, é visto e praticado apenas como algo biológico, visando apenas a procriação. Ora, não é difícil imaginar uma relação nessa base completamente desprovida de afetividade e da verdadeira sexualidade. As culturas exigem uma regulamentação do exercício da sexualidade, a fim de humanizar o ser humano. E a melhor é a bíblico-cristã, visto que a sexualidade é vista numa visão integrada, permitindo que cada um seja diferente do outro e possibilitando o respeito e a alteridade do outro. Portanto, confundir os sexos, eliminar as diferenças, é algo completamente desumanizante. A prática da afetividade e sexualidade em todas dimensões da vida, exige a consciência de que o homem foi chamado a viver a diferença com Deus, consigo mesmo, com o outro e com o meio ambiente. Ora, não aceitar a diferença e o limite do outro numa relação, só gera dominação.

A visão bíblica valoriza a afetividade e a sexualidade humana, visto que o apetite sexual é sinal da finitude e da diferença do outro. O perigo sempre foi tornar isso numa relação de dominação.


Em segundo lugar a questão da superação do problema da afetividade e da sexualidade está intimamente ligado a visão da imagem que o homem tem de Deus.

Quando o homem aceita Deus como o Deus dialógico, ágape, a relação homem-mulher será altamente construtiva, visto que a sexualidade faz parte do ser integral da humanidade criada à imagem e semelhança de Deus.

Nossas Igrejas quando não vivem sob o estigma da cultura patriarcal, onde o corpo do outro é desprezado, principalmente o da mulher, onde o sexo é visto apenas no campo biológico etc, percebem-se casais infelizes, mulheres insatisfeitas, famílias mutiladas, etc, desembocando na Igreja - família maior de convivência cristã. Vive-se uma espécie de sexualidade moderna, onde a tônica é o prazer pelo prazer, o orgasmo pelo orgasmo. No final das contas, o sexo volta ao nível biológico reprodutivo. Essa nova sexualidade é fortemente patriarcal, pois a mulher é apenas objeto de prazer, objeto de uso descartável. A mulher é ser de segunda categoria. Nessa perspectiva, mais do que na outra, mesmo as duas sendo perversas, temos a banalização do casamento. Nunca se casou com tanta facilidade como em nossos dias e nunca se divorciou ou se separou como em nossos dias. Nossas Igrejas são prova inequívoca dessa dura e triste realidade. Isso prova que ainda não foi superada a visão dicotômica e nem amadurecida a prática integrada de uma vivência sadia na relação homem-mulher, partindo da compreensão do Deus-Ágape, do seu dom gratuito.


Em terceiro lugar a questão da superação do problema  da afetividade e da sexualidade está na percepção  do amor de Deus derramado nos corações.

Partindo da visão bíblico-cristã, precisamos compreender que o homem é um ser complexo e variado, nas suas dimensões espiritual e corporal, razão e afetivo, individual e comunitário etc. A visão bíblica integrada nos ensina que a sexualidade precisa ser vista como parte fundamental da relação homem-mulher. Contudo, somente na base do amor de Deus sendo derramado nos corações humanos, na base da gratuidade é que haverá relação afetiva madura e humanizante, visto que o amor é o programa de Deus para uma relação afetiva e humana, que tanto promana dEle como também faz parte da própria existencialidade humana.

Somente através do amor de Deus, como Dom gratuito dado aos homens, que é possível uma relação madura no campo da afetividade e da sexualidade. No entanto, o amor tem sido confundido como desejo sexual, o que pode freqüentemente, desvinculado do amor agápico, coisificar o outro. O desejo sexual numa relação deve transcender a relação sexual, incluindo-a, naturalmente. Não podemos negar que o amadurecimento afetivo e sexual gera crescimento espiritual. Portanto, o desafio em nossas Comunidades tem sido superar, com urgência, o dualismo entre sexualidade e vida espiritual.

A vivência do casal numa relação dicotômica gera fechamento, insensibilidade, ressentimentos, toda sorte de frustração pessoal e conjugal, mágoas, preconceitos, infidelidade, insegurança, relações distantes, áridas, secas, vazias, ossificadas etc.

Ora, no ajuntamento da Comunidade Cristã e vivência da fé coletiva, os problemas surgem como efeito cascata. As Igrejas sofrem demasiadamente. O trabalho pastoral é estafante, pois não há articulação entre o Deus-Ágape e o homem receptor desse dom.

Quando de fato se vive no seguimento de Jesus Cristo, entendendo nossa relação com o Deus-Pai, percebendo nossa realidade humana numa perspectiva integral, pois Deus assim nos criou, visando nossa própria felicidade, a relação homem-mulher se dá numa abertura ao outro, com respeito e com fidelidade ao outro, buscando o bem do outro. A manipulação e a dominação só aparecem quando não há confiança no outro e nem a percepção de que o outro é também imagem de Deus.

Creio que nossas Igrejas precisam trabalhar mais essa questão da afetividade e da sexualidade, seja através de uma liturgia mais aberta, espontânea, participativa, onde todos sejam valorizados, vistos como seres humanos, seja pelo cultivo da comunhão cristã via reuniões em grupos menores, seja através de palestras, estudos; e no campo da sexualidade é preciso resgatar a  nossa fala pastoral, no sentido do esclarecimento, da conversa franca, dos estudos bíblicos, nas palestras especializadas, através da criação de encontros de casais, algo cada vez mais difundido em nossas Comunidades, que busca resgatar a interação homem-mulher numa perspectiva bíblica.

Numa relação integrada homem-mulher é preciso o exercício da escuta e da fala, do oferecimento da ajuda, do ombro e da aceitação da ajuda do outro; no cuidado do outro, prática da ternura etc.

As relações humanas precisam ser banhadas pela vivência com o Deus criador-salvador. Quanto maior nossa abertura a Deus maior e melhor será nossa relação com o outro e muito mais humana. Essa abertura ao Deus-Ágape-Dialógico é fundamento para as relações integrais e humanizantes. Quanto maior nossa relação com Deus mais maduras serão nossas relações com o outro.

A teologia da criação nos ensina claramente acerca da igualdade do homem e da mulher diante de Deus, pois ambos foram criados à imagem de Deus. Percebemos claramente nossa humanidade autêntica que revela nossa “divindade”, como também nossa pluralidade, ou seja, nossos relacionamentos de amor, incluindo nossa sexualidade. Embora Deus tenha feito homem e mulher iguais no que tange à sua imagem, também os fez diferentes. Portanto, homem e mulher devem reconhecer suas diferenças, sem tentar eliminá-las ou usurpar as características um do outro.

É fundamental que o casal viva vida sexual abundante e carinhosa, na perspectiva do amor de Deus, visto que o cônjuge precisa entender o direito do outro, visando o prazer do outro, pela sua própria corporeidade, acabando assim com a idéia da relação sexual apenas procriativa. Deus ao criar homem e mulher os criou com dimensões de prazer.

A maturidade afetiva e sexual gera participação nas decisões mútuas e capacidade do exercício do perdão.


CONCLUSÃO

Podemos concluir dizendo que a prática da visão dicotômica é fruto da falta de compreensão da teologia da criação e do Deus-Criador-Ágape-Dialógico, que cria homem e mulher para viverem a integralidade da relação dialógica e agápica. Isso na Igreja é freqüentemente observado visto que uma relação distorcida com Deus gera uma relação também distorcida no exercício da afetividade e da sexualidade.

Por outro lado, o caminho da vivência do amor ágape e dos demais derivados, proporciona a humanização do ser humano, num clima onde afetividade e sexualidade fazem parte integral do mesmo. O desafio para as Comunidades Cristãs é ajudar no estabelecimento de relações saudáveis, sólidas, construtivas etc, gerando no seio da Igreja pessoas estruturadas, líderes capazes, pessoas encontradas consigo mesmas, com os outros e com o seu meio social e ambiental.

Prof. Dr. Marcos Azevedo é pastor da Igreja Presbiteriana em Mata da Praia, Vitória – ES,

Coordenador do Bacharelado em Teologia da Faculdade Unida

e professor de Teologia Sistemática, Ecumenismo e Ética.

 
 
 
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